Revista
do Projeto Pedagógico
V - Trabalhando
com a Comunidade
4.
Parceiros na Aprendizagem
Abrir
as portas à participação de familiares e da comunidade
ajuda os alunos a ter sucesso na vida escolar e colabora para diminuir
a evasão e a violência
Paola
Gentile de Aracaju, Belo Horizonte e Colorado (RS)
Quando
as notas são altas e tudo vai bem, ninguém pensa em discutir
a relação. Se o boletim e o comportamento deixam a desejar,
começa o jogo de empurra. Professores culpam a família
"desestruturada", que não impõe limites nem
se interessa pela Educação. Os pais, por sua vez, acusam
a escola de negligente, quando não tacham o próprio filho
de irresponsável. Nessa briga nada saudável , a única
vítima é o aluno. Escola e família têm os
mesmos objetivos: fazer a criança se desenvolver em todos os
aspectos e ter sucesso na aprendizagem. As instituições
que conseguiram transformar os pais ou responsáveis em parceiros
diminuíram os índices de evasão e de violência
e melhoraram o rendimento das turmas de forma significativa. Pesquisa
realizada pelo instituto La Fabricca do Brasil, em conjunto com o Ministério
da Educação, mostrou que há um desejo explícito
por mais intimidade: 77,2% dos pais acham que um bom relacionamento
entre as duas partes é raro, mas 43,7% gostariam que a escola
promovesse mais reuniões, palestras e encontros para eles. Já
77,2% dos professores de instituições públicas
consideram insatisfatória a participação dos familiares,
mas 99,5% crêem ser de extrema importância um contato mais
estreito.
Ninguém quer exigir que em casa sejam ensinados conteúdos
de Matemática ou Ciências. Mas cabe aos pais verificar
se a lição foi feita e elogiar quando o menino ou a menina
calcula certo o troco do sorveteiro. O professor também não
deve se sentir como o único responsável pela formação
de valores. Porém, é fundamental considerar os que são
trazidos de casa pelos estudantes e contribuir para fortalecer princípios
éticos. "O segredo de uma boa relação é
saber ouvir, respeitar as culturas e trabalhar junto", afirma Heloisa
Szymanski, da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo. Existem diversas formas de esse casamento se consolidar. Nesta
reportagem, você vai conhecer algumas experiências bem-sucedidas,
além de um guia com ações para a equipe pedagógica
se aproximar de seu público. Vai encontrar dicas para educadores
e responsáveis ajudarem os estudantes a ter sucesso, para manter
o bom relacionamento com a família de adolescentes e solicitar
a participação de pais analfabetos ou analfabetos funcionais.
A família dos dias de hoje - Para a relação ser
duradoura, tem de se basear em respeito. Preconceito, portanto, não
pode existir. Falar em família desestruturada ou desajustada
não faz sentido quando se analisa a realidade doméstica
atual. Tanto que a Organização das Nações
Unidas, há mais de uma década, trouxe o tema para reflexão
ao instituir o Ano Internacional da Família. Os documentos elaborados
na época apontaram que a principal característica dessa
instituição é a capacidade de seus membros de manter
e educar seus dependentes para a vida, segundo princípios éticos,
culturais e legais. Os vínculos biológicos (ser o pai
ou a mãe), jurídicos (matrimônio formal ou não),
afetivos (amor), domiciliares (morar sob o mesmo teto) ou econômicos
(dependência financeira) podem existir juntos ou isoladamente.
Essa explicação é necessária para derrubar
a primeira barreira que impede uma convivência eficiente: o fato
de muitas vezes a escola achar que uma família, por não
corresponder aos padrões tradicionais, não é capaz
de cuidar da formação de seus descendentes. Antonio Carlos
Gomes da Costa, presidente da organização não-governamental
Modus Faciendi, em Belo Horizonte, acredita que em cada casa deveria
existir um educador familiar: a pessoa que "adota" a criança
em termos de orientação. "Pode ser o pai ou a mãe,
mas isso não é regra. Tem de ser alguém interessado
no processo de aprendizagem, não importando o preparo intelectual
nem o vínculo biológico, e sim o afeto." A família
é o primeiro grupo com o qual a pessoa convive e seus membros
são exemplos para a vida. No que diz respeito à Educação,
se essas pessoas demonstrarem curiosidade em relação ao
que acontece em sala de aula e reforçarem a importância
do que está sendo aprendido, estarão dando uma enorme
contribuição para o sucesso da aprendizagem. Pode parecer
simples, e é. Tanto que é exatamente o que tem sido pedido
aos responsáveis pelos estudantes de todos os níveis de
ensino. Mostrar isso às famílias é tarefa dos educadores.
Para tanto, é preciso um trabalho de conquista. Só que
é impossível haver aproximação quando só
são marcados encontros para falar de problemas. Isso causa antipatia
e repulsa. O bom relacionamento deve começar na matrícula
e se estender a todos os momentos.
Entrosamento
total
Envolver os familiares na elaboração da proposta pedagógica
pode ser a meta dos educadores ávidos por um entrosamento total
com eles. Foi o que fez a EE Giulio David Leone, em São Paulo.
Em 1994, os professores da Giulio sentiram na pele a rejeição
dos pais ao chamá-los para conversar sobre a implantação
do sistema modular de ensino. Depois de expor o projeto, a diretora
Marlene Rodrigues da Cruz ouviu de vários deles: "Pior não
fica". Chocada com o comentário, ela viu que, antes de qualquer
iniciativa, era preciso mobilizar a equipe pedagógica para resgatar
a credibilidade da instituição. Ao longo dos anos, reuniões
eram convocadas a cada dois meses não para reclamar do comportamento
dos estudantes, mas para contar o que eles iriam aprender, para que
e como. Quem compareceu ajudou na consolidação do novo
projeto pedagógico.
Os encontros eram marcados por dinâmicas nas quais os participantes
percebiam a im
portância do trabalho conjunto. Aos pais (principalmente nos finais
de semana) e aos alunos (sempre no contraturno) foram oferecidas oficinas
de culinária, teatro, informática e jogos recreativos,
entre outras. Hoje, depois de 12 anos de parceria consolidada, os resultados
falam por si: a retenção caiu de 45% para 2% (antes mesmo
da implantação da progressão continuada); a evasão
recuou de 20% para 3%; e o número dos que prestam vestibular
saltou para 60%, contra menos de 1% em 1994. Marina Tavares, mãe
de quatro alunos da Giulio, elevou o conceito sobre a escola depois
que foi envolvida no processo e o conheceu de perto. Contribuiu também
para a mudança o tratamento recebido quando um dos meninos, Douglas,
hoje com 14 anos, apresentou dificuldades nos estudos em virtude da
morte do pai. Após algumas conversas com a coordenação
pedagógica, ela passou a acompanhar as lições de
casa e a se envolver nas tarefas propostas pela professora. Sem computador
em casa, Marina vai com Douglas até um cyber café do bairro
para ajudá-lo em pesquisas.
Na EE Bolivar Tinoco Mineiro, na periferia de Belo Horizonte, a parceria
com a família foi ainda mais intensa. No ano passado, a professora
Joana D'Arc Santana Fonseca colocou Vanilda de Jesus dentro da sala
de aula. Mãe de Pedro Henrique, 10 anos, ela se ofereceu para
ficar ao lado dele e impulsioná-lo a superar um sério
problema de dispersão, que o impedia de prestar atenção
e de participar das atividades em grupo: "Como não acabei
os estudos [ela cursou até a 3ª série], achei que
não seria útil, mas só com a minha presença
ele progrediu". Em casa, ela olha os cadernos todos os dias depois
que volta do trabalho. "Ficou mais gostoso estudar ao lado dela",
conta o menino, que continua freqüentando as aulas de reforço,
mas viu as notas melhorarem sensivelmente.
A Bolivar Tinoco também está em processo de mudança
de imagem para resgatar o prestígio. Ela era depredada e rodeada
por um lixão, o que afastava o público e a comunidade.
O programa Escola Viva Comunidade Ativa, implantado pela Secretaria
de Estado da Educação de Minas Gerais, fez com que o espaço
em que havia entulho e dejetos virasse horta. Ali, estudantes mais velhos,
pais e vizinhos trabalham no cultivo de hortaliças e ervas medicinais.
Os pequenos vão até lá para aprender os mais diversos
conteúdos. O colégio virou referência no bairro
e acabou com a evasão. Diego de Paula Miranda, 17 anos, está
no 2º ano do Ensino Médio, voltou a estudar lá e
é um dos que cuidam da horta com o pai, o líder comunitário
Itamar de Paula Santos.
Visitar
as casas dos alunos
Nas grandes cidades, a falta de tempo é um dos fatores que afastam
as famílias da escola. Na área rural, é a distância.
O uso do transporte pelos estudantes transforma aquela conversa na porta
de entrada em uma ocasião cada vez mais rara. Ainda que rápido,
o encontro serve para troca de informações entre o professor
e os pais. Contudo, essa realidade não pode servir de desculpa
para a falta de contato. Algumas ações ajudam a suprir
a carência, como uma pesquisa com as famílias para saber
de sua rotina, hábitos e preferências e ela pode ser feita
pelas próprias crianças ou durante uma visita pessoal
do educador.
Sentindo que o afastamento poderia prejudicar seriamente o trabalho
pedagógico, Simone Fiorese Weiss, da EMEF Espírito Santo,
em Colorado, no interior do Rio Grande do Sul, optou pelo contato direto.
Levou a turma toda para conhecer a moradia dos 14 estudantes da 3ª
série, há dois anos. "Desde então, os pais
demonstram mais confiança em meu trabalho, comparecem às
reuniões e acompanham as lições", afirma.
As famílias sentiram-se valorizadas não só pela
presença da professora em casa mas também pelo uso que
Simone fez do que era aprendido nas visitas. Tudo virou conteúdo
para ser pesquisado e estudado em sala de aula. Alguns exemplos: A diferença
entre agricultura comercial e de subsistência e a formação
de condomínios para compra e uso de equipamentos agrícolas
observadas durante a visita à família de Bruna Nicolao.
O aprofundamento do estudo dos mamíferos, o perigo da contaminação
do solo provocado pelos chiqueiros e os pontos cardeais na confecção
da maquete da propriedade em que mora Daniel Santos, que tem como principal
atividade a criação de suínos. A importância
da alimentação natural e o cultivo de hortaliças
em estufas, aprendizados iniciados na casa de Catrine Lammers. "Depois
dessa iniciativa da professora, minha filha deixou de ser tímida
e agora se interessa por tudo. Até parece repórter",
brinca Edair Nicolao, pai de Bruna. Jussara e Ademir Santos, pais de
Daniel, lembram que o guri tinha muita dificuldade em redação
no início do ano. Agora, seus textos são exemplares: "Ficou
muito mais fácil escrever sobre assuntos e pessoas que eu conheço",
justifica ele.
Portas
sempre abertas
A Escola Teia Multicultural, em São Paulo, optou por uma estratégia
diferente, mas que agradou muito a seu público. Existe um convite
permanente para os pais irem até lá todas as sextas-feiras
após as 18 horas. O encontro começa com uma atividade
cultural (show de música, apresentação de dança
etc.) ou uma dinâmica coletiva. Depois, a conversa com os professores
flui naturalmente para o trabalho pedagógico e o progresso da
garotada. "Queremos formar uma comunidade", diz a coordenadora
pedagógica Elaine Naldi Martins. A proximidade entre as pessoas
que freqüentam a escola e atuam nela leva também à
diminuição da violência. Na rede estadual de São
Paulo, as ocorrências recuaram 51% desde 2003, quando foi implantado
em toda a rede o Programa Escola da Família. A EE Castro Alves,
na capital, vítima de roubo de equipamentos, pichação
e quebradeira, nunca mais registrou agressões desde que passou
a receber de 500 a 800 pessoas nos finais de semana. Os avanços
no comportamento e no aprendizado dos alunos já estão
sendo sentidos. Waldirene Gaboni não foi mais chamada para ouvir
reclamações sobre a indisciplina do filho Moacir, 13 anos
- o que era rotina na outra escola em que estudava. Depois da transferência,
a família passa o sábado na Castro Alves. Ela começou
a freqüentar a oficina de panificação; a filha Bruna,
8 anos, cuida da brinquedoteca para os pequenos; Moacir aprende a fazer
mangá com uma colega do Ensino Médio; e o pai, também
Moacir, faz a manutenção nos computadores e dá
curso de Informática como voluntário. "Passei a valorizar
mais o trabalho dos professores e agora, em casa, conversamos muito
sobre tudo o que acontece na sala de aula", conta Waldirene.
Abrir os portões para os pais é uma via de mão
dupla: ao mesmo tempo que requisitam a parceria deles para melhorar
a aprendizagem, os educadores devem estar preparados para receber críticas
e implantar sugestões. Há dois anos, a EE Arício
Fortes, em Aracaju, conseguiu atrair familiares oferecendo, duas vezes
por semana, aulas de ginástica e dança.
Quando o programa Escola e Comunidade foi implantado pela Secretaria
de Estado da Educação de Sergipe nas unidades da capital,
a oferta de atividades foi ampliada, mas muitos pais já estavam
envolvidos com a rotina escolar. Tanto que requisitaram ao diretor,
Anderson Magalhães Oliveira, uma maneira de acompanhar tudo o
que acontecia por lá. Foi criada uma ficha individual, atualizada
diariamente por três pedagogas, contratadas exclusivamente para
essa missão. Maria de Lourdes Tintiliano a consulta sempre para
se inteirar do desenvolvimento da neta Itaianá de Oliveira, da
7ª série. No projeto realizado no ano passado sobre os 150
anos de Aracaju, os parentes foram as fontes de informação
dos estudantes sobre a cidade antiga, ajudaram na confecção
de maquetes e até na apresentação no dia da feira
cultural, como fez Maria Isabel Santos Gonçalves, mãe
de Tatiana, da 8ª série. As reuniões de pais - que
antes registravam três ou quatro presenças - agora vivem
lotadas. Em março, para discutir a implantação
do período integral, apareceram 190 pessoas - e são 220
os matriculados nesse regime. Para Antonio Carlos Gomes da Costa, o
importante é que os familiares se engajem totalmente: "Os
mais comprometidos, ainda que sejam minoria, têm capacidade de
influenciar o restante da comunidade e mudar a escola". E essa
mudança pode ser o segredo do sucesso para uma relação
duradoura e com final feliz.
Revista
Nova Escola, Edição 193
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Decálogo
a ser
seguido pelos gestores para a solução dos problemas de infra-estrutura
das Escolas Públicas Estaduais 1
Se não houver merendeira na escola, não
será fornecida a merenda;
2 Se não houver pessoa responsável pela Biblioteca,
ela permanecerá fechada; 3
Se não houver escriturários e secretário, de acordo
com o módulo, não haverá entrega de documentos na DE;
4 Se não houver verba
para compra de material e manutenção da sala de informática,
o local não será utilizado; 5
Se não houver recursos para reparos e vazamentos no prédio
escolar, não haverá consertos;
6 Se não houver recursos para pintura do prédio,
o prédio não será pintado;
7 Se não houver verba para a contratação
de contador para a escola, não haverá prestação de
contas à FDE; 8 Se
não houver verba suficiente para a contratação de funcionários
pela CLT, o dinheiro será devolvido;
9 Se a mão-de-obra provisória não
for qualificada, será recusada; 10
Se as festas não tiverem o objetivo de integrar a escola
à comunidade, não serão realizadas A
nossa escola é, por previsão constitucional, pública e gratuita.
Portanto, ela tem de ser custeada pelos cofres públicos. Todas
as omissões do Estado, com relação aos itens acima, deverão
ser objetos de ofícios da direção
às Diretorias Regionais de Ensino, a fim de isentarem o
diretor de eventuais responsabilidades administrativas. Toda e qualquer ameaça
de punição aos diretores associados da Udemo, por tomarem aquelas
atitudes, será objeto de defesa jurídica por parte do Sindicato,
seguida de denúncia ao Ministério Público e propositura de
Ações Civis Públicas contra o Estado, pelo não cumprimento
das suas obrigações para com as unidades escolares e pelos prejuízos
causados à comunidade escolar. |