Revista
do Projeto Pedagógico
V - Trabalhando
com a Comunidade
2.
Escola e Comunidade : Resistência à Violência
(...)
Integração
escola-comunidade
O
papel de uma escola é atender aos interesses de sua comunidade
e atender bem, para nela "viver e viver bem". Não podemos
compactuar com o discurso de que os alunos de periferia, por serem pobres
e negros, são menos capazes, portanto merecem uma escola pior.
A instituição-escola tem sido o lugar da descrença,
onde os agentes de uma pedagogia escolar, com tradição
da negação e da cultura do pessimismo, insistem na repetição.
Repetem o discurso e a prática do demissionário, daquele
que vive a desesperança. "Sem projeto na escola, cumprem
tarefas" (Linhares, 1997, pág. 168). É preciso insistir
para que todos os envolvidos na pedagogia escolar unam-se em torno de
um mesmo projeto, sintonizem-se no mesmo desejo e conscientizem-se da
mesma postura: de contribuir para equipar melhor a escola visando a
atender melhor seu aluno. Isso pode ser feito com debates, gincanas,
oficinas de arte e profissionalizantes, festivais de hip hop, capoeira,
torneios esportivos, excursões, visitas a museus e a órgãos
de interesse público. A idéia é que a escola rompa
com seus muros e traga a vida para dentro dela, com suas alegrias e
contradições....
A professora Eloísa Guimarães, doutora em educação
pela PUC- RJ, autora do livro Escola, galeras e narcotráfico,
estudou duas escolas públicas do Rio, conclui: devem ser criadas
atividades para estes alunos dentro da escola. Uma característica
da escola pública é que muitas vezes o aluno fica por
ali sem ter o que fazer, pois não tem aula, falta professor em
algumas disciplinas ou ele não vai. São medidas não
para aprisionar o estudante na escola, mas criar um ambiente onde ele
fique estudando de uma forma agradável. (Jornal do Brasil, 13/06/98)
As parcerias necessárias
Que
tipo de parcerias as escolas devem buscar? Não se trata de querer
reiventar a roda. Sabemos desde já que projetos que trabalham
numa perspectiva de estabelecer um vínculo de confiança
e de compromisso entre a escola, a comunidade e a sociedade, apresentam
resultados positivos. A escola deve se abrir com a comunidade, no sentido
de fazer com esta uma parceria que envolva responsabilidade, compromisso
e confiança, onde ambas estarão trabalhando com os mesmos
objetivos: ampliar os espaços, buscar apoios que possibilitarão
aumentar os equipamentos que poderão estar dando suporte para
uma formação mais ampla aos alunos, seja com oficinas
profissionalizantes, de arte, culinária. O que está em
questão é: como a escola pode criar condições
para melhor atender à demanda de sua comunidade? Nosso país
vive um momento de crise econômica e financeira, política
e social, ética e cultural. Resta às escolas correrem
atrás de parceiros que possam colaborar na expansão de
seu potencial de oferta de atividades para seus alunos, junto a iniciativa
privada, junto á própria comunidade, ou através
de projetos integrados entre secretarias de cultura, educação
e esporte, quando os jovens poderão estar em contato com seus
potenciais artísticos, tanto no campo da música como da
dança, do contar histórias, do artesanato, do esporte,
entre outros.
Para isso, é necessário sensibilizar a sociedade, pois
o que está em questão é: como reverter a crença
de que os pobres são incapazes e desprovidos de talento? Milton
Santos, no Jornal do Brasil de 25/09/97, nos lembra que "são
os pobres os verdadeiros protagonistas do processo histórico.
Os ricos e as classes médias têm as suas consciências
amaciadas pelo conforto material. A sabedoria do momento presente está
com os menos favorecidos... Há duas naturezas da escassez, a
dos possuidores, os ricos e a classe média e a dos excluídos,
os pobres, verdadeiros protagonistas da vida social e planetária..."
O mundo de hoje exige que os jovens estejam também inseridos
em outros referenciais de conhecimento, sejam técnicas como a
informática, sejam éticas como a autonomia sobre o corpo,
ou a cidadania envolvendo seus direitos humanos e de consumidor, a saúde
pública, a aids, entre outros. É importante que os jovens
desenvolvam a reflexão sobre a responsabilidade que ele têm
sobre os rumos de suas vidas.Como? Desenvolvendo com eles atividades
que propiciem o exercício da autonomia, onde o aluno passará
de vítima ou de culpado a mais um aliado no movimento de construção
por uma escola e um mundo melhor. Sartre, neste particular, nos reforça:
"o importante não é o que fizeram de nós,
mas o que vamos fazer daquilo que fizeram de nós".
Este é o momento de a escola, como um todo, estar se assumindo
enquanto espaço de formação do aluno, da comunidade
e dos professores , pois estes também estão fazendo e
se fazendo, em um movimento dialético em que todos os sujeitos
escolares estão envolvidos neste processo de construção
pessoal e pedagógica. Trata-se de fazer dessa verdade aprendida,
memorizada, progressivamente aplicada, um quase-sujeito que reina soberano
em nós mesmos (Foucault, 1997, p. 130)
A Revista Veja Rio, de 23 de dezembro de 1998, traz como reportagem
de capa o artigo: "Uns por todos", onde relata como pessoas
que conseguiram vencer a pobreza e a ignorância ajudam quem ainda
não conseguiu, com projetos como o de oficinas de ensino profissionalizante
e educação artística ou com pré-vestibular,
telecurso, aula de língua, dança, informática e
artes plásticas, entre outros. A revista Cláudia, de maio
de 98, publicou a reportagem: "O Brasil que dá certo",
relatando exemplos de pessoas voluntárias que profissionalizam
jovens, promovem o respeito à natureza e trabalham para tornar
o país menos violento. Em 22 de abril de 98, a revista Exame
mostra que desenvolver o espírito de solidariedade pode provocar
a felicidade na própria pessoa e nos outros, com a reportagem:
"Fazer o bem compensa?", onde relata o trabalho de várias
empresas multinacionais em projetos sociais, como é o caso da
Microsoft, do laboratório Abbott, da Avon, da Coca-Cola, todas
empresas americanas. "Os americanos, conhecidos por seu espírito
filantrópico doam cerca de 150 bilhões de dólares
por ano a instituições sem fins lucrativos". No Brasil,
infelizmente, a mentalidade de nosso empresariado não é
a mesma, e pouco se tem feito pelo social: "a filantropia corporativa
ainda é algo incipiente no Brasil". Gostaríamos que
as parcerias, tanto na esfera privada como na pública, se estendessem
mais na questão da educação.
Considerações
finais
Se
o sonho que se sonha junto não é sonho, e sim realidade,
por que não tentarmos transformar a cara de nosso país,
através de campanhas de cidadania e parcerias, visando a promover
o desejo de mudança entre a população? Bertold
Brecht, neste particular, nos lembra que o pior analfabeto é
o analfabeto político, "ele não ouve, não
fala, nem participa dos acontecimentos políticos...". Pensamos
que esse pode ser um bom começo no combate à violência,
pois o dia em que as escolas públicas deixarem de ser o lugar
de descaso, da pobreza, da negação , da discriminação,
da falta (falta de professor, falta de material, falta de espaços
físicos) e passar a ser o lugar do positivo, do prazer, o lugar
onde se aprende bem Português, Matemática, História,
cidadania, como também a viver ética e politicamente engajados
na luta pelo avanço social, então ela, escola, estará
preparada para resistir à violência e ao estado de barbárie
que estamos vivendo.
Para enfrentar a violência das estruturas e práticas sociais
injustas, de comportamentos desrespeitosos e olhares de desprezo, que
produzem indivíduos que vivem a vergonha e a revolta da desinserção
social, do abandono, da carência afetiva e material, a escola
tem que usar da inteligência, da imaginação e do
compromisso. Recuperar a sociedade não é prioridade dos
sindicatos, das universidades, dos empresários, dos políticos.
Existe uma distância enorme entre o que os professores, jornalistas,
médicos fazem e o que está ocorrendo na sociedade. Muitas
vezes aceitamos e até concordamos viver em uma "urbanidade
doente", caótica e desumana. A capacidade de revolta petrificou-se
na primeira tentativa de luta. Esquecemos a lição de que
um sonho não se abandona facilmente. Resta rompermos com a cultura
do individualismo, do comodismo, e apostarmos na solidariedade e na
crença de que nossa salvação depende também
do outro, dos outros. Hoje muitas formas de violência ganham da
escola, como a do tráfico, do racismo, a violência entre
aluno-aluno, professor-aluno, aluno-professor, entre outras. Queremos
ver o dia em que a escola promoverá espaços e uma cultura
da não-violência; uma sociedade mais reconciliada e preparada
para resistir à crueldade do mundo e à banalização
do mal.
__________
Maria Inez Lemos Soares
Professora e graduada em História e mestre em Educação
in Revista Presença Pedagógica
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Decálogo
a ser
seguido pelos gestores para a solução dos problemas de infra-estrutura
das Escolas Públicas Estaduais 1
Se não houver merendeira na escola, não
será fornecida a merenda;
2 Se não houver pessoa responsável pela Biblioteca,
ela permanecerá fechada; 3
Se não houver escriturários e secretário, de acordo
com o módulo, não haverá entrega de documentos na DE;
4 Se não houver verba
para compra de material e manutenção da sala de informática,
o local não será utilizado; 5
Se não houver recursos para reparos e vazamentos no prédio
escolar, não haverá consertos;
6 Se não houver recursos para pintura do prédio,
o prédio não será pintado;
7 Se não houver verba para a contratação
de contador para a escola, não haverá prestação de
contas à FDE; 8 Se
não houver verba suficiente para a contratação de funcionários
pela CLT, o dinheiro será devolvido;
9 Se a mão-de-obra provisória não
for qualificada, será recusada; 10
Se as festas não tiverem o objetivo de integrar a escola
à comunidade, não serão realizadas A
nossa escola é, por previsão constitucional, pública e gratuita.
Portanto, ela tem de ser custeada pelos cofres públicos. Todas
as omissões do Estado, com relação aos itens acima, deverão
ser objetos de ofícios da direção
às Diretorias Regionais de Ensino, a fim de isentarem o
diretor de eventuais responsabilidades administrativas. Toda e qualquer ameaça
de punição aos diretores associados da Udemo, por tomarem aquelas
atitudes, será objeto de defesa jurídica por parte do Sindicato,
seguida de denúncia ao Ministério Público e propositura de
Ações Civis Públicas contra o Estado, pelo não cumprimento
das suas obrigações para com as unidades escolares e pelos prejuízos
causados à comunidade escolar. |