Revista do Projeto Pedagógico

V - Trabalhando com a Comunidade

1. Escola da família, espaço para a integração Escola / Comunidade

Ainda que muitos critiquem o Programa Escola da Família, (que teve como modelo, devemos ressaltar, a iniciativa - sem qualquer compensação financeira -, de abnegados diretores de escolas estaduais, de abrir a escola à comunidade, aos sábados), não podemos negar que essa instituição criou importante espaço para a integração Escola/Comunidade.

Deve-se reconhecer que sábado é o melhor dia para a direção reunir-se com os pais para uma conversa franca sobre o ensino que se ministra na unidade escolar e os problemas por ela enfrentados (e até mesmo para orientá-los, com o auxílio dos professores e especialistas, no que tange a educação dos filhos no lar).

Ao invés de "manter as comadres" falando mal da escola na porta do colégio, por que não canalizar tal comportamento para atitudes positivas em reuniões com a comunidade? O diretor notará que, a partir de então, elas passarão a falar muito bem do diretor, dos professores, dos funcionários e, por conseqüência, da escola.

Anteriormente à existência da Escola da Família, haveria necessidade de se remunerar o diretor para realizar esse trabalho, pois não seria justo que, depois de uma semana estafante, este profissional se dispusesse a deixar o convívio da família para reunir-se com a comunidade.
Pois bem, com a instituição da Escola da Família, e a massiva participação remunerada de diretores nesse programa, abriu-se tal possibilidade, que não pode ser desperdiçada.

De acordo com as normas da Escola da Família, os diretores agregados ao Programa trabalham 4 horas nos sábados e 4 horas nos domingos. Como o diretor passou a estar disponível, e pais e alunos são convidados a participar dos projetos propostos pelos educadores profissionais e universitários engajados, eles também estarão disponíveis para reunir-se, pelo menos uma vez por mês, com a direção. A partir daí poderá ter início um trabalho sério no sentido de buscar e alcançar a tão necessária integração Escola/Comunidade.

Promover a participação dos pais na vida da escola, não é tarefa fácil. Eles precisam habituar-se a participar. Muitos diretores alegam que já fizeram inúmeras tentativas, com resultados pouco alentadores. Diante do baixo comparecimento, muitos acabaram por abandonar este projeto. Nada mais equivocado.

A presença de pais nas reuniões promovidas pela direção é uma questão de perseverança por parte do diretor interessado. Dependendo do assunto a ser tratado, os pais comparecerão em maior ou menor número. Todavia, a prática costumeira de discutir com a comunidade escolar os problemas da escola (e eles são tantos!) fará com que os pais se habituem a participar das soluções. Hoje, mais que nunca, é necessária a integração dos pais na vida da escola. E o benefício é de mão dupla; de um lado favorece a direção e a escola pelo apoio que os pais darão a uma instituição que os prestigia, de outro, os pais, agora informados sistematicamente sobre o andamento dos trabalhos escolares, poderão acompanhar melhor a atuação dos filhos, tanto no que diz respeito à aprendizagem, como sobre a conduta deles frente a colegas, professores e funcionários da unidade escolar.

Desta forma, os pais serão participes da educação dos filhos, no que diz respeito às atitudes deles enquanto estudantes, o que não vem acontecendo, até por ignorarem muitos pais o que se passa com seus filhos na escola.

Mas o que debaterão direção (professores e funcionários que se dispuserem a comparecer) e comunidade nessas reuniões, aos sábados?

Tudo o que, de uma forma ou de outra, estiver ao alcance dos pais no sentido de contribuírem para a melhor aprendizagem dos alunos (filhos), no sentido de elevar a qualidade do ensino, quando ao lado da direção, professores e funcionários, buscam soluções para os problemas materiais e humanos que interferem no processo pedagógico, entre os quais:

A) questões vinculadas ao cotidiano da unidade

Horários de entrada e saída de alunos; uso do uniforme, se a comunidade votou pela sua obrigatoriedade; material escolar necessário a ser trazido pelo alunado para a assistência às aulas.
Todos aqueles que exercem a direção da escola sabem como é difícil equacionar os horários estabelecidos pela direção para a entrada dos alunos, mormente os do período da manhã.
Que atitude tomar diante dos sistemáticos atrasos de determinados alunos ao longo do ano? Proibir sua entrada, mesmo após um número excessivo de atrasos é uma medida considerada reprovável e até mesmo ilegal.

O uniforme é uma eterna fonte de dores de cabeça para a direção e, em muitas circunstâncias, alguns colegas acham preferível não instituí-lo.

O fato de numerosos alunos não portarem materiais necessários às aulas transtorna a vida dos professores e contribui para o comportamento negativo do discente em sala de aula e deficiência de aprendizagem nas diversas disciplinas.

Estas são questões relevantes a serem debatidas com os pais e, para as quais, não só poderão eles oferecer sugestões valiosas como assumir o compromisso de equacioná-las ao lado da direção, professores e funcionários.

B) conduta dos discentes, dentro ou fora da sala de aula

A disciplina na escola deve ser objeto de troca de informações entre a direção/professores/funcionários e pais. É preciso que os pais compreendam que a escola não pode substituí-los na educação dos filhos; que eles devem propiciar as bases morais através das quais os alunos serão levados a agir positivamente dentro e fora das salas de aula. Não é o que acontece, atualmente, com grande parte dos alunos, praticando violência contra colegas (bullying), contra direção, professores e funcionários, respondendo aos mestres com palavrões e expressões chulas, num desrespeito que contraria os mínimos princípios de respeito ao próximo, que deveriam ter aprendido no lar. E tudo isso em plena sala de aula, levando professores à beira de um ataque de nervos.

Sob muitos aspectos, a escola poderá se ajudar ao ajudar os pais a entender os filhos, promovendo palestras de educadores e especialistas (quando for possível) sobre as características emocionais dos adolescentes, que muitas vezes os pais mais simples ou mais rudes desconhecem, omitindo-se os primeiros, e enchendo os filhos de pancadas, os segundos, diante de condutas transgressoras da criança ou adolescente, comunicadas pela direção. Neste aspecto, exposições sobre o ECA, por meio de dirigentes de Conselhos Tutelares, que realmente entendam do assunto; palestras sobre drogas, bebidas alcóolicas e tabagismo (perigosamente difundidos entre um número cada vez maior de adolescentes e mesmo crianças); orientação sexual e debate sobre gravidez precoce a pais (pois quanto aos alunos, esses problemas são tratados transversalmente nas várias disciplinas pelos professores em suas aulas, queremos acreditar), podem mostrar-se extremamente valiosas. Sim, pois se não cabe aos professores e à direção educarem os filhos destes pais, é dever de uma escola responsável educar os pais para que estes, agora informados, eduquem-nos melhor do que o estão fazendo.

C) dificuldades materiais vividas pela unidade escolar

Muitas escolas são carentes de tudo: faltam inspetores de alunos, funcionários para a limpeza (há décadas não se realizam concursos para atender ao módulo escolar, sempre defasado). O repasse de verbas pela FDE para contratar funcionários é insuficiente para que se o faça pela CLT, obrigando os diretores a apelarem para "Cooperativas", instituições quase sempre constituídas irregularmente, que, cedo ou tarde, trarão problemas trabalhistas para as APMs. As verbas para a manutenção da unidade, além de "carimbadas", quase sempre não cobrem as despesas necessárias para consertos gerais ou pequenas reformas urgentes no prédio.

Problemas materiais por que passam muitas unidades afetam a vida da escola, contribuindo sob muitos aspectos para o mau funcionamento do processo pedagógico. Uma escola carente de inspetores de alunos, fatalmente será desorganizada: classes em completa desordem entre aulas, balbúrdia de alunos pelos corredores; se carentes de serventes, higiene e limpeza de pátios e banheiros serão aquela calamidade, depondo contra a escola, e por aí vai... Disso tudo decorrem críticas à direção, aos professores, aos funcionários, aos alunos e a má fama da unidade escolar na comunidade. Ora, estes são problemas merecedores de amplo debate com os pais, fazendo-os refletir sobre soluções possíveis e até mesmo, em casos críticos, dirigir-se em comissão à SEE, exigindo medidas das autoridades educacionais. Porque este tipo de conduta, em defesa da escola, por parte dos pais, é exemplo de cidadania aprendido por eles na escola, sim, senhores!

D) processo pedagógico, envolvendo a aprendizagem dos alunos

Discutir com os pais o trabalho pedagógico desenvolvido pela escola, é de fundamental importância até para esclarecê-los sobre o que faz cada professor em sala de aula. É claro que esta será uma tarefa a ser desenvolvida pelos PCPs e alguns professores interessados, criativos e brilhantes, da unidade escolar, dispostos a dialogar com os pais. Pois é notório o temor de grande parte dos docentes de colocar-se diante dos pais e deles receberem cobranças.

Ao explicarem o trabalho desenvolvido em cada disciplina, poderão demonstrar aos pais a importância de os alunos portarem os materiais necessários para as diversas matérias. Com certeza, os pais ignoram a importância de os filhos levarem para a escola livros didáticos das diversas disciplinas, não distribuídos pelo governo, mormente o de inglês tão necessários para a aprendizagem dessa língua estrangeira, de materiais sólidos ou líqüidos para aulas de educação artística e/ou experiências em aulas de ciências, livros infanto/juvenis, de baixo custo, para leituras extra-classe, se a escola não possuir bibliotecas razoavelmente equipadas.

Acreditamos que, muitas vezes, a omissão dos pais sobre materiais necessários que os filhos devem portar nas aulas, solicitados pelos docentes, decorra do fato de eles ignorarem a importância dos mesmos na aprendizagem das crianças e adolescentes. Por outro lado, esses esclarecimentos conscientizam os pais sobre a necessidade de acompanharem de perto a evolução da aprendizagem dos filhos nas diversas disciplinas, seja pela observação das horas dedicadas pelos alunos, ao estudo em casa, na realização das tarefas passadas pelo professor, seja pelos cadernos nos quais deve haver registro de conteúdos desenvolvidos em sala de aula, que oferecerão indícios da qualidade do trabalho de cada professor. Evidentemente que o aluno portador de parcos registros de conteúdos específicos de cada disciplina, em seus cadernos, poderá denotar negligência do discente, cabendo aos pais checar tal fato com os próprios docentes. A constatação permitirá aos pais corrigirem os filhos ou cobrarem melhor desempenho daqueles professores que, comprovadamente, pouco realizam com os alunos em sala de aula.
É claro que a cobrança aos professores pelos pais deve ter um encaminhamento baseado no diálogo respeitoso e sempre mediado pela direção - diretor, vice-diretor, professor-coordenador pedagógico.

Aprendendo a melhor educar os filhos no lar e a cobrar da escola o que lhe é de direito, os pais contribuirão para o relacionamento pacífico entre alunos, direção, professores e funcionários o que, sem dúvida, propiciará melhoria também na qualidade de ensino que se ministra na escola.

E) relacionamento entre pais/direção, pais/professores, pais/funcionários

Entendemos que os constantes conflitos entre pais e direção, pais e professores, pais e funcionários, sob muitos aspectos, ocorrem por mútuas incompreensões, intolerância, preconceito, decorrentes da falta de diálogo entre a escola e a comunidade, ou seja, ausência de integração Escola-Comunidade.

É neste necessário diálogo que se definirão as fronteiras de atuação dos responsáveis pela escola e dos pais, permitindo o perfeito entrosamento entre as partes, e o entendimento das novas práticas a serem desencadeadas na unidade escolar, que visariam apenas a melhoria da qualidade do ensino e a otimização da aprendizagem. A integração Escola/Comunidade encontra sua perfeita justificativa em torno dos princípios expostos acima.

F) envolvimento dos pais no Projeto Pedagógico da unidade escolar

Acreditamos que a integração Escola/Comunidade propiciará a participação consciente dos pais na elaboração do Projeto Pedagógico da Escola, posto que ao longo das reuniões os pais vão sendo solicitados a opinarem sobre a escola que têm e a que querem, e que educação realmente desejam para os seus filhos.

Passam a compreender o seu papel na construção do Projeto Pedagógico da escola, participando com a direção, professores, funcionários e seus filhos na elaboração do diagnóstico da escola, dos objetivos e metas a serem atingidos, que nada mais são que uma educação baseada nos princípios:

1- da democratização do acesso e permanência com sucesso do aluno na escola;
2- na gestão democrática;
3- na valorização dos profissionais da educação;
4- na qualidade do ensino;
5- na autonomia da escola.

__________
Luiz Gonzaga de Oliveira Pinto

 

Decálogo
a ser seguido pelos gestores para a solução dos problemas de infra-estrutura das Escolas Públicas Estaduais


1
Se não houver merendeira na escola,
não será fornecida a merenda;

2
Se não houver pessoa responsável pela Biblioteca, ela permanecerá fechada;

3
Se não houver escriturários e secretário,
de acordo com o módulo, não haverá entrega de documentos na DE;

4
Se não houver verba para compra
de material e manutenção da sala de informática, o local não será utilizado;

5
Se não houver recursos para reparos e vazamentos no prédio escolar,
não haverá consertos;

6

Se não houver recursos para pintura do prédio, o prédio não será pintado;

7

Se não houver verba para a contratação de contador para a escola, não haverá prestação de contas à FDE;

8
Se não houver verba suficiente para a contratação de funcionários pela CLT,
o dinheiro será devolvido;

9
Se a mão-de-obra provisória
não for qualificada, será recusada;

10
Se as festas não tiverem o objetivo de integrar a escola à comunidade, não serão realizadas

A nossa escola é, por previsão constitucional, pública e gratuita. Portanto, ela tem de ser custeada pelos cofres públicos.

Todas as omissões do Estado, com relação aos itens acima, deverão ser objetos de ofícios da direção às Diretorias Regionais de Ensino, a fim de isentarem o diretor de eventuais responsabilidades administrativas.
Toda e qualquer ameaça de punição aos diretores associados da Udemo, por tomarem aquelas atitudes, será objeto de defesa jurídica por parte do Sindicato, seguida de denúncia ao Ministério Público e propositura de Ações Civis Públicas contra o Estado, pelo não cumprimento das suas obrigações para com as unidades escolares e pelos prejuízos causados à comunidade escolar.