Revista do Projeto Pedagógico

III - Trabalhando com Projetos

4. O Projeto Centopéia

Ler para descobrir, experimentar e criar

Se conseguirmos fazer com que a criança tenha sistematicamente uma experiência positiva com a linguagem, estaremos promovendo seu desenvolvimento como ser humano. (Richard Bamberg)

Mesmo sabendo do valor da leitura, tanto para o conhecimento quanto para a observação de aspectos da vida e da capacidade de comunicação com o mundo, diversas pessoas continuam não sendo leitores habituais. Muitos de nós desenvolvemos aversão pela leitura porque nossos professores obrigavam-nos a ler textos sem grande interesse para nós, associando essa tarefa a trabalhos e notas. Quase sempre, estas foram experiências negativas. A leitura perde o foco das práticas sociais tem como fadado fim o desinteresse total.

Uma das maneiras de incentivar a criança a ler é propiciar-lhe experiências positivas não só com a leitura, mas, estendendo o pensamento de Bamberger, também com a literatura e com a linguagem.

Leitura: ler com a criança pode ser um bom começo, constituindo-se em um momento de grande prazer e troca efetiva. Também ajuda se o adulto for um leitor habitual, tendo o livro como um bom companheiro, para que ela observe sua relação com o livro e motive-se a ler.
Literatura: para gostar de livros, é preciso conhecê-los. O contato sensorial com o livro é muito importante. Por que não incluir uma boa livraria em nossos passeios com as crianças? Por que não levá-las a eventos de contadores de histórias? Por que não oferecer mais livros de presente, em lugar de tantas outras coisas que elas costumam ganhar?

Linguagem: fazer jogos com palavras e frases é um jeito divertido de desenvolver o gosto pelo mundo das letras e das palavras. As crianças não-alfabetizadas ou no início da alfabetização podem fazer jogos orais, como parlendas, rimas e trava-línguas. Aquelas que já lêem e escrevem têm um oceano de opções além das citadas: caça-palavras, cruzadinhas, desembaralhar as letras, forca, palavra-chave, etc.

Dessa maneira, construímos o Projeto Centopéia, que teve como objetivo geral incentivar o desejo e o interesse pela leitura e como objetivo específico conseguir montar a centopéia mais longa. Este artigo apresenta um pouco das nossas realizações sobre leitura e produções. Digo um pouco, pois não é possível agregar ao texto muito dos momentos vividos em sala de aula: o envolvimento de cada um, a busca inquieta de mais informações, a troca entre os colegas, a marca dos ajustes feitos pela borracha. Aqui está o resultado do trabalho desses pequenos leitores e escritores, crianças capazes - e como! - de superar desafios.

Sou professora de uma 2ª série da rede municipal de Santos (SP). Comecei no primeiro dia letivo de agosto de 2003, apresentando as regras e combinações do Projeto Centopéia. O material utilizado abrangeria cartolinas grandes, cartolina ou colorset recortados em rodelas de cerca de 5 cm de diâmetro, cola e canetinhas. Cada criança recebia um circulo de colorset ou cartolina e seria solicitada a desenhar a carinha da centopéia. As carinhas foram coladas à esquerda de uma cartolina, com o nome da criança a quem pertenciam. A seguir, seria determinado um prazo (trimestre ou semestre) ao longo do qual cada um iria formando a sua centopéia, acrescentando um pedaço do corpo para cada livro. Só valeriam os livros lidos e relatados , e seus títulos e autores seriam escritos nesses círculos. Cada criança poderia escolher um livro, e, durante a semana, aquelas que entregassem o relatório ganhavam uma bolinha que compunha mais um pedaço da centopéia, na qual registrariam o nome do autor e o título da história.

Nosso primeiro desafio foi adquirir a quantidade de livros suficiente para que cada aluno pudesse levar um. Notei que o mesmo "ciúme" que eles tinham de seus livros eu tinha dos meus, até que, certo dia, doei nove livros de minha coleção, os quais eu achava interessantíssimos para a caixa da centopéia. Eles se espantaram ao ver os livros grandes, bem ilustrados e mais ainda a possibilidade de levá-los para a casa, mostrando a confiança que eu depositava neles. Rapidamente foram chegando doações de diferentes livros. O interessante é que quase todos ainda não haviam sido lidos pelos seus próprios donos.

Durante a primeira semana, apenas confeccionamos a cabeça da centopéia e o jardim por onde ela andaria, esperando completar na caixa pelo menos 21 livros. Entramos na segunda semana de agosto com 24 livros e, assim, demos início ao projeto. Criamos o hábito de sempre, após o recreio, dois alunos, pela ordem da chamada, arrumarem os livros na canaleta da lousa e darmos início à escolha. Tínhamos um caderno em que anotávamos o nome do livro, a data e seu leitor. As centopéias ficavam em uma pasta na qual diariamente o seu dono coloria mais uma bolinha se preenchesse as regras do projeto. Não havia competição, pois não era um jogo, e sim um projeto. Criamos no trajeto alguns incentivos, como, por exemplo, todos que chegassem à décima quinta bolinha ganharia uma lapiseira, quem atingisse a trigésima bolinha, uma prenda e, na qüinquagésima bolinha, um livro.

Com livros suficientes e as regras estabelecidas, começamos a emprestar livros diariamente com a condição de o aluno trazer um pequeno relatório do que mais gostou na história. O exercício da escrita e da produção de textos era diário. Naturalmente, cada criança tinha a liberdade de naquele dia pegar ou não um livro ou, por algum motivo, não trazer o relatório. Algumas crianças já estavam estimuladas pela leitura, outras ainda se debatiam em fazer o relatório, pois não tinham o hábito de fazer tarefas em casa. Percebi o efeito quando começou a surgir nas folhas o corpinho da centopéia com cinco, seis, até oito bolinhas coloridas. Notei, a partir daquele momento, que elas caminhariam sozinhas.

Na agenda do dia, já estipulávamos quem arrumaria a centopéia após o recreio. Os próprios alunos utilizavam o caderno, dando baixa nos livros que haviam trazido. Às vezes, quando percebia que um livro nunca era escolhido, conta a história e, em um momento de clímax, dizia "Quem quiser saber o final terá de levar para casa". Aquele livro já não ficava na caixa por um bom tempo. Comecei a observar melhoras em suas produções, organizações de parágrafos, clareza nas idéias e identificação de seus autores favoritos. Não sabíamos ainda como encerrar o projeto. Continuávamos construindo novas etapas, até que no final de setembro introduzi livros com textos maiores, em cujas capas constava um selinho dourado, que equivaleria a duas bolinhas. Afinal, quando um desafio é superado, torna-se necessário um novo para que o projeto continue sendo estimulante.

Passados mais de 50 dias do início dessa atividade, tínhamos na classe centopéias enormes, com mais de 30 bolinhas. Crianças com dificuldades e ainda não-alfabetizadas desenhavam a parte mais interessante e nós ajudávamos a escrever uma frase. Todos vibravam com a hora da centopéia (ela era diária). Muitos depoimentos dos alunos foram significativos.
"eu não gostava de ler, agora eu adoro" (Jefferson; "Minha avó falou que eu vou precisar de óculos por causa da leitura, eu amo ler" (Natali); "Vou escrever um livro: A menina que não gostava de ler" (Bruna).

Ao final de outubro, a "febre" era geral, ninguém ficava um dia sem trocar os livros. Na medida do possível, os alunos recebiam retorno dos relatórios, sendo alertados sobre em que pontos melhorar. Além da troca de livros e da entrega de relatórios, começamos a fazer o Momento Sugestão. Três alunos diariamente sugeriam livros já lidos e autores prediletos. No final do projeto, contávamos com 79 títulos dos mais variados possíveis. Reparei nessa etapa a necessidade de um novo desafio. Assim, no mês de novembro, eles começaram a escrever suas próprias histórias.

Minha mesa era considerada a editora, que dava sugestões, fazia revisões e conclusões do livro. Foram 3 semanas intensas em fazer, refazer, apagar, construir o texto. A segunda etapa foi a transformação de algumas partes do texto em desenhos para ilustrar seus livros. Os alunos puderam notar a dificuldade de produzir um livro.

Na quarta semana de novembro, os livros foram encaminhados para a encadernação. As crianças estavam ansiosas para ver o produto final. No dia 9 de dezembro, realizamos a manhã de autógrafos, com a qual encerramos nosso projeto de leitura.
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Ana Lúcia Barboza Caetano de Jesus
Professora da EMEF de Santos
Email: albcj@ig.com.br

Decálogo
a ser seguido pelos gestores para a solução dos problemas de infra-estrutura das Escolas Públicas Estaduais


1
Se não houver merendeira na escola,
não será fornecida a merenda;

2
Se não houver pessoa responsável pela Biblioteca, ela permanecerá fechada;

3
Se não houver escriturários e secretário,
de acordo com o módulo, não haverá entrega de documentos na DE;

4
Se não houver verba para compra
de material e manutenção da sala de informática, o local não será utilizado;

5
Se não houver recursos para reparos e vazamentos no prédio escolar,
não haverá consertos;

6

Se não houver recursos para pintura do prédio, o prédio não será pintado;

7

Se não houver verba para a contratação de contador para a escola, não haverá prestação de contas à FDE;

8
Se não houver verba suficiente para a contratação de funcionários pela CLT,
o dinheiro será devolvido;

9
Se a mão-de-obra provisória
não for qualificada, será recusada;

10
Se as festas não tiverem o objetivo de integrar a escola à comunidade, não serão realizadas

A nossa escola é, por previsão constitucional, pública e gratuita. Portanto, ela tem de ser custeada pelos cofres públicos.

Todas as omissões do Estado, com relação aos itens acima, deverão ser objetos de ofícios da direção às Diretorias Regionais de Ensino, a fim de isentarem o diretor de eventuais responsabilidades administrativas.
Toda e qualquer ameaça de punição aos diretores associados da Udemo, por tomarem aquelas atitudes, será objeto de defesa jurídica por parte do Sindicato, seguida de denúncia ao Ministério Público e propositura de Ações Civis Públicas contra o Estado, pelo não cumprimento das suas obrigações para com as unidades escolares e pelos prejuízos causados à comunidade escolar.