Revista do Projeto Pedagógico

III - Trabalhando com Projetos

1. Paz: Caminho de um Novo Amanhecer - Um Projeto da EE Prof Renanto de Arruda Penteado

Perfil da Comunidade

A população escolar provém de famílias numerosas, a maioria originária do nordeste do país.
A instrução das famílias geralmente é o primeiro grau incompleto (semi-alfabetizados), havendo grande número de analfabetos e sem qualificação profissional.

A renda da população é baixa, situada na faixa de um a três salários mínimos, exigindo que todos elementos (ou quase todos) da família (crianças com idade precoce iniciem-se no mercado de trabalho ou assumam responsabilidade no lar para que a mãe possa trabalhar).

O Jardim Carumbé localiza-se no extremo da Vila Brasilândia, zona norte de São Paulo, tendo como bairros vizinhos: Jardim Paulistano, Morro Grande e Jardim Damasceno. A região é bastante acidentada, com habitações típicas de morro, muitas inacabadas, em situação irregular, com grande números de barracos e circundada por três grandes favelas: Jardim Nova Esperança, do Sapo e Paulistano II. É um local que apresenta muita violência. O bairro é periférico e de difícil acesso, atendido por duas linhas de ônibus, da Viação Jaraguá: (a) Jardim Paulistano - Praça do Correio; (b) Terezinha - Barra Funda; (c) Transporte Alternativo (clandestino); Carumbé-Lapa. Os ônibus estão sempre lotados nos horários de "pico", sendo insuficiente para a demanda.
Em decorrência da realidade de sua comunidade, os alunos apresentam sérias deficiências, tais como: dificuldades de relaciona-mento no lar e na escola; ausência (ou pouco) de incentivo e acom-panhamento dos pais nos estudos; ausência de hábitos de leitura e contatos com a cultura.

Meta:Diminuir a Violência.

Objetivos:
Minimizar a agressividade
Melhorar o relacionamento humano
Desenvolver o trabalho coletivo
Integrar comunidade e Escola
Valorizar os sentimentos pacíficos
Desenvolver a cidadania;
Propiciar um ambiente de solidariedade; trabalhar a Paz interior para seu crescimento no coletivo e na sociedade;
Resgatar valores esquecidos, como: Deus, União, Amizade, Amor ao próximo, Respeito.

Estratégias:
Sensibilizar os professores no H.T.P.Cs, com leituras, exercícios, debates e palestras;
Trabalho em sala de aula com o tema Paz, através de:
Poesias, danças, músicas;
Dramatrizações;
Exposição de cartazes.
Oficinas pais e filhos;
Envolvimento com outras escolas;
Caminhada - Show da Paz;
Elaboração e edição de um livro de poesia dos alunos, professores, pais e comunidade.

HISTÓRICO

O projeto Paz: O Caminho de um Novo Amanhecer desenvolveu-se a partir da situação vivenciada pela escola e comunidade entre os anos de 1997 e 1998. Até esse período, a escola estava destruída moral e fisicamente. Suas paredes e muros estavam todos pichados, seus banheiros não tinham portas, o mobiliário embora não fosse velho, estava muito danificado, telhados em condições precárias, matagal ao redor da quadra com cobras venenosas.
Isso era o reflexo da ação de alunos agressivos e, também, de adolescentes que não eram alunos da escola e que a invadiam com facilidade. O policiamento não era suficiente para controlar a situação. Sem cantina escolar, os alunos frequentavam um bar ao lado da escola, onde eram servidas bebidas alcoólicas. Bêbados enfrentavam os professores. A antiga Direção da escola, frequentemente, era obrigada a suspender as aulas.

Os funcionários da "Renato", desmotivados, foram deixando a escola, removendo-se para outros estabelecimentos até mais distantes de suas residências, para não ficarem expostos ao ambiente que existia dentro dela. Nessa ocasião, havia apenas um secretário e dois coordenadores. Os professores, revoltados e com a auto-estima em baixa, entravam em atrito e essa situação ocorria até mesmo na frente dos alunos, colaborando ainda mais com o ambiente desarmonioso.
Do ponto de vista externo, a escola encontrava-se submetida ao toque de recolher de elementos estranhos, que estabeleciam "quantos minutos os ocupantes do prédio tinham para desocupá-lo, pois haveria acerto de contas entre eles". Como resultado desse confronto, nos dias seguintes eram encontrados corpos baleados, alguns de alunos da própria escola.

À 1a. Delegacia de Ensino da Capital, a qual a EE Prof. Renato de Arruda Penteado está jurisdicionada, a comunidade comparecia quase que diariamente. Reivindicava providências, seja pessoalmente ou por escrito à Dirigente Regional de Ensino, Profa. Neusa R. da Fonseca Abreu, que houve por bem designar Profa Eliana Bernardo de Mello como Diretora da escola, recebendo, logo de início, a incumbência de recuperar a dignidade do estabelecimento de ensino, através de um projeto, cujas diretrizes seriam traçadas pela Delegacia de Ensino com a escola.
A nova Diretora convocou todos os professores para analisarem os problemas da escola e as falhas de cada um. Detectados os problemas, partiram para o desenvolvimento do lado positivo da situação. Conseguiram, dessa forma, desenvolver a participação de todos nas ações, que desencadeariam drásticas mudanças para um melhor comportamento dos frequentadores da escola e na comunidade.

Simultaneamente, a Delegacia de Ensino promovia a capacitação dos docentes, através de sua Oficina Pedagógica, em busca do resgate da auto-estima e incentivava a Direção da escola a buscar profissionais especializados - psicólogos, pedagogos e assistentes sociais - para auxiliar na procura dos meios para o desenvolvimento de um trabalho efetivo de solução dos problemas relativos ao relacionamento.

Posteriormente, foram convocados todos os alunos (cinco classes de cada vez) que, reunidos no refeitório da escola, foram consultados sobre o que os afligia. A partir desse trabalho, normas foram estabelecidas, baseadas nas propostas idealizadas por alunos e professores. Eram procedimentos básicos de funcionamento da escola: a entrada, a saída, as tolerâncias, direitos e deveres. Observava-se o interesse da maioria pelas mudanças.

A aproximação com a comunidade foi possível pela solicitação do trabalho voluntário dos pais, que cobriam, com boa vontade, a ausência de funcionários. Posteriormente, mesmo com a contratação de novos funcionários, esses pais continuaram ajudando. O "start" desse entrosamento deu-se quando os pais foram convidados a participar da vida de seus filhos, passando um dia inteiro na escola, assistindo às aulas. A partir dessa vivência, começaram a se interessar pela recuperação física do ambiente no qual seus filhos passavam parte de suas vidas e dependiam dele para sua formação futura.

O problema da falta de um local para lanches foi resolvido em março de 1998, com a instalação de uma cantina. Foi sensível a diminuição dos problemas com álcool e drogas anteriormente existentes.
A escola mudava, mas era preciso mudar muito mais.

O PROJETO PAZ: O CAMINHO DE UM NOVO AMANHECER

Em um trabalho conjunto da escola com a comunidade, iniciaram-se, em 98, a recuperação física da escola e a conscientização de todos em direção a uma convivência pacífica e respeitosa.
Limpeza, consertos e pintura de paredes , de carteiras e cadeiras, conviviam com atividades de elaboração de cartazes, redações, apresentações de peças teatrais e de poesias, cujo tema era a paz. E, ao invés de violência, falava-se em paz. Ao invés de drogas, na importância e na necessidade da educação. Valorizava-se sempre o lado positivo das situações vivenciadas, destacando-se sempre o que cada um tem de melhor e de bonito.

Importante é destacar, também, a contribuição dos membros do Grêmio Estudantil que, juntamente com os pais, professores, coordenadores pedagógicos e o Vice-Diretor Prof. Albino Spinola, participaram da resolução de problemas de grande complexidade, nos quais alunos da escola se encontravam envolvidos. Recolheram-se armas, ajudaram alunos que tinham problemas sérios de indisciplina. A todos ofereceram trabalho de esclarecimento e conscientização. Até hoje, o Grêmio é o intermediário entre aqueles que se desentendem.

Com a percepção de que o projeto estava ao gosto dos alunos, meio caminho estava andado!
Estabelecemos, então, novas ações: foram criadas salas ambientes de forma experimental e entre elas, um concurso para escolher as mais adequadas ao processo; implantadas 6 classes com alunos defasados idade/série com o objetivo de reclassificá-los no ano seguinte; a APM disponibilizava todo o material para limpeza, pintura e decoração; a biblioteca foi reorganizada e foram adequadas sala de vídeo e laboratórios de química, física e biologia (com produção de perfume e sabonete); a sala de Educação Artística foi remodelada e ganhou prateleiras, mesas e armários; no refeitório, que também funcionava como sala de vídeo, foram instalados aparelhos de vídeo e TV; foi implantada a sala de informática (com 20 computadores); os corredores foram transformados em murais com desenhos alusivos à paz.

Em junho, o visual da escola era completamente outro, com as salas pintadas e decoradas por alunos, pais e professores.

Os resultados iniciais do projeto já repercutiam. De tal forma que a escola recebeu a visita do professor norte-americano Peter Lucas, PHD e respeitado especialista sobre violência nos Estados Unidos. Outra mostra da repercussão do projeto foi o Prêmio "Palmares 98" oferecido à Diretora Eliana Bernardo de Mello, pelas Organizações Não-Governamentais, enfatizando o seu compromisso/empenho em erradicar a violência e irradiar a paz.

Ao mesmo tempo, o jornalista Daniel Pereira, entusiasmado com a iniciativa, desenvolveu, voluntariamente, um trabalho de mídia com o objetivo não apenas da divulgação, mas que pudesse levar o projeto a ser conhecido por outras escolas que estivessem vivenciando o mesmo problema.
No segundo semestre, realizamos a caminhada que envolveu toda a comunidade escolar. E encerramos o ano com o lançamento do livro de Poesias produzido pelos alunos e que levou o título do projeto: Paz - O Caminho de um Novo Amanhecer.

Iniciamos o ano de 1999 reunindo professores, pais e alunos, avaliando o ano de 98 e planejando para 99 as seguintes ações: continuidade do projeto; reclassificação com sucesso dos alunos defasados idade/série, matriculados em 1998; outro mutirão limpando, pintando carteiras, cadeiras e retocando paredes; alunos e pichadores não-alunos pintam a quadra com o compromisso de conservá-la; Grêmio Estudantil realiza campeonatos com alunos, ex-alunos e comunidade, realiza também a criação do jornal "O MICO" ; parceria com a Secretária de Cultura, que ofereceu 2 cursos de teatro aos sábados e domingos; parceria com as escolas de informática do bairro, que ofereceram cursos de digitação para 400 alunos, orientação a professores na utilização de softwares pedagógicos e doação de 2 computadores e uma impressora ; parceria com a Cincon (Empresa Americana) na adequação de 1 software no processo de avaliação de alunos ; parceria com a Secretaria de Cultura que realizará cursos de danças (moderna e afro) e iniciação ao canto com a formação de um coral, com início previsto para outubro.

PARTICIPAÇÃO E REALIZAÇÃO DE EVENTOS

Caminhada da Paz, realizada em 07 de maio de 99, com a participação de aproximadamente dez mil pessoas, às quais foram oferecidas rosas com mensagens de Paz confeccionadas por professores e alunos. Houve a participação de quase todas as escolas da Primeira D.E., algumas escolas da quarta D.E. e uma de Mongaguá. A Caminhada terminou com um show realizado (palco cedido pela Anhembi Eventos) na avenida principal do bairro com apresentação de artistas da região e a participação especial do cantor Royce do Cavaco.
Em 19 de maio, recebemos a Tocha Mundial da Paz , com um atleta americano, um australiano, uma portuguesa e dois brasileiros. No dia 8 de junho, as visitas: do Secretário Nacional de Direitos humanos José Gregori; do jogador Raí e de várias autoridades educacionais. Em 29/06, realizou-se em Brasília a convocação Nacional pela Educação para a Paz, onde foram convocadas a participar a Diretora e a Dirigente Regional. Em 23/10, Apresentação do projeto no "Fórum - Violência nas Escolas", promovido pela UDEMO - Sindicato de Especialistas de Educação do Magistério Oficial do Estado de São Paulo, em Águas de Lindóia, que motivou vários educadores a procurarem soluções semelhantes para seus problemas de violência e falta de participação comunitária.
Em outubro, lançamento do Segundo livro da Paz com poesias, poemas escritos por alunos , funcionários, pais e comunidade , selecionadas através de um concurso com premiação aos vencedores.

AVALIAÇÃO

Os resultados, após cada passo do projeto realizado em 98/99 foram: a mudança no comportamento dos alunos e da comunidade. A escola, que tinha uma imagem negativa, porém passou a ser um ponto de referência positiva no bairro, fruto do trabalho coletivo da Escola e sua comunidade.

O trabalho é contínuo e incessante. É o cidadão em ação na construção de uma sociedade justa, solidária e pacífica.

Hoje, a Escola Renato funciona como Centro Cultural do bairro.

A sua "Biblioteca" é usada por alunos e não-alunos. Existe uma integração entre a juventude da comunidade, através de eventos realizados na escola nos bailes, gincanas, campeonatos esportivos e até mesmo mutirões, participam com o compromisso de zelar pelo espaço físico com respeito mútuo no exercício pleno da cidadania.

Segundo nossos alunos, a Escola é o " Cérebro Pensante" do Jardim Carumbé. A Escola com sua comunidade, na luta contra a violência , encontrou o "Caminho da Paz".
O estudioso americano PHD Peter Lucas, durante sua visita, disse que a Escola Renato é a primeira no mundo a desenvolver um "Projeto de Paz" e, como pioneira, é referência mundial como "Escola da Paz"…


São Paulo, 20 de outubro de 1999


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Eliana Bernardo de Mello - Diretora de Escola

Decálogo
a ser seguido pelos gestores para a solução dos problemas de infra-estrutura das Escolas Públicas Estaduais


1
Se não houver merendeira na escola,
não será fornecida a merenda;

2
Se não houver pessoa responsável pela Biblioteca, ela permanecerá fechada;

3
Se não houver escriturários e secretário,
de acordo com o módulo, não haverá entrega de documentos na DE;

4
Se não houver verba para compra
de material e manutenção da sala de informática, o local não será utilizado;

5
Se não houver recursos para reparos e vazamentos no prédio escolar,
não haverá consertos;

6

Se não houver recursos para pintura do prédio, o prédio não será pintado;

7

Se não houver verba para a contratação de contador para a escola, não haverá prestação de contas à FDE;

8
Se não houver verba suficiente para a contratação de funcionários pela CLT,
o dinheiro será devolvido;

9
Se a mão-de-obra provisória
não for qualificada, será recusada;

10
Se as festas não tiverem o objetivo de integrar a escola à comunidade, não serão realizadas

A nossa escola é, por previsão constitucional, pública e gratuita. Portanto, ela tem de ser custeada pelos cofres públicos.

Todas as omissões do Estado, com relação aos itens acima, deverão ser objetos de ofícios da direção às Diretorias Regionais de Ensino, a fim de isentarem o diretor de eventuais responsabilidades administrativas.
Toda e qualquer ameaça de punição aos diretores associados da Udemo, por tomarem aquelas atitudes, será objeto de defesa jurídica por parte do Sindicato, seguida de denúncia ao Ministério Público e propositura de Ações Civis Públicas contra o Estado, pelo não cumprimento das suas obrigações para com as unidades escolares e pelos prejuízos causados à comunidade escolar.