Revista
do Projeto Pedagógico
II - Trabalhando
com Alunos: Subsídios e Sugestões
8.
Quando errar não é pecado
"...é
com nossas teorias mais ousadas, inclusive as que são errôneas,
que mais aprendemos. Ninguém está isento de cometer enganos;
a grande coisa é aprender com eles".
K. Popper
PARA
DISCUSSÃO DOS PROFESSORES DO CICLO I
A
questão do erro está vinculada à idéia de
pecado. Daí a exigência de penitência ao se
cometer esse pecado.
O professor, ao corrigir um cálculo feito pela criança,
sabe o que é certo, quase que, exclusivamente, dentro da perspectiva
do adulto, isto é, de quem tem o domínio do que é
certo. Ele tem a visão de que o certo é
o verdadeiro e introjeta a idéia de que seu compromisso
é o de zelar pela preservação do certo e penitenciar
o errado. É que esse mesmo indivíduo foi formado para
atribuir metas e promover ou não o aluno em suas conquistas,
no campo em que ele, professor , tem o domínio do que é
ou não certo. (Coitado !) O docente é obrigado, dentro
do atual sistema, pelo acréscimo de uma formação
tradicional, a ter autoridade sobre o "correto", atribuindo
letras aos alunos, promovendo-os ou não. Por isso o erro
é algo que se torna muito pesado para o aluno.
O compromisso científico do professor com a criança é
o de ensinar bem a matéria e fazer o aluno aprender. Mas
a ignorância do próprio processo de como se dá o
conhecimento poderá ser um caminho, sem retorno, em seus objetivos
de Educador. Esses grandes compromissos deveriam levar o professor a
pesquisar e a atribuir notas justas ao aluno. Assim, é fácil
entender que esse professor viva um clima de cobrança e de criticismo.
Há a idéia de que os objetos sociais (ex: aprendizado
de matemática) devem ser travestidos , a fim de que adquira uma
argamassa de bondade e de facilidade. O que não ocorre, na verdade,
pois há leis e códigos matemáticos, que não
permitem transformar as coisas em fáceis e boazinhas.
Como então estar, ao mesmo tempo, bem com as leis da matemática
e aquelas da criança? Como facilitar, o que não se pode?
Como estar bem com as leis do mundo dos adultos e com aquelas do das
crianças?
Portanto, o erro deveria ser algo mais compreensível e melhor
trabalhado. Os "erros" das crianças não podem
ser desprezados, pois são reflexos da construção
do conhecimento, que o aluno está apreendendo, e revela o nível
de estruturação em que a criança está operando.
Com efeito, segundo Hessen, "un conocimiento es verdadero si su
contenido concorda con el objeto mentado". Portanto, a idéia
de conhecimento depende de como se pensa o objeto. Cabe ao professor
instrumentalizar- se no sentido de fazer uso dos erros como materiais
para a construção do conhecimento. Assim , pensando em
nossa língua como algo variável, não há
, em princípio, formas ou expressões intrinsecamente erradas.
A proposta curricular de Língua Portuguesa, aponta que, na escola,
onde o aluno deverá aprender um registro que não domina,
podem ocorrer dois tipos de situações tidas como não
certas: no primeiro caso, poderá usar variantes não-padrões
em situações que exigiriam a linguagem formal; no segundo,
o aluno que está aprendendo uma variante nova, faz hipóteses
que não são as esperadas pelo professor. Em ambos os casos,
não podemos considerar como erros prováveis. Ao contrário,
elas revelam o espaço do aluno para avançar. O professor,
nesse ponto, não deverá ser o juiz carrasco, mas a ponte,
que facilitará a travessia. Herbert Otto diz "A modificação
e o crescimento dão-se quando a pessoa se arriscou e ousa a fazer
experiências com sua própria vida". Quando o aluno
arrisca mal, não nos cabe encará-lo como deficiente, mas
como ser normal que, às vezes, tentam uma hipótese que
pode não ser a mais apropriada, mas indica uma vida, inteligência,
crescimento e tentativa de modificação.
A perspectiva do professor quanto ao erro, é formal. A exigência
que se faz é que o professor tenha uma atitude formal diante
do erro e que esse erro possa ser apagado. Entretanto, isso é
diferente na vida, onde para o erro não há borracha.
Daí o importante é o perdão, atitude essa
que permite rever o que não seria, antes, possível de
revisão. Só assim será possível aprender
com os erros ou se estará fadado a repeti-los, ignorando o próprio
fato de ser um erro.
Com efeito, o erro existe para o adulto, porque a ele preexistem os
paradigmas (o certo).
Muitos adultos e professores crêem que não se pode deixar
a criança errar, porque estará fixando o erro. Crendo
que uma vez fixado, automatiza-se e não dá mais para corrigir
(ex: ortografia).
O que, no fundo, se pede ao professor é que tenha eficiência
técnica. Portanto, o mestre falhará se não
tiver o êxito de entregar, no final do ano, uma criança
que leia e escreva.
Há algo que ainda é muito forte na escola: é que
o erro é de responsabilidade do professor. Há outros que
jogam a responsabilidade em cima da criança por ser pobre, feia,
etc...
A noção do acerto é que comanda o erro. O acerto
é o nosso ideal.
I - O ERRO NA PERSPECTIVA DA CRIANÇA
"A
aprendizagem não começa com a ignorância, mas com
o erro ".
(M. Oakesholt)
O erro é necessário tanto para a aprendizagem conceitual,
quanto para a corporal.
O construtivismo é a teoria da regulação, conquista
essa que só acontece no ponto de chegada e que, no começo,
não é certo ou errado, mas é o que se pode ou se
quer fazer.
Há coisas que têm que ser corrigidas no processo, porque
o limite é uma conquista dele mesmo.. E isso não é
ensinar. O erro não pode ser colocado como uma oposição
ao certo.
Erro é, sim, tudo aquilo que frusta o resultado desejado.
Há que se entender que a ótica é diferente no plano
do fazer e no plano do aprender. Segundo Piaget, são
os conflitos que levam à opção ou à constituição
de idéias diferentes. O conflito gera a contradição,
desequilíbrio, insegurança e culpa e ninguém gosta
de conflito.
Numa perspectiva construtivista, o erro não se opõe ao
acerto, mas entra em um quadro de contradições. É
preciso tornar o erro observável para a criança. Porque
o erro só é problema quando se torna observável.
(Vide filme sobre Escrita / FDE / CENP).
Muitos educadores têm dificuldades em trabalhar acertadamente
o erro, porque não se colocam na perspectiva da criança,
mas como adulto que já sabe que é certo (? !)
II - REVENDO PIAGET
"Quando
se vence ao medo, começa a sabedoria"
B. Russell
Piaget
divide o desenvolvimento em três níveis.
O nível 1 é aquele em que a criança pensa
que há mais água na tigela que no copo (nível da
não-operação, mas da justaposição).
As duas coisas estão juntas, mas não vinculadas. Ex.:
A criança sabe que o fogo é quente, mas põe a mão
na panela).
Segundo Piaget, a sabedoria do nível 1 é impedir o conflito
quando ainda não temos condições de resolvê-lo.
Nível 2 - é o nível intermediário,
da flutuação. É a situação, na qual
se muda a água de tigelas e se põe em copinhos e pergunta-se-lhe
onde há mais água. A criança fica preocupada. Há
dúvidas e a resposta não é tranqüila para
o sujeito.
Nível 3 - é o nível de solução
de problema, naquilo em que foi proposto. No exemplo da conservação,
a criança chega a uma resposta sem grande preocupação.
Há uma articulação entre o real e o teórico.
No nível 1, o erro não se coloca como problema para a
pessoa. O erro é recalcado porque ela não pode resolvê-
lo. Nega-se o erro, para não se enlouquecer. Do ponto de vista
cognitivo , o procedimento é semelhante. Aquilo não aparece
como um problema real no momento.. Talvez "a posteriori".
Por exemplo, a criança vê CASA e escreve CAZA.
A segunda imagem de casa é a sonora e nessa casa é com
Z. Nesse caso, a visão se justapõe. Só há
choque para os olhos e não para os ouvidos.
"A posteriori", a criança reconhece que errou, mas
poderá continuar a escrever casa com Z.
É interessante notar que uma cultura que super valoriza o erro
e a culpa, acaba sendo generosa com isso. Por exemplo, hoje,
falar bem é "frescura", pois, em nossa cultura, implica
distanciamento. Por outro lado, observa-se uma crescente valorização
pela gíria, pelo jargão e por palavras de baixo calão
(vide novelas na TV).
No nível 2, poderíamos colocar a fase silábica,
porque nela a criança já tem muitas coisas que se aproximam
(há o raciocínio alfabético convivendo com o erro).
Numa perspectiva estrutural, não existe o problema erro, pois
recorre-se ao dicionário se se desconfia que a palavra está
ortograficamente errada.
O mais importante é dominar o "como" eliminar a dúvida.
Na perspectiva da criança, temos a estrutura que a criança
domina ou não. Assim não é erro. Seria pedir à
pessoa, mais do que ela pode dar. Isso ocorre, muitas vezes, na escola.
É o erro do caminho. Ele é importante, pois não
permite passar do nível 1 ao 3, sem passar pelo 2, ou seja, passar
do não-saber para o saber.
O erro é uma questão própria do processo do conhecimento.
É preciso lembrar, sempre, na escola que erro e acerto
não são privilégios de quem sabe, mas são
caminhos necessários ao conhecimento.
III - COMO CONCILIAR A QUESTÃO PEDAGÓGICA COM A PSICOLÓGICA?
Essa
é uma questão epistemológica. Nossa mentalidade
sobre o erro está subordinada a uma visão do processo
de conhecimento.
Como exemplo, temos a cartilha tradicional, através da qual,
durante anos, divulgou-se que tudo deveria ser feito para que o erro
não acontecesse. Assim, tudo que auxiliasse na perspectiva do
certo, deveria ser reforçado.
Apenas no plano formal, em que o adulto está, é justo
o erro contrapor-se ao acerto.
Numa perspectiva construtivista, a consciência é algo que
se vai conquistando aos poucos. A isso deve- se lembrar que toda didática
proposta ( ou imposta ) de maneira igual a todos os alunos, será
fatalmente inadequada para o aluno enquanto grupo. O "erro "do
aluno deverá servir como instrumento para diagnose e estímulo
para o seu avanço no processo de apropriação e
construção de seu conhecimento
Portanto, o erro não poderá continuar a ser entendido,
na escola, como sinônimo de fracasso, merecendo o castigo do fracasso
na vida, mas como instrumento riquíssimo para a compreensão
do processo da estruturação do pensamento do aluno, ser
em formação.
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