Revista do Projeto Pedagógico

II - Trabalhando com Alunos: Subsídios e Sugestões

1. A Aula

O contrato e a cumplicidade

Uma aula: um momento mágico de aprendizagem ou um pesadelo? Depende da postura do professor frente a seus alunos. Diríamos que, hoje, a aula tenderia, para muitos professores, mais para pesadelo que para momento mágico da aprendizagem. Tudo porque, esses docentes, resistem em mudar sua forma de trabalhar, descuidam de refletir sobre a aula que irão ministrar, cristalizando posicionamentos que os levam, quase sempre, ao preconceito diante do aluno, cujo comportamento foge aos padrões por ele, inconscientemente, estabelecidos: o conformismo, a imobilidade, a passividade, a aceitação de métodos pedagógicos antiquados e desmotivadores, num momento em que a realidade, que cerca o aluno, é tecnologicamente dinâmica quanto às formas de divulgação das informações.

O que seria uma aula senão um contrato entre professores e alunos? Um contrato envolvendo a cumplicidade de ambas as partes em busca de um denominador comum, qual seja o aprendizado de habilidades e de conteúdos significativos nas diversas disciplinas. Todavia, o contrato e a cumplicidade só poderão surgir do diálogo permanente entre as partes, desde o primeiro contato em sala de aula, no qual o professor se interessará pela vida dos discentes, procurando conhecê-la, ocasião em que nascerá a empatia. Empatia essa que só poderá manter-se por meio de características complementares: a competência do professor (o domínio do conhecimento da matéria), a motivação das aulas, a dosagem dos conteúdos, as metodologias facilitadoras da aprendizagem, a avaliação consentânea com o ritmo dos alunos, o reforço e a recuperação contínuos, uma vez diagnosticada a não-aprendizagem de determinados conceitos básicos do conteúdo em desenvolvimento, "naquela aula", etc.

Não atendidas tais premissas, o que se observa, de maneira geral, nas salas de aula, é a eclosão de antagonismos e conflitos, transformando-as num verdadeiro campo de batalha, no qual prejudicar-se-ão professores e alunos; os primeiros pela perda da dignidade em muitas ocasiões, gerada pelo "desrespeito ao mestre"; os segundos pelas distorções em sua formação, seguido dos possíveis traumas decorrentes das incompreensões do adulto em relação à criança e ao adolescente e à não-aprendizagem.

Qual a origem desse antagonismo? Basicamente, a insensibilidade de muitos professores para com as reais necessidades de seus alunos e o não-os-amar, ao invés de tratá-los com carinho, interessar-se pelo seus problemas, buscando compreendê-los e, fundamentalmente, ofertando um ensino de qualidade. Contudo, se os professores não conseguem amar seus alunos, pede-se, pelo menos, que os respeitem. Respeitar o aluno começa pelo preparo da aula que, hoje, é muito difícil de se constatar nas escolas públicas. Assim, o que começa mal, termina ainda pior, ao final do ano letivo, com a promoção sem aproveitamento.


O preparo da aula: o roteiro e as metodologias

Preparar a aula, auxiliado pela tecnologia disponível é essencial. E não se diga que, atualmente, a maior parte das escolas públicas não disponha de um grande número de materiais audiovisuais, televisões, bibliotecas (ou pelo menos livros), etc., para motivar as aulas, materiais esses que muitos professores sequer se dão ao trabalho de pôr em uso. Há os que dominam muito bem os conteúdos de sua disciplina e que, de certa forma, depois de anos e anos de docência, nos quais refletiram sobre como trabalhariam, são capazes de desenvolver belíssimas aulas sem necessidade de colocar no papel aquilo que vão ministrar. Nessas aulas, há o trabalho permanente, prazer em conviver, tranqüilidade nas relações humanas e aproveitamento dos alunos. Nelas são raros os casos de indisciplina. Esse é um fato facilmente constatável, em qualquer escola em que o diretor e o coordenador se dêem ao trabalho de percorrer seus corredores, dando uma "espiadela" no que nelas está ocorrendo. Por outro lado, numerosos professores conhecem pouco sobre a disciplina, que ministra e improvisa o tempo todo. Efetivamente, a improvisação nunca é criativa, fundada que está em atividades desorganizadas e aleatórias, que só fazem confundir e irritar os alunos, que não sabem muito bem para onde estão caminhando seus estudos naquela disciplina. Daí a rebeldia, a indisciplina e o desrespeito ao professor por parte de determinados grupos em sala de aula. O curioso é que os docentes, vivendo esses problemas, jamais param para refletir sobre a balbúrdia em sua sala. Mas é explicável o fenômeno. Parte dos alunos de uma classe é conformista, aceitando passivamente ou "estoicamente" a caceteação de uma atividade desmotivada, o que faz com que o professor considere manifestações hostis a sua aula, deste ou daquele aluno, apenas um ato de indisciplina isolado de "baderneiros e vagabundos" (cujo número tende a crescer ao longo do ano) quando, na verdade, é o sintoma de que algo vai muito mal em suas classes.

No aspecto metodológico, o livro didático (mormente em Língua Portuguesa, mas também em outras disciplinas), que deveria ser um simples material de apoio, passou, há muito, a se constituir o "alfa e o ômega" do trabalho para muitos docentes, artifício que leva à precariíssima aprendizagem. Dir-se-ia que, atualmente, a metodologia aplicada, numa aula compõe-se de leituras do manual, alguma explicação do conteúdo, realizada sem qualquer roteiro, e os famosos questionários, a guisa de síntese. É muito pouco, para não dizer que não é nada. Daí o péssimo desempenho de parcela considerável de alunos nas diversas disciplinas, principalmente em Língua Portuguesa (disciplina com seis aulas semanais!!!) na qual se constatam falhas gravíssimas no campo da redação. Daí a caligrafia de grande parte dos alunos!!! Muitas ilegíveis nas 5ªs. 6ªs, 7ªs... -, da interpretação de textos, da expressão oral (que acabam dificultando o desenvolvimento de habilidades e a compreensão dos conteúdos de outras matérias) e quejandos.


Preparação

Preparar a aula é estabelecer os caminhos, que professores e alunos percorrerão em busca de conhecimentos significativos. Ora, todo caminho a ser percorrido deve, obrigatoriamente, fundar-se em um roteiro adrede preparado. Ninguém entra numa floresta intrincada, separando territórios que se quer alcançar sem planejar a travessia, posto que, ao tentar percorrê-la, cegamente, o mínimo que pode acontecer é perder-se por entre as numerosas trilhas, que se apresentam aos desbravadores. O mesmo pode-se dizer de uma aula. Então, o roteiro no desenvolvimento de um conteúdo é imprescindível. Preparar a aula é definir a maneira de desenvolvê-la a fim de torná-la prazerosa e inteligente de tal forma que os alunos sejam chamados a participar ativamente dela. Sob esse ponto de vista, o conteúdo da aula deverá basear-se num diálogo entre professores e alunos, no qual os primeiros buscarão nos alunos aquilo que difusamente sabem sobre o conteúdo em estudo, unindo-o com o que se quer ensinar, resultando disso tudo o conhecimento novo. Aula dialogada, além da troca de informações entre professores e alunos, é o primeiro passo para facilitar a assimilação do conhecimento e veicular a realidade do aluno a conteúdos significativos. Mas essa não seria a única forma de se trabalhar os conteúdos das disciplinas. Haveria outras que, a permanente reflexão do professor, ao preparar sua aula, tenderá a criar, observando sempre o ritmo de cada grupo de alunos, entre as quais: o "Estudo do Meio", o trabalho em grupo, os seminários de debates (mormente nas matérias humanísticas), a pesquisa de campo, que propiciariam a inserção do aluno na realidade política, econômica, social e cultural da comunidade, do município, do Estado, do país. A aula preparada com reflexão, com certeza, terá um conteúdo bem dosado, posto ser ele significativo. De nada adianta a massa de informações inacessíveis à compreensão dos alunos e, por isso, sob muitos aspectos, inúteis.


Uma aula precisa ter começo, meio e fim

Entendemos que uma aula deva ser um todo constituído de muitas partes. Assim, é preciso que a aula tenha começo, meio e fim, ainda que, o conteúdo da unidade, englobe mais de uma aula.
Observa-se que os professores, de maneira geral, desenvolvem seu trabalho sem essa preocupação. Inicia um conteúdo que não se concluirá (na sua parte) ao término da aula, uma vez que é, naturalmente, interrompido pelo sinal, sem que se verifique o que se apreendeu ou o que não se apreendeu do que foi exposto ou estudado pelos alunos. Agindo dessa maneira, ou seja, não concluindo aquilo que foi preparado para a aula, o conteúdo trabalhado, acaba por diluir-se no espaço de tempo entre uma aula e outra (mediadas, às vezes, por vários dias), podendo, mesmo, ser esquecido, se não documentado. E por que isso acontece? Simplesmente porque o professor não se preocupou em selecionar os objetivos do conteúdo, que vai desenvolver no espaço de tempo disponível. Quando o professor trabalha por objetivos sabe, exatamente, onde quer chegar em cada aula, fazendo-a terminar com a avaliação daquilo que foi trabalhado com os alunos e uma pequena síntese, ao final da aula, realizada com a participação dos alunos. Assim, para que uma aula tenha começo, meio e fim, faz-se necessário selecionar, criteriosamente, os objetivos do conteúdo a ser trabalhado "naquela aula", que deverão ser poucos a fim de que haja tempo para verificar se eles foram atingidos. E, no que, o atendimento a esse preceito alteraria o trabalho do professor em sala de aula? Absolutamente em nada, para aqueles que preparam suas aulas. Estabelecendo os objetivos a serem atingidos em "cada aula" o professor garante o registro e a assimilação, por parte dos alunos, daquilo que foi desenvolvido, mantendo-se a seqüência do trabalho e a organicidade desse conteúdo significativo. E fundamentalmente, terá a possibilidade de, na verificação do desempenho dos alunos, ao final de cada aula, realizar a recuperação contínua daqueles conceitos básicos não assimilados por determinados alunos ou, pelo menos, iniciá-la na próxima, revendo o que não foi apreendido.


A auto-organização do aluno: as anotações durante a aula e o atendimento individual

Pouquíssimos professores preocupam-se em orientar a auto-organização do trabalho discente em sala de aula. Desse fato decorre, não ter, grande parte dos alunos, a documentação dos conteúdos trabalhados na aula. Uma breve observação nos cadernos dos alunos é o bastante para se constatar as distorções reinantes no fazer de grande parte dos discentes (notadamente os egressos das classes desfavorecidas, desprovidos de apoio cultural no lar e, muitas vezes, de acompanhamento e orientação em sala de aula). São anotações aleatórias daquilo que o professor, às vezes, passa no quadro-negro, rabiscos, desenhos de todo tipo, desvinculados, é claro, dos conteúdos que estão sendo desenvolvidos. Esse fato, é, também, sintoma do desinteresse prevalecente entre os alunos em determinadas aulas. E o que é pior, transforma-se num péssimo hábito prejudicando, profundamente, as avaliações, visto que, o aluno não tem onde estudar os conteúdos trabalhados (embora a avaliação deva ser contínua, ou seja, em todas as aulas tal qual colocamos no transcorrer desta análise). Denota, também, a pouca ênfase que o professor dá ao acompanhamento individual do trabalho em sala de aula. É verdade que essa é uma tarefa ingrata, mesmo para o professor, que acompanha individualmente o trabalho de seus alunos, posto que o problema se origina do desinteresse dos pais quanto às tarefas que o filho deveria realizar em casa e de um processo distorcido e sem exigências, em outras disciplinas, nas quais determinados professores agem de forma omissa quanto à organização dos trabalhos a serem realizados pelos alunos, em classe, prejudicando os docentes, que buscam organizá-los. Esse fato demonstra, claramente, a inexistência de um trabalho coletivo na unidade.

Concluindo

Embora reconheçamos a inadequação da estrutura do sistema (sobretudo no Ciclo II e Ensino Médio), para uma bem sucedida Progressão Continuada e para se trabalhar da forma como foi colocada neste texto, apesar dos baixos salários, desmotivando grande parte dos professores, há um nó, que necessitamos desatar: a ausência da consciência da responsabilidade social da escola no sentido de melhorar o desempenho dos alunos e daqueles que, diretamente, atuam sobre eles. Nesse aspecto, não podemos nos esquecer de que, o que propiciou as inovações, que muitos de nós criticamos, foi a constatação de que o aprendizado era precário e as retenções monumentais, ao final de cada ano letivo, sem que os órgãos centrais buscassem soluções factíveis (afinal a SE recebia os resultados da avaliação das escolas, bimestralmente, e, nunca atuou sobre ela no momento em que deveria fazê-lo) e o coletivo refletisse e procurasse alternativas para o que vinha sucedendo. Se era tão ruim o aproveitamento dos alunos, no que ele poderia piorar com as inovações? Claro está que se não houver uma auto-crítica dos envolvidos no processo educacional, no sentido da mudança de posturas frente ao trabalho docente com os alunos, se houver uma compreensão equivocada da Progressão Continuada, contaminando professores e alunos, se houver a acomodação de todos diante da idéia segundo a qual apenas interessa à SE estatísticas de promoção, iremos ao fundo do poço.
Contudo sejam quais forem as condições de trabalho oferecidas à rede, existe "o aqui e o agora na escola" que é tarefa intransferível da unidade, que não pode pactuar com um trabalho de baixa qualidade, constatado em qualquer pesquisa sobre o aproveitamento do alunado. E não haverá aprendizado significativo e desempenho otimizado do alunado, sem que os professores se conscientizem de que eles têm a tarefa de levar a sério seu trabalho, que é árduo, como foi exposto, mas que tem de ser realizado, posto que, essa é a função docente, que deverá, sempre, estar voltada para a formação e crescimento intelectual dos discentes, pois, na verdade, não existiria justificativa para ocorrer o contrário.

 

Decálogo
a ser seguido pelos gestores para a solução dos problemas de infra-estrutura das Escolas Públicas Estaduais


1
Se não houver merendeira na escola,
não será fornecida a merenda;

2
Se não houver pessoa responsável pela Biblioteca, ela permanecerá fechada;

3
Se não houver escriturários e secretário,
de acordo com o módulo, não haverá entrega de documentos na DE;

4
Se não houver verba para compra
de material e manutenção da sala de informática, o local não será utilizado;

5
Se não houver recursos para reparos e vazamentos no prédio escolar,
não haverá consertos;

6

Se não houver recursos para pintura do prédio, o prédio não será pintado;

7

Se não houver verba para a contratação de contador para a escola, não haverá prestação de contas à FDE;

8
Se não houver verba suficiente para a contratação de funcionários pela CLT,
o dinheiro será devolvido;

9
Se a mão-de-obra provisória
não for qualificada, será recusada;

10
Se as festas não tiverem o objetivo de integrar a escola à comunidade, não serão realizadas

A nossa escola é, por previsão constitucional, pública e gratuita. Portanto, ela tem de ser custeada pelos cofres públicos.

Todas as omissões do Estado, com relação aos itens acima, deverão ser objetos de ofícios da direção às Diretorias Regionais de Ensino, a fim de isentarem o diretor de eventuais responsabilidades administrativas.
Toda e qualquer ameaça de punição aos diretores associados da Udemo, por tomarem aquelas atitudes, será objeto de defesa jurídica por parte do Sindicato, seguida de denúncia ao Ministério Público e propositura de Ações Civis Públicas contra o Estado, pelo não cumprimento das suas obrigações para com as unidades escolares e pelos prejuízos causados à comunidade escolar.