Revista
do Projeto Pedagógico
I - Elaborando
o Projeto Pedagógico
9.
Os
Ciclos de Aprendizagem
Novos
Espaços - Tempos de Formação
Ensinar é dispor de um tempo definido para atingir objetivos. A introdução
de ciclos de aprendizagem plurianuais modifica esse parâmetro: o professor
não precisa prestar contas de seu trabalho ao final de cada ano letivo,
mas apenas na conclusão do ciclo, no momento em que seus alunos passam
para o ciclo seguinte.
Uma
zona mais extensa de autonomiae de responsabilidade
Em princípio, a criação de um ciclo estende a zona de autonomia
e de responsabilidade dos professores. Encarregados de etapas plurianuais supõe-se
que se organizem à sua maneira durante o ciclo, pelo menos se forem considerados
profissionais. Isso está longe de ser generalizado. Alguns sistemas que
introduzem ciclos obstinam-se em conservar progressões limitantes em etapas
anuais. Os professores não necessariamente reclamam disso. Ocorre, portanto,
que, mesmo estruturado em ciclos plurianuais, levando-se em conta os textos, um
sistema educacional funciona de fato por graus anuais, de modo que cada professor
fica responsável pelos alunos apenas por um ano. Nesse caso, os ciclos
não requerem nenhuma competência nova, porque na realidade nada mudou:
o fim do ano letivo é sempre o horizonte do professor, pois ele sabe que
em seguida um colega o substituirá.
Se ao contrário, os
professores precisam e desejam verdadeiramente gerir os percursos de formação
por dois anos ou mais, eles estão condenados a ampliar suas competências
e mesmo a desenvolver novas competências de planejamento e orientação
das progressões individuais. Com certeza não partem do zero:
"
na maioria dos sistemas escolares que não funcionam em ciclos, certos professores
ficam por dois anos com seus alunos; obviamente, os programas continuam sendo
anuais e apresenta-se um balanço ao final de cada ano letivo com base no
qual alguns alunos podem ser reprovados, mas a simples certeza de poder continuar
o trabalho no ano seguinte com os mesmos alunos modifica as estratégias
de ensino, alivia a pressão, facilita a diversificação de
percursos e praticamente elimina a repetência;
" planejar as
aprendizagens para vários anos não é um exercício
completamente diferente do de planejar para um ano; os professores tem um certo
hábito de comandar processos de longo prazo, e trata-se simplesmente de
ampliar essa capacidade a etapas mais longas.
Pode-se concluir que os ciclos, principalmente com dois anos de duração,
só exigem dos professores uma adaptação marginal. Seria a
mesma coisa que alguém mudar para uma casa maior: um pouco surpreso no
início, ele se habitua, adota novas referências e, depois de algum
tempo, já não imagina como pode ter vivido de outra maneira. Se
o obrigássemos a voltar a sua antiga casa, ele se sentiria "apertado",
não compreendendo por que resistiu à mudança.
Paradoxos
Se os ciclos de aprendizagem plurianuais não exigem dos professores nenhuma
nova competência, eles não têm o que temer, já que todos
conseguirão retomar suas rotinas após uma curta fase de adaptação.
Quem poderia se queixar disso? Tal cenário seria ótimo se não
houvesse o risco de criar ciclos de aprendizagem que não mudam nada. Por
que haveremos de introduzir ciclos se não for para combater o fracasso
escolar e, por conseqüência, para criar melhores condições
para uma pedagogia diferenciada para uma individualização dos percursos
de formação?
Primeiro paradoxo: se os professores conseguem
rapidamente e sem dificuldade pôr em funcionamento ciclos plurianuais é
porque essa nova organização do trabalho não aumenta verdadeiramente
a eficácia da escola, não constitui um progresso.
Segundo
paradoxo: os professores só conseguem aprender a dominar o funcionamento
ótimo dos ciclos enfrentando um a um os problemas que eles apresentam e
desenvolvendo novas competências.
Isso não significa que
eles procedam de forma desordenada, por simples tentativa e erro, mas sim que
nenhuma formação atualmente pode proporcionar todos os conhecimentos
e todas as competências requisitadas para explorar todas as potencialidades
dos ciclos plurianuais. Só se chegará a isso à custa de um
trabalho de desenvolvimento profissional de muito fôlego. Este pode ser
apoiado por ofertas de formação e acompanhamento adequados; porém,
em última instância, ainda que seja coletivo esse trabalho cabe aos
professores - e apenas a eles.
Será, então, que não
se está submetendo os alunos a riscos impensados? De modo nenhum, desde
que os professores tenham a sabedoria de modificar progressivamente sua maneira
de trabalhar, de forma a jamais perder o controle das aprendizagens e das defasagens
entre os alunos. Não há nenhuma razão para reagir, em nome
de uma espécie de ortodoxia, para que um professor ou uma equipe comece
a estruturar um ciclo em etapas anuais. O essencial é que eles trabalhem
para se libertar progressivamente desse costume, sem perder o controle dos acontecimentos.
A verdadeira ruptura não consiste em fazer o contrário do que se
fazia até agora do dia para a noite. Ela consiste antes em pôr-se
a caminho para afastar-se gradualmente, e sabendo por que motivo, de uma estruturação
das aprendizagens contidas nos programas anuais.
Uma
condição: saber por que se desenvolvem os ciclos
A condição de tal desenvolvimento profissional é, evidentemente,
perceber o interesse e a pertinência de uma organização da
escolaridade em ciclos plurianuais, sabendo que não se trata de um fim
em si, mas de um meio de tornar a escola mais justa e eficaz. Em outro trabalho
(Perrenoud, 2004), procurei propor uma argumentação completa evocando
particularmente cinco razões para desenvolver ciclos plurianuais:
"
definir as etapas mais compatíveis com as unidades de progressão
das aprendizagens;
" permitir um planejamento mais maleável das
progressões e uma diversificação das trajetórias;
"
favorecer uma maior flexibilidade para a incorporação diferenciada
aos alunos, em diversos tipos de grupos e de dispositivos didáticos;
"
assegurar maior continuidade e uma coerência mais forte, com a responsabilidade
de uma equipe por vários anos;
" perseguir os objetivos de aprendizagens
referentes a vários anos, que constituem referências essenciais para
todos que orientam o trabalho dos professores.
Se os professores não estiverem convencidos, não se pode esperar
que se empenhem em desenvolver novas competências. Se os ciclos forem impostos,
sem a sua adesão, eles se limitarão a adaptar marginalmente suas
rotinas, procurando recriar um ambiente de trabalho estável, não
muito diferente de seus hábitos.
Para se colocar deliberadamente
em desequilíbrio, é preciso admitir que introduzir ciclos plurianuais
não é um fim em si, mas um meio potencial de tornar a escola mais
eficaz, única justificativa de uma mudança importante. Tal fato
supõe um duplo acordo:
" sobre esse objetivo e, portanto, também
sobre os valores que eles subtendem (recusa do fracasso e das desigualdades, democratização
do acesso aos saberes escolares);
" sobre o interesse potencial que apresentam
os ciclos plurianuais nessa perspectiva.
Os sistemas educacionais que impõem os ciclos plurianuais aos professores,
como qualquer reforma de estrutura, criam ciclos no papel, sem interferir nos
funcionamentos tradicionais, sendo logo reconstituídos sob um novo rótulo.
Lamentavelmente, os que decidem as reformas sempre subestimam o trabalho prévio
sem o qual os professores não se posicionam. Ora, se eles não são
os primeiros a se empenhar ativamente em construir ciclos plurianuais dignos desse
nome, ninguém fará em seu lugar, mesmo que o sistema colocasse à
disposição enormes recursos de pesquisa, de formação
ou de controle...
Novas competências de organização
do trabalho
Os professores que trabalharem em ciclos não porque receberam ordens para
isso, mas porque julgam que estes serão mais eficazes, em pouco tempo perceberão
que trabalhar desse modo só terá um real interesse se um ciclo for
confiado a uma equipe pedagógica preparada para desenvolver novas competências
de planejamento e de gestão de progressões.
Logo, essas competências
serão ao mesmo tempo individuais e coletivas. Os ciclos requerem uma outra
organização do trabalho, virtualmente mais poderosa, porém
mais complexa. Quando se confia um ciclo a uma equipe de professores, solidariamente
responsáveis por todos os alunos durante vários anos, essa equipe
disporá de várias salas de aula e de um pool de competências
e de interesse que nenhum professor reúne em si.
A primeira preocupação
de tal equipe será otimizar o uso desses recursos. Não para aumentar
o conforto dos professores, e sim para otimizar as aprendizagens dos alunos, em
particular daqueles que têm dificuldades no sistema de graus anuais. A equipe
imaginará uma divisão do trabalho entre seus membros, em função
não apenas de suas competências, mas também de um conjunto
de dispositivos que deve funcionar paralelamente ou em seqüência no
espírito de uma pedagogia diferenciada: aulas convencionais, sem dúvida,
para uma parte do tempo escolar, além de grupos mais efêmeros e específicos,
grupos de níveis, de necessidades de projetos, de apoio ou módulos
temáticos trabalhando certos componentes do programa de forma intensiva.
Desde o século XIX, o sistema educacional atribui a cada professor do ensino
fundamental uma turma, uma sala de aula e um programa anual. No ensino médio,
um professor trabalha com várias turmas, mas intervém apenas algumas
horas por semana, de acordo com uma distribuição que varia em função
da disciplina que leciona. Dentro do espaço-tempo de uma aula e de um ano
letivo, os professores organizam-se, em larga medida, à sua maneira. Portanto
eles construíram competências de gestão de aula, de planejamento
de atividades, de orientação dos percursos durante um ano letivo
ou, ainda, de administração do espaço que lhe é atribuído.
No âmbito dos ciclos plurianuais, a autoridade escolar atribui um conjunto
de locais para uma equipe, confia-lhe um conjunto de alunos com idades diversas
- até quatro anos de diferença - e designa-lhes a tarefa de conduzi-los
aos objetivos de fim de ciclo. Em uma situação de completa profissionalização
do ofício de professor, uma equipe pedagógica encarregada de um
ciclo deveria ter o direito, nesse contexto, de se organizar como bem entendesse.
Isso modificaria a partilha do poder de organizar o trabalho que é transferido
em parte aos professores.
Essa transferência geralmente é
muito limitada, em razão do temor da administração de perder
o controle, de sua preocupação em não criar desigualdades
de tratamento, de sua sensibilidade às expectativas dos pais. Tudo isso
costuma conduzir as autoridades escolares a impor percursos-tipo e balizas anuais,
a regulamentar a divisão do trabalho entre professores e a normalizar os
modos de agrupamento dos alunos. Isso é lastimável, e é de
se esperar que os professores detenham um poder de organização do
trabalho, não mais apenas em escala da sala de aula, mas de conjuntos mais
amplos e por tempos mais longos que um ano letivo.
É preciso ainda
que eles tenham esse desejo e que construam competências correspondentes.
Os professores ainda necessitam de competências pontuais de cooperação,
de negociação, de regulação conjunta de dispositivos
complexos, de resolução de problemas de justiça, como eles
colocam desde o momento em que os professores já não fazem todos
exatamente o mesmo trabalho. Faltam-lhes igualmente competências de gestão,
maiores espaços-tempos de formação, de organização
do trabalho, de gestão de agrupamentos de alunos nessa escala. Ou seja,
uma cultura no âmbito das pedagogias de grupos e do acompanhamento personalizado
dos percursos, com essa parte de engenharia que evoca toda pedagogia diferenciada.
Novas
competências em didática e em avaliação
Não se pode reduzir os ciclos a uma nova organização do trabalho
ou a uma maior cooperação profissional. O essencial é que
a organização e a cooperação favoreçam intervenções
didáticas mais eficazes, um melhor acompanhamento dos alunos, uma individualização
diferenciada de seus percursos, uma avaliação realmente formativa.
Se a instauração de ciclos de aprendizagens não é
acompanhada de competências mais pontuais e amplas em pedagogia, em didática
e em avaliação, é de se temer que as virtudes de tal estrutura
sejam apenas virtuais. A regulação dos processos de aprendizagem,
dos dispositivos de diferenciação, dos agrupamentos, e dos percursos
dos alunos supõe particularmente um excelente conhecimento dos objetivos
de formação, que é o fundamento de balanços lúdicos,
passando eles próprios por uma avaliação criteriosa, como
também pela observação fina do trabalho pelos alunos.
Contudo, essas competências permanecerão estéreis sem uma
formação ampla em didática ou nas disciplinas ensinadas,
combinada com um bom conhecimento das práticas sociais de referência,
assim como dos saberes eruditos, que são a fonte da transposição
didática. O desafio dos ciclos plurianuais vai muito além, portanto,
da organização do tempo e do espaço. O que está em
jogo nessa reforma, assim como em outras, é elevar o nível de qualificação
pedagógica e didática dos professores.
Referência
Bibliográfica
PERRENOUD,
P. Os ciclos de aprendizagem; um caminho para combater o fracasso escolar. Porto
Alegre: Artmed, 2004. In Revista Pátio - maio/julho 2004