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| Revista do Projeto Pedagógico I - Elaborando o Projeto Pedagógico 4. Por uma Escola do Nosso Tempo I. Parâmetros para a Educação do século 21
A Comissão Internacional sobre a Educação para o Século
21, criada pela UNESCO, sob a presidência de Jacques Delors*1, sugere os
seguintes princípios para o processo de aprendizagem no alvorecer do novo
século:
O primeiro princípio é carregado de evidência, sobretudo à
luz dos progressos da comunicação e da informática, bem como
da generalização das fontes de informação e dos meios
de acesso a elas. O conhecimento não está fechado em livros inacessíveis
em linguagem cifrada, em locais a que poucos têm acesso. A democratização
do livro, a disseminação de jornais com informações
cada vez mais abrangentes, os meios eletrônicos de armazenagem e o acesso
às informações e à rede mundial de computadores -
a Internet - estão permitindo que se tenha possibilidade de obter a informação
de que se precisa no momento em que se quer. Uma tarefa importante da escola,
hoje, é ensinar aos alunos como chegar à informação
e ao conhecimento. É impossível estudar tudo na escola, por mais
que se amplie o tempo das aulas e a duração dos cursos. O conhecimento
não cessa de progredir e de acumular-se. O importante é saber onde
encontrá-lo, como chegar a ele.
Em decorrência do que dissemos anteriormente, podemos assinalar alguns setores que carecem de renovação para que se possível transformar a educação: 1 A democratização do acesso à escola e ao conhecimento em todos os níveis. No ensino fundamental, já estamos quase chegando à universalização, em termos percentuais (97%). Em números absolutos, ainda temos mais de 2 milhões de crianças entre 7 e 14 anos fora da escola, o que constitui um desafio impostergável. Merece absoluto esforço - político, administrativo, financeiro - o direito de toda criança freqüentar a escola. A educação infantil tem crescido bastante aceleradamente nos últimos 20 anos, à razão de 20% ao ano. Mesmo assim, nosso sistema de ensino está muito aquém da demanda e da necessidade das famílias e das crianças. Temos que chegar a pelo menos 50% da população na faixa de zero a seis anos matriculadas em creches e pré-escolas. Insuficiente oferta também ocorre no ensino médio e no ensino superior. Em ambos os níveis, a seletividade é muito grande. De um lado, temos a necessidade do País de maior número de trabalhadores formados em nível médio e de maior número de profissionais, estudiosos pesquisadores e cientistas, portanto, graduados e pós-graduados. Sem elevar significativamente o atual número de estudantes universitários, o País não contará com os quadros superiores para competir internacionalmente numa economia globalizada. De outro lado, temos o direito de acesso aos níveis superiores do conhecimento de todos aqueles que têm capacidade para tanto. Não é justo que a situação econômico-financeira dos estudantes e de suas famílias seja óbice para o estudo superior. A inteligência não pode ser discriminada por razão econômica. E está sendo. Educação democrática implica escola democrática. E exclusão por razão econômica é atestado de antidemocracia no acesso ao conhecimento. 2 Garantia das aprendizagens escolares. Não basta colocar todas as crianças na escola se ela continua sendo chata e se multidões de alunos continuam não aprendendo. Universalizar o acesso ao ensino fundamental sem universalizar a aprendizagem dos conteúdos e desenvolver em todos o processo de aquisição de novas aprendizagem cumpre apenas o formalismo do número sem atender aos requisitos da qualidade em educação. Há uma questão importante que é o que ensinar. Talvez esta última seja mais difícil de resolver. Bem ou mal, os livros escolares, distribuídos com certa pontualidade e fartura nas escolas públicas de ensino fundamental, estão mostrando os conteúdos. Mesmo assim, a reprovação - que indicaria a não-aprendizagem dos conteúdos mínimos exigidos - continua alta. 3 Fazer da escola um lugar agradável, gostoso, atrativo, e da aprendizagem, um prazer. Desde Sócrates, diz-se que conhecer é tão belo e tão apaixonante que todas as pessoas sentem desejo de aprender. Para o filósofo, a verdade era tão atraente e bela que impulsionava o desejo de possuí-la. Ao longo do tempo, a escola foi incorporando a imagem de um lugar de desprazer, de obrigação desagradável. Não são poucas as crianças que consideram a sexta-feira o melhor dia da semana, porque antecede dois dias em que não terão que ir à escola. Os feriados e as férias são esperados como verdadeiros deleites, como a coisa mais gostosa. Pertence à visão maniqueísta a separação entre a aprendizagem, o conhecimento, a busca da verdade como coisas purificadoras, que envolvem renúncias e sofrimentos, e o brinquedo, o gozo, a fruição, como coisas menos nobres. A escola, portanto, é como um altar de sacrifícios e ascensões. O recreio, a festa, a celebração da alegria são intervalos ou concessões mais ou menos restritas. A pedagogia tem que estar ciente de que "o conhecimento só emerge em sua dimensão vitalizadora quando tem algum tipo de ligação com o prazer"*3. Mesmo que não tenhamos um vocabulário adequado para designar os variados matizes que o componente afetivo assume no ato educativo, "é impossível desconhecer o papel da emoção como moduladora e estabilizadora dos processos de aprendizagem..." *4. 4
A gestão da escola com a participação da comunidade e da
família e a abertura da escola para as janelas do mundo, ou seja, para
a interdependência mundial na construção do conhecimento.
Hoje, os professores não são mais os únicos portadores do
conhecimento. Nem os livros didáticos. Nem a biblioteca escolar. O computador
e a Internet são instrumentos e vias para chegar à informação
mais atualizada, para suscitar novas reflexões sobre qualquer tema de estudo,
para provocar novos questionamentos e respostas, para viajar pelo mundo dos saberes
e das perguntas, para estabelecer redes de pesquisa e construção
coletiva do conhecimento. 5 A redefinição dos conteúdos da educação, abrangendo o saber e o fazer; o universal e o particular, o geral e o local; a ciência e as artes, a cultura e a política; a cultura à interdisciplinaridade no processo de aprendizagem e no seu conteúdo exige um rearranjo curricular e didático. Conteúdos estanques, disciplinas isoladas, professores que dão aula e vão embora, sem se interessar pelo que outros professores estejam trabalhando com os mesmos alunos, são atitudes ultrapassadas. Os "temas transversais" introduzidos nos Parâmetros Curriculares Nacionais*7 traz a idéia da interdisciplinaridade, embora os temas elegidos (ética, meio ambiente, pluralidade cultural, saúde e orientação sexual) possam novamente ser tratados de forma isolada. 6 Estabelecimento da formação para a cidadania e para a competitividade como estratégia para a educação. O documento da UNESCO/OREALC/CEPAL - Educação e conhecimento: eixo da transformação produtiva com eqüidade (Santiago, 1992) - coloca como objetivos: a) a formação para a cidadania, entendida como eqüidade, responsabilidade social, transmissão de valores, formação democrática, e b) o preparo para a competitividade, entendida como aquisição das habilidades e destrezas necessárias para poder desempenhar seu papel produtivamente no mundo moderno. Os critérios inspiradores são a igualdade de oportunidades e a compensação das diferenças, a avaliação dos rendimentos e o incentivo à inovação. Como linhas principais, o documento assinala o fortalecimento da capacidade institucional, a maior autonomia da ação educativa para garantir mais rendimento e mais responsabilidade dos agentes educacionais. 7 Preparação do professor para os novos horizontes de trabalho pedagógico. Essa preparação envolve uma revisão profunda das estratégias e dos conteúdos de sua formação. Hoje, o professor tem que ter a convicção de que todos os alunos são capazes de aprender; assumir o compromisso com a aprendizagem de todos os seus alunos; ter a habilidade para apresentar todos os conteúdos como interessantes; ser capaz de suscitar o prazer de aprender. Segundo Assmann, "pedagogo(a) se torna, quem consegue manifestar em seu comportamento docente, e introduzir em suas atividades didáticas, os princípios básicos da morfogênese do conhecimento, que são: unidade entre processos vitais e processos cognitivos, interpenetração entre prazerosidade e conhecimento"*8. 8 Disponibilidade na escola das novas tecnologias da comunicação e da informática, para que o conhecimento universal e os conhecimentos locais (inclusive de outros locais que não o seu, mas de significação profunda para o povo ao qual pertencem) possam chegar aos alunos e professores imediata e amplamente. De todos esses oito elementos, o mais importante é o citado sob o número sete. Professores preparados adequadamente para gerenciar o acesso às informações e aos conhecimentos, para trabalhar com os alunos a construção do conhecimento são os agentes mais determinantes na transformação da escola. __________ NOTAS *1
Rapport de la Commission Internationale sur l'éducation pour lê vingt
et unième siècie: syntèse préliminaire. Paris: UNESCO,
oct. 1995. |
Decálogo A nossa escola é, por previsão constitucional, pública e gratuita. Portanto, ela tem de ser custeada pelos cofres públicos. Todas
as omissões do Estado, com relação aos itens acima, deverão
ser objetos de ofícios da direção
às Diretorias Regionais de Ensino, a fim de isentarem o
diretor de eventuais responsabilidades administrativas. |