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Folha Dirigida, 19/11/2010 - Rio de Janeiro RJ
Avançar Mais
Terezinha Saraiva
Não gosto de fazer comentários a partir de rankings, na área da educação. Já o disse em outros artigos, porque não parece justo elaborar rankings, envolvendo países com características tão diversas, envolvendo resultados de avaliações entre países com sistemas de ensino tão diferentes que se torna difícil estabelecer comparações. Penso que os rankings devem ser analisados, estudados, com certa reserva, porque resultam de corrupções de índices, de notas, entre países e alunados que guardam, entre si, significativas diferenças. Mas é impossível não comentar a matéria divulgada pela mídia, com o seguinte título: "Educação freia avanço do Brasil em ranking da ONU." A notícia informa que o Brasil subiu quatro posições no IDH, das Nações Unidas, passando do 77º para o 73º lugar no ranking global entre 169 países. O IDH brasileiro, calculado sob a nova metodologia adotada pelo PNUD, passou de 0,693 para 0,699. Todos sabem que a escala varia de 0 a 1 e que, quanto mais próximo de 1, melhor é o IDH. O que mudou na fórmula para calcular o IDH, em relação aos anos anteriores? No quesito renda, passou a utilizar a renda disponível, que inclui doações internacionais, em vez da renda bruta per capita.
No quesito educação, a mudança foi maior. Até então, o IDH considerava a taxa de analfabetismo e a taxa de matrícula nos ensinos fundamental, médio e superior. Agora, esses indicadores foram substituídos pela média de anos de estudo de quem tem mais de 25 anos e pelo critério "anos de estudo esperados", que projeta qual será a escolaridade média nos próximos anos, levando em conta fatores como repetência e evasão, para as crianças matriculadas hoje. Por este novo critério, o Brasil tem hoje a mesma média de anos de estudo do Zimbábue, o país africano com o pior IDH do mundo. Com o novo critério para a educação, o Brasil fica em 88º lugar, recuando 15 posições no ranking geral, em relação ao anterior. O relatório do PNUD faz uma avaliação do desenvolvimento nos últimos 40 anos e conclui que "a educação é uma barreira ao progresso do Brasil e é a mais grave privação imposta à nossa sociedade". É importante registrar que, segundo o Relatório, o Brasil melhorou em todas as dimensões do desenvolvimento: saúde, educação e renda. Apesar dos elogios aos inegáveis avanços do país, em 40 anos, o PNDU ressalta que a permanência de desigualdades históricas – como as de renda entre homens e mulheres – continua sendo um limitador do nosso desenvolvimento. O coordenador do Relatório, Flávio Comim, economista do PNUD, afirma que, no que se refere à educação, chama atenção o aumento dos anos médios de estudo; mas ainda restam desafios no que se refere à melhoria da qualidade do ensino.
Os estudos realizados, a partir dos dados referentes à educação mostram que, embora tenhamos quase universalizado o ensino fundamental e ampliado as matrículas nos demais graus e etapas do ensino, não conseguimos melhorar sua qualidade. Ficou evidente que a ampliação de matrículas não se traduz, necessariamente, em melhoria da qualidade. A média de escolaridade dos brasileiros é de 7,2 anos, quando 13,2 anos é considerado o ideal. Iniciei este artigo dizendo que não nutro simpatias por rankings, porque alguns critérios não me parecem os mais indicados. Por exemplo: ao considerarem dados da educação para quem tem mais de 25 anos, foram excluídos os investimentos realizados nesses 12 últimos anos, em que, além de ampliarmos significativamente o contingente de alunos na pré-escola, na educação de jovens e adultos, no ensino médio e superior, universalizamos o ensino fundamental, criamos o Fundef, posteriormente transformando no Fundeb, o Ideb, o ProUni. Embora essas medidas não tenham conseguido, ainda, ter reflexos na qualidade do ensino, que continua sendo nosso maior desafio, democratizamos o acesso aos vários graus e etapas de ensino, estabelecendo metas a serem atingidas.
Convivemos, sim, com algumas dificuldades que não são de hoje. São antigas e, por isto, mais preocupantes, porque permanecem sem solução, como a evasão, antes de completar sobretudo o ensino fundamental e médio; a repetência e a distorção série-idade causada, atualmente, pela repetência e não mais pela entrada tardia no ensino fundamental, como antigamente. Cerca de 16% das crianças de 9 anos estão no ano escolar inadequado – é um exemplo. Soma-se a essas dificuldades, a má qualidade do ensino ministrado e o baixo desempenho escolar dos alunos, sobretudo na Educação Básica. Enquanto patinarmos na educação; enquanto não tivermos um sistema de saúde eficiente a que todos tenham acesso; enquanto tivermos, alguns poucos milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza, o brasil não fará jus a um bom IDH e a uma posição melhor no ranking mundial.
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