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O Estado de São Paulo,
27/07/2010 - São Paulo SP
Maior
nível de escolaridade protege cérebro contra sintomas
de demência
Pesquisa mostra que pessoas que estudam
mais durante a vida têm o cérebro tão afetado
por problemas neurodegenerativos quanto os demais, mas lidam melhor
com as manifestações físicas das doenças;
descoberta reforça importância da prevenção
Karina Toledo
Diversos estudos indicam que quanto maior
o nível de escolaridade, menor o risco de uma pessoa sofrer
de demência. Mas uma nova pesquisa publicada na revista Brain
sugere que os mais estudados têm o cérebro tão
afetado por doenças neurodegenerativas quanto os demais.
A diferença é que, nesses pacientes, as manifestações
físicas da demência são mais brandas. Os cientistas
analisaram o cérebro de 872 pessoas envolvidas em três
grandes estudos europeus sobre o envelhecimento que, antes de morrer,
preencheram questionários sobre seu nível de educação,
o momento em que abandonaram a escola e se frequentaram a universidade
ou não. A única diferença significativa encontrada
entre aqueles com maior grau de escolaridade foi o tamanho do cérebro.
Cada ano adicional de estudo resultou numa chance 10% maior de o
órgão estar no seu tamanho máximo na hora da
morte, ou seja, ter perdido menos neurônios. "Nosso estudo
mostra que o ensino durante a juventude permite que algumas pessoas
lidem com muitas mudanças em seus cérebros antes de
apresentarem sintomas de demência", afirmou a pesquisadora
da Universidade Cambridge Hanna Keage.
Uma educação
mais avançada, continua Hanna, não está relacionada
a diferenças nos danos ao cérebro, mas as pessoas
que estudaram por mais tempo se mostram capazes de lidar melhor
com tais danos. Para o neurologista Cícero Coimbra, da Universidade
Federal de São Paulo, isso pode ser explicado pelo fato de
que novos neurônios são produzidos quando aprendemos
uma nova habilidade. "O cérebro possui células-tronco
que, quando estimuladas, transformam-se em novos neurônios.
Esse processo pode ocorrer a qualquer momento da vida, mesmo com
90 anos", diz. Esse novos neurônios, diz Coimbra, migram
para as áreas do cérebro que normalmente são
mais utilizadas pela pessoa. Isso ajudaria a repor as células
nervosas afetadas pela doença.
A geriatra Rossana Funari,
do Complexo Hospitalar Edmundo Vasconcelos, explica que em pessoas
com baixa escolaridade, principalmente naquelas que realizam atividades
mecânicas, a parte do cérebro em atividade é
menor. Por isso, quando essas pessoas são afetadas por doenças
neurodegenerativas, os sintomas aparecem mais rápido. "Além
disso, é mais difícil fazer o diagnóstico de
demência em pessoas com mais escolaridade, pois elas sabem
disfarçar mais os sintomas", conta. A demência
está relacionada à morte de neurônios. Entre
as causas estão problemas vasculares, alterações
metabólicas, tumores e infecções. Estima-se
que, em todo o mundo, cerca de 35 milhões de pessoas sofram
com o problema, número que deve crescer com o envelhecimento
da população. Como não há tratamentos
eficazes, o desenvolvimento de maneiras de prevenir a demência
está se tornando cada vez mais importante para os governos
de todo o mundo. "Países em desenvolvimento, como o
Brasil, vão sofrer mais, por causa da baixa escolaridade
de sua população", alerta Rossana. / COM REUTERS
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