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Matéria publicada
no Jornal Folha de São Paulo, de 20/07/10
O mestre na
sombra
ANNA VERONICA
MAUTNER - amautner@uol.com.br
EXISTE UMA certa unanimidade sobre a importância
do estado de ânimo e da personalidade do professor na facilitação
do processo de aprendizagem na sala de aula.
Creio que todos concordam com a ideia de que
a atividade do professor precisa ser bem paga. Claro.
Parece existir, também, uma correlação
clara entre salário e eficiência. Tem sido dado grande
destaque à questão salarial, mas isso não parece
ser suficiente.
Além do salário, o reconhecimento
da pessoa do mestre por parte da comunidade é muito importante.
Se ele sair da sombra, se for conhecido, isso
alavancará a sua autoestima, sem a qual o entusiasmo inexiste.
Vivemos em uma época em que todo mundo
-professor inclusive- gostaria de sair da sombra e do anonimato,
pelo menos entre seus pares.
Professor é a profissão onde o
entusiasmo é indispensável. A fé na importância
da tarefa que ele desempenha depende de reconhecimento e de uma
certa notoriedade, talvez mais do que entre outros profissionais.
O mestre precisa do olhar de apreciação,
não só de seus alunos. Isto é, precisa ser
aceito, mas depende disso a aceitação de sua mensagem.
Há muitas décadas, o professor
era muito importante. Ser reconhecido e cumprimentado por um alimentava
a vaidade da pessoa. Valia a pena conhecer professores.
A velha imagem da maçã na mesa
do professor desapareceu. Ele já não é mais
tão homenageado como antes.
Uma ou outra família ainda se esforça
para agradá-lo. Será ainda uma honra receber uma visita
de professor? É uma honra ele aparecer em um aniversário?
A minha proposta é que se anexem aos programas
de valorização do professor projetos de especialistas
em construção de imagem, marketing pessoal -por que
não?
Esses especialistas poderão tirar os mestres
da sombra. Só a título de exemplo: poderíamos
criar concursos de redação, de poesia, realizar passeios
e excursões, congressos municipais ou regionais, tudo com
alta visibilidade, repercussão na mídia.
A ideia é tirar o professor de um lugar
que ficou pequeno e redimensioná-lo como alguém que
se diverte, que troca informações e compartilha conhecimento.
Saberemos, assim, quem são, e eles se sentirão acompanhados.
A condição do professor é
muito especial: tem que despertar curiosidade, entusiasmo, fé,
não só no conteúdo mas também na forma
de aplicar o conteúdo.
O magistério bem visto e admirado até
facilitaria às autoridades conceder aumentos salariais.
A profissão de ensinar depende do sorriso de satisfação
do professor. Hoje, no século 21, ser reconhecido é
ser visto, é ser notado. Um professor do ensino fundamental
é o menos valorizado pela mídia e, consequentemente,
pela sociedade.
Gostaria de ver eventos de professores na TV,
justamente aqueles que são tão criticados como responsáveis
-os "que não dão conta".
Vamos mostrar que nós os apreciamos. Ser
professor do ensino fundamental não é apenas ensinar
a ler, contar e escrever. O professor fica sozinho com a tarefa
de ensinar a fazer "benfeito". É com ele que aprendemos
ordem, aplicação e capricho. O professor é
um modelo de "fazer".
Hoje, sem nota de ordem, sem nota de aplicação,
tendo por modelo professores anônimos sem história,
como podem eles gerar cidadãos eficientes? É na primeira
infância que se aprende a fazer.
Além de reunião de pais com mestres,
precisamos de mestres reconhecidos, para que possam fazer parte
da história dos meus netos, como os meus professores fazem
parte da minha história.
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