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Matéria publicada
no Jornal Folha de São Paulo, de 20/07/10
TENDÊNCIAS/DEBATES
Mais perversão na
educação brasileira
NAOMAR DE ALMEIDA FILHO
A maioria pobre não somente financia a
educação superior mas também subsidia a educação
básica privada da minoria social privilegiada
Na sociedade contemporânea, cada vez mais
complexa e diversificada, formação universitária
aparece como fator de ascensão social.
Neste Brasil de absurdos e iniquidades, educação
superior supostamente implica uma profunda perversão social.
Eis o argumento: no nível básico
de ensino, aos pobres, por seu reduzido poder econômico, resta
a rede pública, com precária infraestrutura e docentes
desmotivados por baixos salários.
Ao contrário, as camadas médias e altas da sociedade,
por capacidade financeira própria, financiam a educação
de seus jovens em escolas privadas, com melhores condições
de vencer o filtro competitivo do vestibular.
Nas universidades públicas, recebem gratuitamente
educação superior de qualidade, enquanto os pobres
são obrigados a pagar caro em instituições
privadas.
Essa análise oculta dois equívocos e uma falácia.
O primeiro equívoco refere-se ao conceito
de gratuidade, como se pudesse existir alguma atividade, realizada
com eficiência, sem custos estruturais e operacionais.
A universidade pública, dada sua missão
social de excelência acadêmica, é cara e longe
está de ser gratuita. É, de fato, pré-paga
pelo orçamento público, constituído por impostos,
taxas e também por contribuições sociais.
O segundo equívoco é achar que,
"por capacidade financeira própria", as classes
abonadas preparam seus jovens para ter acesso à universidade
pública.
Isso não é verdade. No Brasil,
importante parcela das despesas educacionais retorna às famílias
com maior nível de renda sob a forma de descontos e restituição
de impostos; dessa forma, enorme (mas oculta) renúncia fiscal
subsidia a educação privada de seus filhos, o que
lhes facilita predominar na educação superior pública.
A falácia encontra-se na premissa de que
o Estado é sustentado por toda a sociedade, igualmente.
A estrutura tributária brasileira é,
em si, importante fator de desigualdade social.
Proporcionalmente à renda, os pobres contribuem
para custear a máquina estatal, em todos os níveis
e setores de governo, mais do que contribuintes de melhor situação
econômica.
Dados do Ipea revelam que os mais pobres pagam
49 % de sua renda em impostos, enquanto os mais ricos contribuem
com apenas 26 % da sua receita.
Ciclo vicioso, tripla perversão social.
A maioria pobre não só financia a educação
superior mas também subsidia a educação básica
privada da minoria social privilegiada, que, não fossem as
ações afirmativas, ocuparia a maior parte das vagas
públicas.
Do ponto de vista da reprodução
social, a formação daqueles oriundos da classe social
detentora de poder político e econômico se dá,
nas universidades públicas, em carreiras de maior retorno
financeiro e prestígio social.
Por analogia ao conceito de mais-valia, a ideia
de mais-perversão pode ser útil para entender e ajudar
a superar a iniquidade social que tanto nos envergonha.
O estancamento da renúncia fiscal de despesas
escolares contribuirá para resgatar a dívida social
da educação, entrave ao desenvolvimento econômico
e humano de nosso país.
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