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Matéria publicada na Revista JT, de 27/06/10

Professores em intimidação

 

"O Bullying enfraquece a mente, o coração, o corpo e o espírito"

Allan L. Beane, especialista em
prevenção e repressão ao bullying

Pais, escola e professores devem se unir para identificar e ajudar os alunos com distúrbios, como a hiperatividade.

Na semana passada uma professora de uma escola de Brasília foi presa acusada de amarrar e amordaçar um estudante hiperativo de 5 anos para "acalmá-lo".

Em março, um caso semelhante ocorreu em Curitiba, mas não ganhou as páginas dos jornais. Um garoto adotado de 6 anos foi diagnosticado como hiperativo aos 12 e por isso ele se cansa de ficar em sala de aula durante muito tempo. Na ocasião, começou à dizer a mãe que não queria mais ir para a escola. Quando ele conseguia convencê-lo, o menino chegava atrasado. Um dia a professora levou para a direção devido ao atraso. Ameaçaram chamar o Conselho Tutelar e disseram que eles iriam tirá-lo da mãe dele. Ele ficou apavorado com a iminente ameaça.

"Meu filho foi adotado aos 6 anos, antes disso, viveu em abrigos, sabe muito bem como funciona o Conselho Tutelar. Foi uma ameaça muito pesada", conta a mãe.
Depois de sofrer bullying (intimidação em inglês), o aluno se reusou a voltar à escola. Hoje ele estuda em outra instituição e recebe assistência psicológica.

Ambas histórias retratam um novo tipo de bullying, o dos professores em relação aos estudantes "problemáticos", que sofrem de algum tipo de distúrbio. "O aluno com hiperatividade, por exemplo, é colocado dentro da sala de aula, começa a tumultuar e o professor não sabe como lidar. Ele não está capacitado para conduzir essa situação e acaba entrando numa competição para medir forças", explica a psicopedagoga e presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Quézia Bombonatto.

Segundo ela, tanto o aluno quanto o professor são vítimas dessa situação. "Na escola pública o aluno não valoriza o professor. Chegamos ao ponto de que é necessário, muitas vezes, ter a interferência mesmo do Conselho Tutelar e da Ronda (polícia escolar). "

O psiquiatra Bruno Mendonça Coêlho afirma que muitos professores têm dificuldade em identificar crianças com distúrbios e isso acontece, principalmente, pelo excesso de alunos em sala de aula e pela falta de formação do professor.

" Além da dificuldade em identificar uma criança com problema, existe o preconceito dos próprios pais, que se negam a aceitar que seu filho tem uma doença", explica Coêlho.
E os casos não são poucos . Segundo o psiquiatra, cerca de 40% das crianças que buscam tratamento são diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). "A dica é ficar atento a qualquer mudança no comportamento das crianças, o que pode indicar que existe algum problema".

A professora Maria Lúcia Pinto Benites Chaves ministra aulas em uma escola municipal de Pompeia, interior de São Paulo, e sabe muito bem o que é viver essa situação. "Tenho um aluno de 8 anos de idade hiperativo e extremamente agressivo. Ele agride verbalmente tanto eu côo os colegas. Fico de mãos atadas, sem saber o que fazer. Não estamos preparados para lidar com uma situação como essa", conta Maria Lúcia.

A professora afirma que nunca revidou as grosserias do aluno e que sempre tenta tratá-lo com carinho, o que não adianta, já que ele não permite a aproximação. "O ideal seria desenvolver um trabalho individual com essa criança. Gostaria muito de poder voltar a estudar e saber lidar com essa situação, mas por falta de recursos financeiros, isso não é possível", fala Maria Lúcia.

Medidas Simples

Em meio a esse turbilhão de emoções vividas por alunos e professores, medidas simples podem ajudar a resolver a situação durante as aulas.

A psicóloga Rafaela Gualdi explica que a participação dos pais é fundamental. "Eles devem estimular a criança a contar como foi o seu dia na escola e buscar serem parceiros da instituição". Para ela, o papel do professor também é de extrema importância, já que é ele quem passa boa parte do tempo com a criança. "Ele precisa estudar buscar estreitar os laços com o aluno e respeitá-lo para ser respeitado, sempre com muito carinho", diz.

O norte-americano especialista em prevenção e repressão ao bullying. Allan L. Beane concorda com a psicóloga. "Professores e todos os funcionários das escolas devem se basear na seguinte regra de ouro: tratem os outros da maneira como gostariam de ser tratados."

Sintomas das Vítimas

> Mudança repentina na vontade na vontade de ir para a escola.

> Mudança repentina nas notas (ficam mais baixas).

> Perda de interesse em atividades realizadas pelo professor.

> Ferimentos físicos inexplicáveis, como coceiras e machucados

> Dores de cabeça e estômago frequentes

> Perda de apetite

> Pesadelos

> Mudança repentina no humor (tristeza, depressão , raiva, ansiedade, etc)

> Perda de autoestima e autoconfiança

> Prática de bullying com outras pessoas.

Dicas para os Professores

> Diminua as distrações, colocando a carteira da criança próxima à sua mesa em um lugar mais calmo.

> Siga uma rotina estrita e estabeleça intervalos entre pequenos momentos de trabalho.

> Monte um esquema com itens das tarefas que devem ser cumpridas pelo aluno. Isso ajudará a mantê-lo focado.

> Frequentemente, peça ao aluno que repita as instruções oralmente

> Ajuste sua expectativa em relação ao aluno com a real possibilidade dele cumprir as tarefas. Muitas vezes, crianças com TDAH não podem cumprir a mesma quantidade e trabalho que os demais.

> Concentre-se em lidar apenas com problemas comportamentais sérios para que o aluno não se sinta oprimido

> Monte um esquema com boas maneiras e o relembre sempre sobre manter um bom comportamento.