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Matéria publicada na
Revista Veja, Edição 2170 / 13 de junho de 2010
Aula
cronometrada
Com um método já
aplicado em países de bom ensino, o Brasil começa
a investigar o dia a dia nas escolas
As avaliações
oficiais para medir o nível do ensino no Brasil têm
se prestado bem ao propósito de lançar luz sobre os
grandes problemas da educação mas não
fornecem resposta a uma questão básica, que se faz
necessária diante da sucessão de resultados tão
ruins: por que, afinal, as aulas não funcionam? Muito já
se fala disso com base em impressões e teoria, mas só
agora o dia a dia de escolas brasileiras começa a ser descortinado
por meio de um rigoroso método científico, tal como
ocorre em países de melhor ensino. Munidos de cronômetros,
os especialistas se plantam no fundo da sala não apenas para
observar, mas também para registrar, sistematicamente, como
o tempo de aula é despendido. Tais profissionais, em geral
das próprias redes de ensino, já percorreram 400 escolas
públicas no país, entre Minas Gerais, Pernambuco e
Rio de Janeiro. Em Minas, primeiro estado a adotar o método,
em 2009, os cronômetros expuseram um fato espantoso: com aulas
monótonas baseadas na velha lousa, um terço do tempo
se esvai com a indisciplina e a desatenção dos alunos.
Equivale a 56 dias inteiros perdidos num só ano letivo.
Já está
provado que a investigação contínua sobre o
que acontece na sala de aula guarda relação direta
com o progresso acadêmico. Ocorre, antes de tudo, porque tal
acompanhamento permite mapear as boas práticas, nas quais
os professores devem se mirar e ainda escancara os problemas
sob uma ótica bastante realista. Resume a especialista Maria
Helena Guimarães: "Monitorar a sala de aula é
um avanço, à medida que ajuda a entender, na minúcia,
as razões para a ineficácia". Não é
de hoje que países da OCDE (organização que
reúne os mais ricos) investem nessas incursões à
escola. Os americanos chegam a filmar as aulas. O material é
até submetido aos professores, que são confrontados
com suas falhas e insucessos. Das visitas que fez a escolas nos
Estados Unidos, o pedagogo Doug Lemov depreendeu algo que a breve
experiência brasileira já sinaliza: "Os professores
perdem tempo demais com assuntos irrelevantes e se revelam incapazes
de atrair a atenção de alunos repletos de estímulos
e inseridos na era digital".
Numa manifestação
de flagrante corporativismo, os professores brasileiros chegaram
a se insurgir contra a presença dos avaliadores dentro da
sala de aula. Em Pernambuco, o sindicato rotulou a prática
de "patrulhamento" e "repressão". Note-se
que são os próprios professores que preferem passar
ao largo daquilo que a experiência e agora as pesquisas
prova ser crucial: conhecer a fundo a sala de aula. Treinados
pelo Banco Mundial, os técnicos já se puseram a colher
informações valiosas. Afirma a secretária de
educação do Rio de Janeiro, Claudia Costin: "Pode-se
dizer que o cruzamento das avaliações oficiais com
um panorama tão detalhado da sala de aula revelará
nossas fragilidades como nunca antes". Nesse sentido, os cronômetros
são um necessário passo para o Brasil deixar a zona
do mau ensino.
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