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Revista Veja SP »Ano 2010 »Edição
2168
Os enigmas da adição
Lya Luft
"Qualquer adição a drogas,
para ser superada, exige
um esforço sobre-humano, às vezes pelo resto da vida"
Já escrevi sobre esse assunto. Escreverei
mais vezes. Observadores, vítimas ou especialistas nesse
humano drama, rodeiam na ponta dos pés o enigma de tanto
sofrimento. Os viciados em qualquer droga (incluo aí a droga
lícita chamada álcool), suas famílias, testemunhas
da dor e decadência de pessoas amadas, as vítimas de
violência no trânsito ou em casa, todos são matéria
de reflexão e perplexidade. Livros, seminários, teses
e teorias em abundância são elaborados em cima da primeira
pergunta: por que nos drogamos? E a outra grande indagação:
como nos salvamos se nos salvamos e por que isso é
tão difícil?
Nem para uma questão nem para a outra
há muita explicação ou lógica. Não
é errado dizer que nos drogamos para anestesiar angústia,
tristeza e frustração; por onipotência juvenil,
do tipo "eu sei me cuidar"; por achar que ficamos mais
fortes, mais falantes, mais interessantes. A droga cega para os
fatos reais, pois bêbados ou impregnados de outra substância
somos importunos, chatos, patéticos. Mas não é
só isso: existe um componente imponderável, que chamo
voz do vórtice sombrio embaixo dessa escada da vida que tantas
vezes subimos pelo lado que desce ele chama para a autodestruição
sem freios. A razão de qualquer vício não está
na superfície, não é visível. Muitas
vezes mesmo para o mais dedicado terapeuta permanece um enigma,
que nem o viciado entende.
Uma vez instalada a adição, o amor da família
ou pela família, a ruína financeira, vergonha ou isolamento,
pouco adiantam: foi-se o instinto de sobrevivência, último
a nos abandonar. Algumas drogas, como o crack (objeto de excelentes
campanhas), viciam quase imediatamente. Outras, como o álcool,
gozam de criminosa tolerância numa cultura que acha graça
dos seus efeitos, ignora seus males e considera natural a propaganda
de bebidas, às vezes ligada a esporte ou esportistas. Drogas
sintéticas, agora em voga, poriam fim ao poder do traficante,
o que não creio. Somos uma geração medicada:
remédio para animar, para acalmar, para transar, para sofrer
menos, para não sofrer. Para não pensar, talvez: observem
mulheres de qualquer classe e idade com aquele típico olhar
vazio da "medicada".
Há quem veja no inocente ritual familiar
uma das raízes da tragédia: todo mundo bebe, todo
mundo brinda; vinho com água para crianças, champanhe
na chupeta do que acaba de ser batizado. Não é tão
simples assim. Para os mais ignorantes, o primeiro porre na adolescência
é um passo iniciático; um pai divide o cigarrinho
de maconha com o filho, achando-se liberal; a mãe finge ignorar
os olhos injetados, o fracasso na escola. Nem todos entendem que
adição, seja de que substância for, não
é falta de vergonha ou caráter: é doença
grave e sem cura, embora passível de controle. Isso provoca
hostilidade, incompreensão e afastamento na família.
Além do mais, a maioria dos que bebem ou usam drogas (exceto
o crack, que cria dependência quase de imediato) não
se vicia, o que torna a questão mais complexa ainda: por
que uns sim e outros não?
E como nos salvamos? Qualquer adição,
para ser superada, exige um esforço sobre-humano, às
vezes pelo resto da existência. A família nem sempre
consegue ajudar: o viciado torna-se um estranho, os envolvidos se
afastam. Grupos de alcoólicos anônimos e outros são
os mais bem-sucedidos, acompanhados de remédios, terapias,
quando necessário um período de internação.
O medo da morte pode despertar (nem sempre) para a crua realidade;
algum novo relacionamento serve de alavanca, se deixar claro: com
vício, nada feito.
Os casos de vitória sobre a adição
são heroicos; inspiram respeito e admiração;
provam que a vida pode superar a morte. Nessa tumultuada arena,
a vontade de sair do inferno, o arcaico desejo de sobrevivência,
de significado, respeito e reconstrução, às
vezes vencem. Ilumina-se o que parecia uma noite definitiva: alguém
com alguma ajuda conseguiu abrir a pesada porta para fora dessa
prisão, sinal de que outros podem fazer o mesmo.
Lya Luft é escritora
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