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Revista Veja SP »Ano 2010 »Edição
2169
O judeu
de Bethesda
Claudio de Moura Castro
"Se livro fosse cultura, os cupins seriam
os seres
mais cultos do globo. Só livro lido é cultura"
Último dia de aula na escola Walt Whitman.
Situada em Bethesda, um bairro intelectualmente sofisticado da região
de Washington (DC), é uma das melhores dos Estados Unidos.
O pimpolho volta para casa. Poderia estar sonhando com três
meses de vadiagem, longe dos livros. Mas o sonho duraria pouco.
Ao fim da tarde, chega o pai judeu, carregando uma sacola de livros
recém-comprados. Chama o filho, esparrama os livros na mesa
da sala e começa a montar o cronograma de leituras, incluindo
a cobrança periódica do que terá sido lido.
Ignoro quantos pais judeus passaram também nas livrarias.
Mas imagino que não foram poucos.
Ler livros, glorificar livros, eis uma tradição
judaica milenar. Vem de longe e não se buscam muitas explicações
científicas para ela. Não obstante, Karl Alexander,
da Universidade Johns Hopkins, somando aos 39 estudos sobre o assunto,
completou uma pesquisa com alunos do ensino fundamental. Concluiu
que, das vantagens acadêmicas acumuladas pelos alunos mais
ricos até a 9ª série, dois terços advêm
de atividades de leitura mais intensas durante as férias.
Segundo a Secretaria de Educação americana, as perdas
dos mais pobres nas férias são "devastadoras".
Um pai judeu provavelmente diria: ora bolas, é o que sempre
pensei. Mas, para a maioria das pessoas, os resultados são
surpreendentes. Em matemática, foi possível comprovar
que, durante as férias, os alunos esqueceram o equivalente
a 2,6 meses de aula. Em outras palavras, somente 2,6 meses depois
de recomeçarem as aulas os alunos atingem o nível
de competência que tinham no último dia de aula da
série anterior. Ou seja, férias são um horror
para o aprendizado.
Trata-se de resultados valiosos para países
que lutam bravamente para melhorar seu claudicante ensino. É
simples, se for possível estancar a sangria do "desaprendizado"
que põe a perder 2,6 meses de estudos , os ganhos
serão enormes. Da ordem de 25%? Que outras intervenções
seriam tão poderosas?
Tais ideias abrem caminho para muitas linhas
de atividade. Pais interessados e comprometidos com a educação
dos seus filhos podem fazer o mesmo que os judeus de Bethesda. Mas,
vamos nos lembrar, se livro fosse cultura, os cupins seriam os seres
mais cultos do globo. Só livro lido é cultura. Portanto,
cobranças sem dó nem piedade. Mas seria só
empurrar livros e mais livros goela abaixo dos filhos? Jamais! É
preciso desenvolver o prazer da leitura, e o bom exemplo é
essencial. À força, pode sair o tiro pela culatra.
Que livros? Não adianta comprar Hegel, Spinoza ou Camões,
se as leituras favoritas ainda não passaram muito da Turma
da Mônica. É fracasso garantido. Os livros devem andar
muito próximo do interesse e da capacidade de compreensão
dos leitores, sempre puxando um pouco para cima.
Desviando parcialmente do assunto, quero sugerir
aos pais que façam manifestações, que acampem
em frente à casa dos prefeitos, até que se mude uma
situação vergonhosa. Uma pesquisa recente com as bibliotecas
públicas brasileiras pôs a descoberto que (além
de fecharem às 6 da tarde) apenas 20% delas abrem aos sábados
e só 1% aos domingos. Como é possível que,
nas horas e dias de folga das escolas, as bibliotecas permaneçam
fechadas? No caso das leituras de férias, são os únicos
dias em que muitos pais poderiam ir à biblioteca para escolher
livros com os filhos.
Para aqueles que cuidam da educação
como ofício, as implicações da pesquisa da
Johns Hopkins não são menos revolucionárias.
Mostram ser preciso fazer alguma coisa, somente para conseguir não
andar para trás nas férias. Por exemplo, programas
públicos de leitura. Não são programas caros
nem complicados, basta criar monitorias para garantir que as leituras
sejam feitas.
Em um nível mais ambicioso, sobretudo
para alunos mais vulneráveis, poderiam ser criados cursos
de férias. Não se trata de fazer a mesma coisa que
no período letivo, pois seria repetir um ensino aborrecido
e pouco produtivo. Precisamos de projetos intelectualmente desafiadores,
atividades que estimulem os miolos, jogos e muitas outras coisas.
O que precisa ser aprendido não é muito diferente,
mas viria vestido com roupas mais alegres. E, como sabemos que cabeça
vazia é oficina do diabo, essas atividades podem até
mesmo ter outras consequências benéficas, por evitar
rumos pouco recomendáveis em que se deságuam as amplas
energias desses jovens.
Claudio de Moura Castro é economista
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