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Matéria Publicada no
jornal Folha de São Paulo, de 6 de junho de 2010.
Vida de número 1
Folha obteve a lista dos 48
alunos mais bem colocados em cada um dos cursos avaliados pelo Enade
em 2007 e 2008; a maioria não estuda apenas nas vésperas
das provas e é apaixonada por seus cursos
ANGELA PINHO
DE BRASÍLIA
André, 26, é frei
franciscano em Petrópolis (RJ). Pedro, 30, vive em uma chácara
nos arredores de Brasília, onde sua família cultiva
maracujá.
Vivian, 27, morava em uma favela no Rio, de onde saiu graças
a bolsas que ganhou durante a faculdade.
Com perfis bem distintos do típico aluno aplicado de classe
média, os três ficaram em primeiro lugar nos seus respectivos
cursos no Enade, o exame do Ministério da Educação
que é dirigido aos universitários.
A Folha obteve a lista dos 48 estudantes mais bem colocados em cada
um dos cursos avaliados em 2007 e 2008 -os resultados de 2009 ainda
não saíram. Eles serão contemplados com bolsas
do governo caso queiram fazer pós-graduação.
Apesar das características diferentes, seguem uma cartilha
de condutas em comum que os levou ao topo do ranking do Enade: não
estudam somente nas vésperas das provas, tiram as dúvidas
durante as próprias aulas e, principalmente, são apaixonados
por seus cursos. O sucesso na universidade, no entanto, nem sempre
se repetiu durante a escola.
Frei André teve que deixar o jardim de infância porque
a professora dizia que ele era tímido demais para conviver
com os colegas. Quando voltou à escola, quase repetiu a primeira
série. Mudou de cidade cinco vezes durante a infância
e a adolescência. A cada colégio, conteúdos
nunca vistos anteriormente.
Para André, a timidez o ajudou a obter o primeiro lugar entre
os estudantes de filosofia em 2008. "Quem não se dá
bem em algumas dimensões da vida social acaba se aplicando
mais a outras, e eu me apliquei mais aos estudos", diz ele,
que estudou no Centro Universitário Franciscano do Paraná.
QUALIDADE
Dois terços dos primeiros colocados no exame estudaram em
universidades públicas. Entre os demais, a lista traz egressos
de instituições particulares tradicionais, como a
PUC do RJ e de SP. Há, no entanto, exceções.
Melhor aluna de Letras do país, Paula Carnasciali, 35, estudou
na Faculdade Anhanguera de Osasco, instituição que
tem nota 2 no IGC (Índice Geral de Cursos) do Ministério
da Educação.
Seu método de estudos era a dedicação total.
Ia a todos os cursos extras e atividades extracurriculares oferecidas
pela faculdade e conversava muito com os professores, que ela achou
muito bons.
Luana Guedes, 25, também acredita que sua participação
em atividades voluntárias, para atender pacientes, a ajudou
a obter o primeiro lugar em fisioterapia. Mas isso não se
refletiu num bom emprego na área.
Após se formar, ficou um ano desempregada. Prestou concurso
público e hoje ocupa um cargo administrativo no Ministério
da Saúde cuja única exigência é o ensino
médio completo. "A não ser que consiga um emprego
público na área, não pretendo trabalhar com
fisioterapia."
Já para Vivian dos Santos Teixeira, 27, a universidade foi
fundamental para melhorar de vida. Ao cursar enfermagem na UFRJ
e ter acesso a bolsas de pesquisa, passou a ajudar a família,
o que permitiu que ela e mãe saíssem da favela Nossa
Senhora das Graças, na Ilha do Governador, zona norte do
Rio.
Colaborou ITALO NOGUEIRA, do
Rio
Veja
a lista dos 48 melhores no Enade
PEDRO NAVES, BIOLOGIA
Na UnB (Universidade de Brasília), Pedro Henrique Coelho
Naves, 25, nunca deixava para estudar só na véspera
das provas. Mas, para ele, isso não era nenhum sacrifício.
"Estudava porque eu gostava, para entender, não para
passar", diz ele, primeiro colocado em biologia.
Ex-aluno de um dos melhores colégios de Brasília,
vai disputar o concurso de perito da Polícia Federal.
EDILMA MENDES, ALIMENTOS
Edilma Mendes Venancio veio da Paraíba para Mauá (ABC)
aos nove meses de idade. Sempre estudou em escola pública
e, após o ensino médio, foi trabalhar como operadora
de caixa.
Juntou dinheiro por dois anos e meio, estudou por conta própria
e passou no curso de Tecnologia em Alimentos na Faculdade de Tecnologia
Termomecânica, em São Bernardo.
TIAGO ÁVILA, HISTÓRIA
Melhor colocado no Enade do curso de história, Tiago Bacellar
Ávila, 25, formou-se pela UFMG e agora voltou ao colégio
Magnum Agostiniano, em Belo Horizonte -dessa vez como professor.
Foi lá que estudou por 13 anos.
Até concluir a licenciatura, nunca tinha trabalhado. Sua
meta agora é o mestrado. "Estou muito feliz, apesar
da falta de reconhecimento social do professor."
VIVIAN TEIXEIRA, ENFERMAGEM
Ao cursar enfermagem na UFRJ, Vivian dos Santos Teixeira, 27, e
ter acesso a bolsas de pesquisa, ela e a mãe conseguiram
sair da favela Nossa Senhora das Graças, na Ilha do Governador,
no Rio.
O curso de enfermagem, que só entrou após pagar um
curso de pré-vestibular, foi só o começo. Já
concluiu especialização em saúde mental e agora
trabalha num Centro de Atenção Psicossocial.
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