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Matéria Publicada no jornal Folha de São
Paulo, de 6 de junho de 2010.
DANUZA LEÃO
Sexo e batina
Padres precisam casar; não
é justo deixá-los passar a vida em abstinência.
Mas como seria para um padre começar?
PEDOFILIA, um crime abominável. Será
que há mais pedófilos agora do que em outros tempos?
Claro que não. Desde que o mundo é mundo, tios seduzem
sobrinhas, pais seduzem suas próprias filhas e sempre existiram
casos escabrosos no seio da Santa Madre Igreja, só que dessas
coisas não se falava.
Quem nunca ouviu contar que numa cidadezinha perdida uma adolescente
teve um filho do seu próprio pai? Uma criança que
passa por esse tipo de abuso não entende o que está
acontecendo, e se entendesse e contasse para a mãe, provavelmente
seria chamada de mentirosa.
E contar o quê? Que aquele homem tão respeitado tinha
segurado ela no colo e acariciado suas perninhas, de maneira exatamente
igual -para ela- à sua própria mãe, sua própria
avó?
Pedofilia, para acontecer, costuma ter a ver com poder. Diante de
uma criança, o poder de um pai, de um médico, de um
adulto conhecido, é imenso; imagina o de um padre. O que
é dito num confessionário pode ser muito erótico,
sobretudo se o padre puxar pela língua da criança.
Mas uma coisa sempre me intrigou: nunca se ouve falar em crime de
pedofilia praticado por mulher.
Há alguns anos houve um episódio nos EUA de uma professora
que, acusada de manter relações com aluno de 16 anos,
foi julgada e condenada. Quando saiu da prisão, ele já
era maior de idade; foram morar juntos, tiveram um filho, e só
não sei se foram felizes para sempre. Mas sinceramente: achar
que um garotão de 16 anos foi seduzido por uma mulher de
28 é apenas ridículo.
Pelo que os fatos têm demonstrado, a pedofilia é doença,
e doença incurável. Não adianta achar que a
solução é ser tratado por psicólogos.
É totalmente irreal imaginar que em um país como o
nosso, onde as prisões são jaulas tenebrosas e superpopulosas,
um pedófilo vai ser "tratado" e se curar; tanto
quanto é delírio pensar em monitorar os presos que
saem para passar o Natal com a família, fazendo com que eles
usem a pulseirinha que permite o seu rastreamento. Prepare-se: a
licitação seria dispensada, as pulseirinhas custariam
uma fortuna e pouco tempo depois estariam à venda nos camelôs
da cidade, com o manual de instruções ensinando a
como driblar a polícia.
Os padres têm sido muito acusados de pedofilia, ultimamente,
mas pense um pouco: jogar num seminário um garoto de 16,
17 anos, com os hormônios explodindo, e pretender que ele
se mantenha casto para o resto da vida -não, isso não
pode dar certo. É contra a natureza, e como é mais
difícil para os padres seduzir mulheres, já que não
convivem com elas, acaba sobrando para os garotos. Um belo dia,
muito tempo depois, um deles resolve contar o que aconteceu na penumbra
de uma sacristia e vira um escândalo. E os casos de que nunca
vamos saber, que devem ser milhares?
Os padres precisam casar; não é justo deixá-los
passar a vida em abstinência. Mas como seria para um padre
começar um namoro? Convida para um chopinho, leva a garota
para dançar? E motel depois, pode?
Eu conheço uma moça que namorou um padre; tudo começou
por telefone, e ela gostou tanto, mas tanto, que dizia, para quem
quisesse ouvir, que nada como um padre que tivesse guardado a castidade
durante anos para acalmar as tensões, digamos assim, de uma
mulher solitária.
A única coisa que ela não me disse (e eu esqueci de
perguntar) é se ele usava batina.
danuza.leao@uol.com.br
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