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Matéria Publicada
no jornal Folha de São Paulo, de 1° de junho de 2010.
Outros maus-tratos
ROSELY SAYÃO
roselysayao@uol.com.br
A PROCURADORA
aposentada Vera Lucia Gomes, acusada de maltratar severamente uma
criança de dois anos que pretendia adotar, já foi
condenada por todos nós.
Quem é
que não culpa um adulto que humilha, impõe castigos
físicos torturantes, destrata e agride uma criança
indefesa? Por isso, nos permitimos dar à procuradora adjetivos
como louca, bruxa, psicopata.
Em entrevistas, a acusada reconheceu
que exagerou algumas vezes no tratamento dado à garota, mas
por um bom motivo: dar educação a ela. E Vera Lucia
fez mais. Declarou que agiu mal porque perdeu a paciência
com uma impertinência da menina, como acontece com quase todas
as mães quando estas ficam nervosas, irritadas ou estão
num mau dia.
Essa declaração
da acusada revela um incômodo: por trás da tragédia
que ela protagoniza se escondem milhares de dramas cotidianos vividos
por crianças de todas as idades, inclusive por aquelas que
vivem em famílias de classe média.
Decidimos colocar as crianças
sob intensa pressão: elas precisam aprender a se comportar
assim que os pais ensinam, elas precisam gostar de estudar e ter
êxito na escola, elas devem aproveitar bem o que os pais lhe
oferecem e demonstrar gratidão por isso e, principalmente,
corresponder à expectativa de sua família.
Mas criança não
aprende de primeira e, mesmo depois que aprende algo, irá
transgredir e desafiar; criança gosta mesmo é de brincar,
e não de estudar; criança acha que os pais têm
obrigação de lhe dar tudo o que ela quer; criança
não tem autocontrole e gosta de experimentar.
Num mundo em que a infância
está desaparecendo e em que os adultos teimam em parecer
juvenis, é quase uma impertinência a criança
se comportar como tal, dar trabalho, exigir paciência e persistência
dos adultos que a educam.
E é por essa razão
que, todos os dias, muitas crianças sofrem: apenas porque
são crianças e os adultos se impacientam com isso.
Hoje, alguns comportamentos delas
são considerados síndromes, doenças, desajustes
que exigem cuidados especializados e medicação.
Há muitas maneiras de se
maltratar uma criança. Uma delas é não suportar
que ela se comporte como criança.
PARA LER
Como Amar uma Criança
Janusz Korczak
EDITORA Paz e Terra
QUANTO R$ 59, em média
Vale a leitura do livro de Janusz Korczak, que compreendeu de verdade
a criança e buscou maneiras dignas de educá-la.
ROSELY SAYÃO é psicóloga
e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)
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