|
Matéria
publicada no jornal Folha de São Paulo, de 06/05/10
Cozinha
para desfrutar
ROSELY
SAYÃO
Conversei com um garoto
de seis anos e ele me contou que, quando o pai cozinha, ele vai
jantar e dormir na casa da avó -o que, por sinal, ele disse
adorar. Perguntei se ele não gosta da comida que o pai prepara
e ele respondeu que é sempre uma "comida muito estranha".
Na casa da avó ele gosta de jantar arroz, feijão,
picadinho e salada.
A arte culinária -ou gastronomia-
está mesmo na moda. Homens e mulheres têm se dedicado
a comprar livros e pesquisar receitas, conhecer ingredientes novos
e locais onde se vendem produtos de qualidade, comprar utensílios
dos mais variados tipos -que vão do sofisticado ao antigo
com novo desenho etc.
Até as escolas têm
usado a cozinha como laboratório de ensino para as crianças.
Há quem nunca tenha se
interessado pela cozinha e agora se deleita com essa nova descoberta.
Jantar em restaurantes de chefs aclamados, assistir a programas
de televisão com esse tema, frequentar sites e blogs que
exploram o universo da gastronomia e promover jantares em casa para
os amigos têm sido bons programas para essas pessoas.
A cozinha e a sala de jantar transformaram-se,
para muita gente, em locais de jogo de adulto, e nem sempre as crianças
desfrutam dessa brincadeira de gente grande.
Sim: o jogo é importante
na vida de todos, mas, num mundo em que as crianças foram
invadidas pelo mundo adulto, parece que esse espaço lúdico
ficou reservado aos adultos.
Cozinhar é um ato generoso
e de amor. O primeiro contato da criança com esse mundo dá-se
por meio da alimentação: é pela amamentação
que o bebê estreita seu vínculo com sua mãe,
aconchega-se a ela, sente seu cheiro, o calor de seu corpo e se
acalma.
Entretanto, num mundo em que a
oferta de alimentos industrializados é intensa e sedutora,
logo as crianças são apresentadas às guloseimas
vendidas e muitas famílias passam a acreditar que é
disso que elas mais gostam.
Uma pesquisa recente, realizada
com famílias de todas as classes sociais, apontou que bebês
a partir de quatro meses já comem bolachas, massas congeladas
etc.
Nas escolas, podemos constatar
esse costume pelo conteúdo das lancheiras das crianças
pequenas: salgadinhos, biscoitos recheados, bolos e sucos industrializados
ganham longe dos lanches feitos em casa. E vale dizer que, além
de as crianças gostarem, a praticidade de montar um lanche
desse tipo conta muito para as mães.
O interessante é que é
justamente na cozinha e na sala de jantar, de onde muitas crianças
foram banidas, que elas poderiam conhecer, na prática, as
tradições, as histórias e a cultura de sua
família, experimentar o sentimento de pertencer a um grupo,
ser alimentada com amor, atualizar os afetos familiares e perceber
o quanto o mundo é vasto e diverso.
Mas, em vez disso, ficam sabendo
das mazelas do mundo adulto enquanto comem as mesmas coisas de sempre
em frente à televisão.
O estilo de vida urbano parece
impedir a reunião familiar, incluindo as crianças,
nos horários de alimentação. Mesmo assim, é
possível fazer isso acontecer com regularidade. Para tanto,
insisto, é preciso encarar o ato de comer como um fato social
acima de tudo.
Os pais, hoje principalmente as
mães, usam e abusam da frase "eu te amo" com os
filhos.
Talvez isso seja necessário porque faltem atos que expressem
esse amor, entre eles o de cozinhar amorosamente para eles e o de
desfrutarem juntos do resultado obtido.
INDICAÇÃO
Além de ser um bom filme, "O Tempero da Vida" mostra
como é possível ensinar uma criança a respeito
da vida por meio dos alimentos.
O Tempero
da Vida
Diretor: Tassos Boulmetis
Classificação indicativa: livre
|