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Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo, de 22/04/09 Bruxas, monstros e morte ROSELY SAYÃO A mãe de uma garotinha de quase quatro anos escreveu
para contar que estava considerando a possibilidade de tirar a filha da
escola. O motivo? A professora conta histórias para as crianças
que tratam de morte, falam de monstros, bruxas e de todo tipo de ser imaginário.
Para essa mãe, isso gera medo e angústia na filha e, por
isso, ela tem pesadelos frequentes. Como nossa leitora não está
sozinha nesse tipo de pensamento, vamos conversar a respeito. Temos feito de tudo para evitar que a criança sofra,
não é? Ou, pelo menos, tentamos evitar que elas tenham contato
com tudo o que julgamos que pode gerar dor, ansiedade, angústia
e outros sentimentos semelhantes. O tema emblemático nesse sentido
é a morte. Escondemos a morte das crianças: esse não
é mais um tema de conversa entre pais e filhos, elas não
mais participam de velórios e funerais, evitamos que assistam a
filmes ou ouçam histórias que trazem a ideia de morte à
tona. Conheço uma mãe de duas crianças pequenas
que assiste a cada filme infantil antes de seus filhos para averiguar
se não há cenas que assustam ou trazem a presença
da morte. Ela não deixou os filhos assistirem à animação
"Procurando Nemo" porque a mãe do peixinho morre e ela
não achou adequado que as crianças fizessem perguntas sobre
isso. Consideramos esse assunto muito pesado para elas e, por isso, procuramos
poupá-las dele, como se isso fosse possível. É preciso
saber que não é. Não são as histórias com seus enredos
e personagens que criam para a criança conflitos, medos e angústias
e tampouco apresentam a ela o tema da morte. Essas são questões
humanas e, ao contrário do que alguns pensam, os personagens fantásticos
e as tramas dessas histórias ajudam a criança a encontrar
caminhos para entender e superar, pelo menos temporariamente, o que sente. A atitude chamada "politicamente correta" de
transformar histórias e lendas infantis de modo a subtrair delas
o que consideramos que possa fazer mal à criança ou sugerir
o que consideramos "maus exemplos" não faz o menor sentido. Será que esquecemos que o que pode fazer mal a elas
é o que está presente na realidade do mundo adulto, agora
totalmente acessível a elas? Não é hipócrita não mais cantar
"Atirei um pau no gato", mas permitir que as crianças
assistam a campeonatos de futebol em que jogadores intencionalmente se
agridem para levar vantagem? Não é curioso evitar que elas
ouçam histórias de bruxas que perseguem crianças,
mas permitir que assistam a noticiários que mencionam assassinatos
e abusos sexuais de crianças? Que as bruxas, os duendes e os monstros, as madrastas malvadas
e as crianças órfãs habitem o imaginário de
nossas crianças é tudo o que podemos desejar. É que
nesse mundo, diferentemente do mundo adulto, elas contam com as fadas
e suas varinhas de condão, com os príncipes que salvam as
princesas do sono eterno e, principalmente, com um final em que o bem
vence o mal. ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora
de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha) blogdaroselysayao.blog.uol.com.br
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