Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo, de 15/04/10

Pelo homem comum

Anna Veronica Mautner

[...] A SAGA DO HOMEM COMUM NÃO ESTÁ NA MODA. A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL CRIOU O MUNDO DOS FAMOSOS

No mundo em que só heróis parecem atrair a atenção dos mortais, rara é a ficção ou mesmo o documentário a focalizar a criatura comum, que vive seu dia a dia.

A senhora Leandro Dupré escrevia mais sobre a vida do que sobre as pessoas. Em seu livro mais famoso, "Éramos Seis", ela relata como se vivia nas casas de duas janelas e uma porta.

Os sonhos eram do tamanho das casas. Os maiores acontecimentos, na ordem, eram: nascimento, casamento, morte e, em seguida, doença, desemprego ou falência.

Alcântara Machado também resvalou pelo homem comum, que não era herói nem da vitória nem da derrota. E tão poucos outros.

Acabo de ler "O Diário de Roswitha" (ed. RiMa), a história de uma mulher que viveu bem no centro da Segunda Guerra Mundial. Roswitha se deslocava, sem ser refugiada.

Afastava-se das zonas de perigo levando seu passado, suas malas e seus filhos. De um abrigo para um castelo, de uma estação de trem para um caminhão, de um desconforto médio para condições muito adversas.
Como não estava sozinha, não se via como heroína. Mulher de um capitão de exército, conhecia e acompanhava o movimento das tropas aliadas e inimigas. Tinha inimigos que eram mais inimigos e, entre os aliados, aliados preferidos. Os russos eram temidos, os americanos, nitidamente aliados preferidos. Com os alemães, só entrava em contato com o bando que também se deslocava.

E ela foi escrevendo seu diário. Quase completamente desadjetivado. As exclamações são próprias dos heróis. Roswitha era uma mulher que foi arrancada de casa.

A novela hoje foca o cotidiano e seus personagens. Mas a figura dos artistas protagonistas contamina a história. É quando o ator engrandece o personagem. Não é a mesma coisa que em "Éramos Seis", em que dona Lola tem a aparência que o leitor quiser lhe atribuir.

Ler Roswitha é entrar em um momento em que o mundo partiu para a caça dos heróis e nele ficou. Tal foi a força do embate entre nazistas e judeus, arianos e não arianos, países do eixo e aliados, que não sobrou lugar para o homem comum que queria ter dinheiro para não soçobrar diante de uma desgraça que pudesse se abater sobre sua família.

A morte do provedor, de um filho, uma falência, um despejo tinham que ser prevenidos. Quem podia ter um plano para se proteger das loucuras dos governantes, assim como hoje não podemos nos proteger da queda de um meteorito?

A saga do homem comum não está na moda. A Segunda Guerra Mundial criou o mundo dos famosos.
Roswitha e dona Lola não eram famosas. Ao ler Roswitha, fiquei chocada com minha alienação. Durante 70 anos, não me ocorreu que, além dos bons e dos maus, existiam os que queriam viver e procurar um canto seguro para passar a noite. Nem eu dei a devida atenção às mulheres alienadas da guerra, à procura de um abrigo tão somente.

ANNA VERONICA MAUTNER , psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Cotidiano nas Entrelinhas" (ed. Ágora)

Decálogo
a ser seguido pelos gestores para a solução dos problemas de infra-estrutura das Escolas Públicas Estaduais


1
Se não houver merendeira na escola,
não será fornecida a merenda;

2
Se não houver pessoa responsável pela Biblioteca, ela permanecerá fechada;

3
Se não houver pessoal de secretaria,
de acordo com o módulo, não haverá entrega de documentos na DE;

4
Se não houver verba para compra
de material e manutenção da sala de informática, o local não será utilizado;

5
Se não houver recursos para reparos e vazamentos no prédio escolar,
não haverá consertos;

6

Se não houver recursos para pintura do prédio, o prédio não será pintado;

7

Se não houver verba para a contratação de contador para as escolas, não haverá prestação de contas à FDE;

8
Se não houver verba suficiente para a contratação de funcionários pela CLT,
o dinheiro será devolvido;

9
Se a mão de obra provisória
não for qualificada, será recusada;

10
Se as festas não tiverem o objetivo de integrar a escola à comunidade, não serão realizadas

A nossa escola é, por previsão constitucional, pública e gratuita. Portanto, ela tem de ser custeada pelos cofres públicos. Todas as omissões do Estado, com relação aos itens acima, deverão ser objetos de ofícios da direção às Diretorias Regionais de Ensino, a fim de isentarem o diretor de eventuais responsabilidades administrativas.
Toda e qualquer ameaça de punição aos diretores associados da Udemo, por tomarem aquelas atitudes, será objeto de defesa jurídica por parte do Sindicato, seguida de denúncia ao Ministério Público e propositura de Ações Civis Públicas contra o Estado, pelo não cumprimento das suas obrigações para com as unidades escolares e pelos prejuízos causados à comunidade escolar.