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Revista
Veja, Edição 2158 / 31 de março de 2010
Entrevista:
Nora Volkow
"Não existe droga segura"
A
diretora do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas afirma que
nem mesmo a maconha nem muito menos a DMT, presente no chá
do Santo Daime, podem ser consideradas inofensivas
A
psiquiatra mexicana Nora Volkow, 54 anos, é uma das mais
importantes pesquisadoras sobre drogas no mundo. Quando, porém,
o assunto são os danos neurobiológicos que essas substâncias
causam, Volkow pode ser considerada a número 1. Foi a psiquiatra
quem primeiro usou a tomografia para comprovar as consequências
do uso de drogas no cérebro e foi também ela quem,
nos anos 80, mostrou que, ao contrário do que se pensava
até então, a cocaína é, sim, capaz de
viciar. Desde 2003 na direção do Instituto Nacional
sobre Abuso de Drogas, nos Estados Unidos, Volkow esteve no Brasil
na semana passada para uma palestra na Universidade Federal de São
Paulo. Dias antes de chegar, falou a VEJA, por telefone, de seu
escritório em Rockville, próximo a Washington.
Há
quinze dias, um cartunista brasileiro e seu filho foram mortos por
um jovem com sintomas de esquizofrenia e que usava constantemente
maconha e dimetiltriptamina (DMT), na forma de um chá conhecido
como Santo Daime. Que efeitos essas drogas têm sobre um cérebro
esquizofrênico?
Portadores
de esquizofrenia têm propensão à paranoia, e
tanto a maconha quanto a DMT (presente no chá do Santo Daime)
agravam esse sintoma, além de aumentar a profundidade e a
frequência das alucinações. Drogas que produzem
psicoses por si próprias, como metanfetamina, maconha e LSD,
podem piorar a doença mental de uma forma abrupta e veloz.
Que efeitos
essas drogas produzem em um cérebro saudável?
Em alguém
que não tenha esquizofrenia, os efeitos relacionados com
a ansiedade e com a paranoia serão, provavelmente, mais moderados.
Não é incomum, porém, que pessoas saudáveis,
mas com suscetibilidade maior a tais substâncias, possam vir
a desenvolver psicoses.
Estudos
conduzidos pela senhora nos anos 80 provaram que a cocaína
tinha, sim, a capacidade de viciar o usuário e de causar
danos permanentes ao cérebro. Até então, ela
era considerada uma droga relativamente "segura". Existe
alguma droga que seja segura no que diz respeito à capacidade
de viciar e de causar danos à saúde?
Não
existe droga segura, a não ser a cafeína. Como ela
é estimulante e produz efeitos farmacológicos nos
receptores de adenosina, é, sim, uma droga. Mas não
há evidências de que vicie nem de que seja tóxica
- a não ser que você tenha problemas cardiovasculares.
Ainda não sabemos se é prejudicial a crianças
e adolescentes, mas para adultos não há nenhum problema.
E a maconha?
Há
quem veja a maconha como uma droga inofensiva. Trata-se de um erro.
Comprovadamente, a maconha tem efeitos bastante danosos. Ela pode
bloquear receptores neurais muito importantes. Estudos feitos em
animais mostraram que, expostos ao componente ativo da maconha,
o tetraidrocanabinol (THC), eles deixam de produzir seus próprios
canabinoides naturais (associados ao controle do apetite, memória
e humor). Isso causa desde aumento da ansiedade até perda
de memória e depressão. Claro que há pessoas
que fumam maconha diariamente por toda a vida sem que sofram consequências
negativas, assim como há quem fume cigarros até os
100 anos de idade e não desenvolva câncer de pulmão.
Mas até agora não temos como saber quem é tolerante
à droga e quem não é. Então, a maconha
é, sim, perigosa.
A senhora
concorda que ela seja a porta de entrada para outras drogas? Se
você olhar os dados, verá que a maior parte dos usuários
de cocaína começou com a maconha. Mas, ao olharmos
os dados de quem fuma maconha, veremos que essas pessoas geralmente
começaram com cigarros ou álcool. Qual seria a verdadeira
droga de entrada, então?
Uma das leituras
sobre essa questão é que, durante a adolescência,
as pessoas bebem e fumam cigarros porque esses produtos estão
disponíveis e são legais e, quando crescem, elas se
tornam propensas a usar drogas mais pesadas. Uma leitura alternativa
é que a exposição à nicotina e ao álcool
na juventude faz com que as pessoas fiquem mais vulneráveis
aos efeitos de outras drogas. Para mim, essa é a hipótese
correta. A exposição precoce às drogas muda
a sensibilidade do sistema de recompensa do cérebro. Como
esse sistema se torna menos sensível, os dependentes químicos
buscam uma compensação nas drogas.
Por que
em geral as pessoas começam a usar drogas na adolescência?
O cérebro
do adolescente é muito menos conectado do que o de um adulto.
Como resultado, os adolescentes não conseguem controlar e
regular a intensidade de suas emoções e desejos da
mesma forma que os mais velhos. Isso faz com que vivam de maneira
mais vigorosa, mas, ao mesmo tempo, assumam riscos maiores, como
experimentar drogas.
O uso de
drogas na adolescência é mais perigoso do que na vida
adulta?
Certamente,
porque o cérebro de um adolescente é mais plástico
e mais sensível aos estímulos externos que vão
moldá-lo. A forma que seu cérebro vai tomar na idade
adulta depende muito dos estímulos que você recebeu
quando criança e adolescente. O risco de desenvolver o vício
também é maior para o adolescente. O motivo é
o mesmo: a plasticidade cerebral nessa fase, que faz com que o jovem
apreenda informações muito mais facilmente do que
o adulto.
Por que
é tão difícil quebrar o ciclo de desejo, compulsão
e perda de controle que o vício traz?
É
difícil porque o cérebro, em consequência do
uso de drogas, é modificado de maneira física. A dependência
química é uma doença cerebral que muda a bioquímica,
a função e a anatomia do cérebro. Ocorre da
seguinte maneira: todas as drogas aumentam a concentração
de dopamina no cérebro. Quando o sistema dopaminérgico
é ativado vez após outra pelo consumo repetido dessas
substâncias, ele sofre modificações, de forma
que passa a não funcionar mais quando a pessoa não
está sob efeito da droga. Com isso, o usuário procura
usar mais drogas - para tentar compensar esse déficit.
O que faz
alguém se viciar em uma droga?
Isso pode
variar de pessoa para pessoa e de acordo com o tipo de droga. Mas,
de modo geral, é preciso que a pessoa seja exposta à
substância repetidamente. Mesmo nessas condições,
nem todos os usuários se viciam. Porém cerca de 10%
deles desenvolvem o vício depois de pouco tempo de uso. Nos
casos em que isso ocorre, o usuário tem uma vulnerabilidade
que pode ser de ordem biológica ou social. Isso significa
que ele pode ter uma predisposição genética
para o vício ou estar sob algum tipo de stress que ajudou
a disparar o gatilho da adição. Os traumas mais potentes
ocorrem na infância: abandono, repetidas negligências,
abusos físicos, sexuais, convivência com pais presos
ou portadores de doenças mentais. Mas é claro que
nada disso resulta em vício se a pessoa não tiver
acesso às drogas.
É
possível curar o vício?
Nós
não podemos curá-lo atualmente, apenas tratá-lo.
Quando você tem uma infecção bacteriana, toma
um antibiótico e está curado. Agora, se você
tem asma ou diabetes, tem de tomar algum tipo de medicamento ao
longo de sua vida. É um tratamento para sua condição,
não uma cura. Hoje, existem apenas tratamentos para o vício,
que combinam medicamentos e terapias comportamentais. Estamos desenvolvendo
uma vacina contra o vício de cocaína e nicotina, mas
são apenas pesquisas ainda.
É
possível, depois de se reabilitar, voltar a usar drogas sem
se viciar?
Há
casos já identificados. Por muito tempo se disse, principalmente
sobre o alcoolismo, que, se você é alcoólatra,
nunca, mas nunca mesmo, poderá chegar perto de novo da droga.
Em pesquisas, há evidências de que alguns alcoólatras
conseguem voltar a beber um ou dois copos de vez em quando sem se
viciar, mas eles são a minoria. O problema é que não
sabemos quem será capaz de se ater a apenas alguns drinques
e quem vai se viciar de novo, por isso recomendamos clinicamente
que todos fiquem afastados da droga.
Está
em curso no Brasil uma campanha para descriminalizar a maconha.
A senhora concorda com isso?
Não
concordo porque, ao descriminalizar a maconha, você estará
contribuindo para que mais gente a consuma. Há quem não
fume por medo da repercussão negativa que a atitude pode
provocar - e descriminalizá-la significa dizer: "Se
você fumar, está tudo bem".
Um grupo
de pesquisadores brasileiros está discutindo a possibilidade
de permitir o uso medicinal da maconha. Quais são os benefícios
já comprovados da droga?
As pesquisas
mostram que os canabinoides, inclusive o THC, têm algumas
ações terapêuticas úteis. Por exemplo,
diminuem a resposta à náusea, o que é muito
útil para pacientes com câncer que estão enfrentando
uma quimioterapia. Outra vantagem comprovada é que eles aumentam
o apetite e podem ajudar a combater a anorexia que acomete pacientes
com doenças como a aids, por exemplo. Além disso,
podem ter benefícios analgésicos e diminuir a pressão
interna do olho, o que pode evitar um glaucoma. O que nosso instituto
apregoa é que você pode ter o benefício dos
canabinoides sem os efeitos colaterais que resultam do fumo da maconha,
como a perda de memória, por exemplo. Por isso, estamos encorajando
o desenvolvimento de medicamentos que maximizem as propriedades
terapêuticas da droga sem seus efeitos danosos. No mercado
americano, já existem algumas pílulas, como a Marinol,
que permitem isso.
Em suas
pesquisas a senhora descobriu que o córtex orbitofrontal,
a principal área do cérebro afetada por quem tem transtorno
obsessivo-compulsivo, também está ligado ao vício.
É essa a chave da compulsão pelas drogas?
Eu concluí
que a pessoa viciada em drogas desenvolve uma obsessão e
uma compulsão pela droga similares às daquela que
tem transtorno obsessivo-compulsivo. O que o vício e o TOC
têm em comum é que ambas as doenças afetam as
mesmas áreas do cérebro, aquelas relacionadas aos
hábitos e aos controles. Mas, embora o local afetado seja
o mesmo e a apresentação dos sintomas se dê
de forma parecida, os mecanismos que levam a essas anormalidades
não são.
A senhora
também estudou a função da dopamina em quem
come compulsivamente. Que relações se podem fazer
entre a obesidade e o vício em drogas?
Ambos resultam
em uma busca compulsiva por uma recompensa: no caso da obesidade
é a comida e no caso da adição é a droga.
Nos dois, há a perda de controle. Quem é patologicamente
obeso come mesmo quando não quer. Podemos dizer que algumas
pessoas parecem ser viciadas em comida, embora até o momento
isso não tenha sido aceito nas comunidades clínica
e científica.
A secretária
de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, disse recentemente
que o povo americano tem uma demanda insaciável por drogas.
A senhora acredita que essa demanda é mesmo mais intensa
nos EUA do que em outros países?
O prazer oriundo
das drogas é uma comodidade que você compra, como um
luxo. Então há, sem dúvida, um elemento econômico
nessa discussão. Também existem elementos relacionados
à estrutura social e às normas. Os americanos são
mais tolerantes em relação a comportamentos diferentes
do que muitos outros povos. Isso resulta também em maior
aceitação do uso de drogas.
A senhora
nunca sentiu vontade de experimentar alguma droga?
Bebo de vez
em quando um copo de vinho e experimentei cigarros quando era adolescente.
Nunca usei cocaína, maconha nem outro tipo de droga ilícita.
Amo meu cérebro e nunca pensei em estragá-lo
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