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Matéria
publicada no jornal Folha de São Paulo, de 29/03/10
A
Suécia de olho no Brasil
ARNALDO
NISKIER
É
extremamente difícil comparar o que se passa na Suécia
com o que ocorre no Brasil, principalmente na área da educação
ENQUANTO NA
calçada a neve descia em flocos apressados, a cidade de Estocolmo,
linda apesar do frio de 6 graus negativos, abrigava um importante
seminário sobre o Brasil e o futuro, a cargo de especialistas
dos dois países. Falou-se sobre novas formas de energia (etanol,
biodiesel, gás natural e até sistemas híbridos)
e defesa do meio ambiente.
O embaixador
Antonino Mena Gonçalves traçou um panorama bastante
otimista em relação à ampliação
das relações comerciais mantidas por nosso país
com a nação escandinava, que hoje tem aproximadamente
200 empresas em território brasileiro, contabilizando, somente
elas, mais de 50 mil funcionários.
Isso ainda
pode crescer muito mais, assinalando-se algo visível a olho
nu: o povo sueco tem grande estima pelos brasileiros, fato que remonta
ao parentesco do nosso imperador com a família real escandinava.
Com o reforço, é claro, da Copa do Mundo de 1958,
a que lançou Pelé. Até hoje eles se lembram
como aplaudiram os nossos craques durante a final, que vencemos
por 5 a 2.
A Suécia
tem 9 milhões de habitantes e cerca de 2 milhões de
estudantes nas suas escolas. O ensino é integral para todos
os alunos -e rigorosamente gratuito, das 9h às 16h30. Os
professores são bem remunerados e constituem uma categoria
socialmente muito respeitada. Os pais se interessam pela educação
dos filhos, especialmente nas primeiras séries do ensino
fundamental, quando é comum participarem das atividades escolares
para estimular os filhos à conquista do conhecimento.
Uma das palavras
que ouvimos na Câmara de Comércio foi a do professor
Thomas Arctaedius, da Universidade de Estocolmo. De forma bem objetiva,
ele traçou para os 180 participantes do seminário
as prioridades da sua instituição.
Vale a pena
prestar muita atenção: 1) a formação
de cientistas; 2) a formação de pensadores; 3) a formação
de professores. Isso numa universidade que tem 50 mil alunos.
É extremamente
difícil comparar o que se passa na Suécia com o que
ocorre no Brasil, sobretudo na área da educação.
São duas realidades totalmente distintas.
Querem um
exemplo? Fizemos uma visita à Royal Swedish Academy of Sciences.
Ela é uma das quatro responsáveis pela atribuição
anual do Prêmio Nobel. Na exposição feita por
um dos seus membros, o que mais chamou a atenção foi
o cuidado revelado com as crianças. "Elas devem, desde
cedo, acostumar-se com a iniciação científica.
Damos a isso absoluta prioridade."
É claro
que o resultado só pode ser a existência de um país
solidamente constituído do ponto de vista científico
e tecnológico. Produz talvez o melhor papel do mundo (lembro
que era muito utilizado pela revista "Manchete") e tem
empresas internacionais do porte da Volvo, da Ericsson, da Scania
e da SKF, exportando tecnologias e mão de obra ultraespecializada.
Sem contar os aviões de combate (caças Gripen), hoje
alvo de movimentada concorrência internacional.
Não
é de estranhar, pois, que, cuidando assim dos seus recursos
humanos, a Suécia esteja no topo das dez maiores economias
mundiais impulsionadas pela inovação, superando países
como Estados Unidos, Noruega e Dinamarca.
Em pesquisa
da London Business School, a Suécia apresentou a melhor combinação
de atributos, com os seus serviços de educação
e capacitação.
Com outra
particularidade: há poucas probabilidades de que o país
perca essa liderança, com o atual estágio em que se
encontram as suas tecnologias de comunicação (redes,
celulares e computadores).
Na lista dos
países em desenvolvimento, impelidos pelos recursos naturais,
o Brasil figura em sexto lugar na classificação feita
pelo Fórum Econômico Mundial, atrás da Malásia,
da África do Sul, do Chile, da Argentina e da Rússia.
A conclusão
óbvia é a de que devemos persistir nas estratégias
de inovação, para o que se torna indispensável
um choque de eficiência no processo educacional brasileiro,
hoje muito aquém das necessidades de crescimento do país.
Quando se vê o que se faz lá fora, aumenta a vontade
de uma grande mudança.
ARNALDO NISKIER
, 74, é doutor em educação, professor de história
e filosofia da educação e membro da Academia Brasileira
de Letras.
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