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Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, de 25/03/10 Amor confuso ROSELY SAYÃO
A mãe de uma menina de 11 anos está muito
preocupada com o namoro da filha, que já dura meses. É que
a garota contou a ela que o relacionamento com o namorado, de 15 anos,
está "esquentando". Essa mãe não sabe mais
o que fazer porque já conversou com o casal, aconselhou, falou
de todos os riscos de uma gravidez fora de hora. Mesmo assim, parece que
eles não se dão conta da gravidade da situação,
já que responderam a ela que "o que tiver de acontecer acontecerá". Em outra ponta, a mãe de um jovem de 21 anos encontra-se
em uma situação parecida. O filho é financeiramente
autônomo e decidiu casar-se com sua namorada, que é a primeira
garota com quem se relacionou. Essa mãe é contra a decisão do rapaz
porque acha que ele deveria ter outras experiências amorosas e sexuais
antes de se comprometer. Por causa desse conflito, mãe e filho
estão com a relação bem desgastada. Essas situações nos mostram que muitos pais
estão confusos na relação que estabelecem com os
filhos. Por isso pode ser bem interessante pensar sobre esse vínculo
tão especial. Os filhos não vêm ao mundo por vontade própria.
Os pais -ou um deles- quiseram isso, mesmo que esse querer tenha sido
repleto de contradições. Uma vez aqui, cabe aos pais, por causa do amor que a ele
dedicam, formar o filho para que ele possa andar com suas próprias
pernas, ser autônomo. A questão fundamental no mundo contemporâneo
talvez seja a de que o amor de muitos pais pelos filhos tornou-se a única
coisa (ou pelo menos a mais importante) que conta nessa relação.
E isso muda tudo na formação dos mais novos. Quando uma criança pequena, à mercê
de seus caprichos, quer ou não quer qualquer coisa, os pais cedem,
mesmo sabendo em tese que não deveriam, porque o amor que sentem
pelo filho não permite vê-lo sofrer. Mais crescido, mas criança
ainda, ele quer se comportar como adulto, como a filha de nosso primeiro
exemplo. Os pais cedem porque se sensibilizam com a situação
e acabam por acreditar que as coisas são assim mesmo hoje em dia. Já com o filho crescido e amadurecido, prestes a
colocar o pé na vida adulta e pronto para assumir todos os ônus
e bônus desse caminho, alguns pais hesitam em sair de cena porque
isso significa ter de suportar o afastamento. O amor imenso que sentem
acaba por aprisionar todos nesse laço. Dessa maneira, o amor desses pais pelos filhos, como se
configura e se materializa na atualidade, acaba impedindo que estes reconheçam
sua intimidade já que os pais imiscuem-se nela, atrapalha o processo
de construção de autonomia deles porque os pais ofertam
conforto, em todos os sentidos, em troca de sua proximidade, permite às
crianças que se comportem como adultos e a jovens adultos que vivam
como crianças porque os pais não suportam a ideia de que
seus filhos vivam fora dos contextos sociais do momento. Será que o amor dos pais pelos filhos está
fora de controle justamente porque as relações afetivas
entre adultos se tornaram descartáveis e frágeis? ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha
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