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Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, de 04/03/10 Liberdade feminina ROSELY SAYÃO [...] MÃES RECLAMAM DO CANSAÇO QUE PROVOCA A DEDICAÇÃO AO TRABALHO E O CUIDADO COM OS FILHOS; ELAS QUEREM FÉRIAS DELES TAMBÉM Conversei
com a mãe de uma garotinha que completa três anos neste semestre
e que foi matriculada na escola pela primeira vez no início do
ano. O problema, segundo a mãe, é que a menina fica desesperada
na hora de ir para a escola e chora o tempo todo que lá fica. Durante
nossa conversa, essa jovem mulher disse que está esgotada porque
preferiria não levar a filha para a escola, mas não tem
escolha por causa do horário de trabalho e da indisponibilidade
de sua mãe, que, até então, dera conta de ficar com
a neta. Essa mãe não está sozinha ao viver esse dilema,
não é verdade? Uma
pesquisa recente apontou que bebês de até quatro meses têm
sido alimentados com comida industrializada com frequência. Que
tal uma lasanha congelada no almoço e umas bolachas recheadas para
o lanche dessas crianças? Mães de todas as classes sociais
têm feito isso e um dos motivos é que não sabem cozinhar. Um número
enorme de mães reclama do cansaço que provoca a dedicação
ao trabalho e o cuidado com os filhos. Elas querem férias deles
também, como têm no trabalho. Babás trabalham diuturnamente
para muitas mulheres que não dispensam folguistas nem nos feriados.
Alguns pediatras informam que muitos bebês e crianças vão
ao consultório acompanhados apenas de suas babás. Em salões
de beleza, é comum encontrar mulheres acompanhadas das filhas pequenas
que se inquietam, choram, fazem birra. O mesmo ocorre em restaurantes,
shoppings, aeroportos etc. Com
a proximidade do Dia Internacional da Mulher, esses dados e outros devem
nos fazer refletir sobre a liberdade da mulher no mundo atual. Em tempos
em que a mulher pode marcar presença em quase todos os segmentos
profissionais, pode ter filhos casada ou não, com parceiro ou não,
pode estabelecer e romper relações amorosas quando quiser,
pode cultivar sua aparência de acordo com seus anseios e disponibilidade
financeira, ter autonomia econômica etc., parece que desfruta de
uma liberdade sem fronteiras. O problema
é que nem sempre a mulher reconhece que muito do que faz não
é por escolha. Sim. Na atualidade, ela está submetida às
mais variadas pressões, muitas delas tão sutis que se travestem
de seus propósitos pessoais. Conhece o ditado popular "o que
não tem remédio, remediado está"? Podemos transformar
em "o que não tem escolha, escolhido está" no
caso das mulheres. Como
liberdade é poder escolher, conseguir realizar sua opção
e abdicar das outras, podemos dizer que a liberdade feminina anda plena
de restrições. E, depois da fase "mulher maravilha",
o cansaço bateu. O que
fazer com os filhos que precisam da disponibilidade (não da presença
física) em tempo integral da mãe, com os anos que passam
e com a aparência física que perde o frescor, com os embates
competitivos no campo profissional que desgastam e sugam energia, com
as obrigações sociais, com a solidão habitada por
multidões de "amigos"? E agora,
Maria? ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)
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