Matéria publicada na Revista da Folha, de 21/02/10

Férias para quê?

por Fernando Cassaro / foto Paulo Pampolin

Vinte e três crianças e adolescentes do Colégio de São Bento, no Centro, não tiveram férias durante o mês de janeiro. Mesmo sem estar de recuperação, os alunos com idades entre cinco e 12 anos passaram os primeiros dias do verão, das 8h às 17h, com o nariz colado nos livros, sanando dúvidas que tiveram durante o ano letivo.

Todos são de origem chinesa, e nenhum estava de castigo. Trata-se apenas de uma tradição asiática transportada pelos imigrantes para terras brasileiras. "O chinês sabe que apenas o estudo pode trazer oportunidades para uma vida melhor, já que o mundo é muito competitivo", diz o padre Lucas Xiao, vice-reitor do colégio, justificando a demanda por aulas extras nas férias. Nascido em um vilarejo próximo a Pequim, ele explica que a aplicação nos estudos é comum entre seus compatriotas. "Como as crianças que participam do programa são chinesas ou descendentes, dificilmente se incomodam."

Para a coordenadora do curso de psicopedagogia da PUC-SP, Neide Noffs, a prática reflete a grande cobrança que os orientais sofrem por bons resultados -o que não ocorre no Brasil. "Não optamos por um modelo competitivo", afirma. "Somos mais solidários."

Ainda que o calendário extra e os métodos de estudo soem espartanos por aqui, os pais orientais costumam manter a imagem da educação asiática na cabeça e não dão folga para os filhos.

De acordo com a Embaixada da China, as crianças chinesas ficam na escola seis horas e meia -entre as 8h e as 14h30. Nesse período, têm aulas de chinês e aritmética, intercaladas por lições de canto, pintura, educação física e teatro. Não bastassem as atividades curriculares, por lá os estudantes também ganham uma longa lista com tarefas a serem feitas nos dois períodos de férias -em fevereiro e agosto.

No São Bento, a carga é ainda mais extensa. O período integral, que conta com 140 alunos (90 deles chineses) vai das 7h30 às 17h30. Além das disciplinas tradicionais, como português e matemática, o colégio oferece chinês e abre espaço no currículo para aulas de teatro, artes e iniciação esportiva.

No Brasil há apenas três meses, Angelo Cao, 9, logo encarou o curso de férias do tradicional colégio paulistano. Acostumado à correria, não reclamou de estudar nas férias. "É muito melhor aprender na escola do que com a minha mãe", diz o garoto, que ainda não fala português.

Sua mãe, a comerciante Monica Cao, 33, quis matricular o menino para que ele tenha mais contato com o país em que vive agora. "Ele tem de sair de casa para começar a entender a língua e fazer alguns amigos."

Para manter os filhos em contato com os livros durante todo o período de férias, os pais desembolsam R$ 640. Já a mensalidade do curso integral é de R$ 1.200.

"Antes de começar essa turma, os professores se reúnem para decidir o que vão ensinar", explica o padre Lucas. "Eles sempre pensam nas dificuldades que as crianças tiveram durante o ano para formular o programa de aulas." Apesar da cara de reforço, o vice-reitor afirma que não são atribuídas notas às atividades de férias.

Aluna da 3ª série do ensino fundamental, Kelly Lin, 9, está sem férias desde a pré- escola. Neste recesso de verão, não foi diferente. Enquanto colegas brasileiros tiraram o uniforme e foram brincar, ela continuou indo para a escola de 22 de dezembro a 22 de janeiro. Só folgou no Natal e no Ano Novo. As aulas regulares recomeçaram em 26 de janeiro.

"Esse é um critério muito oriental. É um exagero não dar férias em um local onde as outras crianças têm descanso", pondera a psicóloga Magdalena Ramos, autora do livro "E Agora, o que Fazer? A Difícil Arte de Criar os Filhos" (ed. Ágora). Para ela, essa não é a melhor forma para se conseguir um rendimento melhor. "Ao contrário, chega uma hora em que a criança pode ficar estafada."

O pai de Kelly, o comerciante Lin Ying, 46, não pensa assim. "Ela aprende mais e evita as más companhias", argumenta. "Ela melhorou muito o inglês e está falando muito bem o português." A menina diz não se importar em perder as folgas, até porque grande parte das amiguinhas pertencem à turma da escola. "É gostoso ficar no colégio", ela conta, com sotaque quase imperceptível.

Padre Lucas acredita que todo esse esforço será recompensado posteriormente.

Ele afirma que os alunos que estudam nas férias costumam aproveitar melhor o ano letivo. E releva o possível cansaço: "Tem muito feriado no Brasil. Dá para descansar durante o ano".

Aulas durante o recesso podem ser enriquecedoras, pondera a psicopedagoga Neide. Mas desde que sejam aplicadas de forma lúdica e sem cobranças por notas ou bom rendimento. "Não pode haver pressão. Ninguém suporta 12 meses de aulas."

Decálogo
a ser seguido pelos gestores para a solução dos problemas de infra-estrutura das Escolas Públicas Estaduais


1
Se não houver merendeira na escola,
não será fornecida a merenda;

2
Se não houver pessoa responsável pela Biblioteca, ela permanecerá fechada;

3
Se não houver pessoal de secretaria,
de acordo com o módulo, não haverá entrega de documentos na DE;

4
Se não houver verba para compra
de material e manutenção da sala de informática, o local não será utilizado;

5
Se não houver recursos para reparos e vazamentos no prédio escolar,
não haverá consertos;

6

Se não houver recursos para pintura do prédio, o prédio não será pintado;

7

Se não houver verba para a contratação de contador para as escolas, não haverá prestação de contas à FDE;

8
Se não houver verba suficiente para a contratação de funcionários pela CLT,
o dinheiro será devolvido;

9
Se a mão de obra provisória
não for qualificada, será recusada;

10
Se as festas não tiverem o objetivo de integrar a escola à comunidade, não serão realizadas

A nossa escola é, por previsão constitucional, pública e gratuita. Portanto, ela tem de ser custeada pelos cofres públicos. Todas as omissões do Estado, com relação aos itens acima, deverão ser objetos de ofícios da direção às Diretorias Regionais de Ensino, a fim de isentarem o diretor de eventuais responsabilidades administrativas.
Toda e qualquer ameaça de punição aos diretores associados da Udemo, por tomarem aquelas atitudes, será objeto de defesa jurídica por parte do Sindicato, seguida de denúncia ao Ministério Público e propositura de Ações Civis Públicas contra o Estado, pelo não cumprimento das suas obrigações para com as unidades escolares e pelos prejuízos causados à comunidade escolar.