Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo, de 09/02/10

Vender a alma

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Terás dinheiro sem o mereceres; e, por isso, terás também uma vida de tédio e repetição


TIVERAM um bom fim de semana? O meu foi perfeito. Só exercício físico. No sábado de manhã, aspirei a casa. Depois, limpei o pó. Lavei a louça, passei a ferro -e entretanto era domingo à noite. Existem trabalhos duros, eu sei. Mas alguém tem de os fazer.

Pena que seja eu. Há várias semanas que procuro empregada, depois das três últimas que passaram por aqui. Elas vêm, ficam alguns meses e depois partem. Não por culpa minha. Sou patrão generoso no salário, no horário, até nas exigências laborais. A culpa é da natureza humana: entre trabalhar em minha casa ou não trabalhar em nenhuma casa, qualquer ser pensante não hesita.

Claro que, por essa altura, o leitor inteligente já formulou uma questão cruel: mas, se as donzelas preferem não trabalhar, como podem viver? O leitor inteligente, apesar da inteligência, desconhece um pormenor básico: na Europa do século 21, existe um generoso "modelo social" que, apesar de estar a caminho da falência, ainda proporciona algum espetáculo terminal. Esse modelo permite que um adulto possa viver grande parte da existência sem mexer um dedo para trabalhar.

Em teoria, o subsídio de desemprego implica um compromisso do trabalhador para encontrar o dito cujo. As agências do Estado, aliás, costumam sugerir ocupações, de acordo com as competências do trabalhador potencial. Mas, na prática, tudo depende da inclinação de cada um. E a inclinação é conhecida.

As três últimas empregadas trabalharam afincadamente enquanto aguardavam pelos "papéis". Os "papéis" são os documentos de naturalização, que concedem ao novo cidadão da República vários direitos (mas, curiosamente, poucos deveres). Um dos direitos é apoio no desemprego, na doença e na velhice.

Como a doença e a velhice só costumam aparecer na fase última da vida, melhor aproveitar o desemprego na idade jovem. E elas aproveitam. Roteiro conhecido: avisam que deixarão o serviço.

Eu pergunto por quê. Ingenuamente, imagino que encontraram trabalho melhor. Ou mais bem pago. Razões válidas e meritórias. Com esperança escolástica, antecipo o dia em que uma delas dirá: "Estudar sempre foi um sonho adiado!".

Nenhuma resposta. Quando as reencontro no bairro, tempos depois, a confissão: estão no desemprego. Melhor: com o subsídio de desemprego. E qual o valor do subsídio? Um pouco melhor do que os meus salários, dizem elas, com leve reprovação. Engulo em seco. Elementar, meu caro Watson: eu não posso competir com o Estado. Concorrência desleal.

Escuto tudo com uma mistura de indignação e divertimento. E depois ainda sugiro uma ilegalidade conhecida: é possível acumular o subsídio de desemprego com o salário do emprego. Elas riem. A questão não é o dinheiro. É o trabalho. Para que trabalhar quando é possível não o fazer, ganhando na mesma?

Regresso a casa e sinto-me o último otário do mundo. Serei caso único? Não sou. Mark Steyn, na última "The New Criterion", fornece alguns números que amaciam minha solidão. Conta Steyn, em texto sobre o assustador crescimento do Estado nas sociedades ocidentais, que só no Reino Unido, desde o momento em que o New Labour conquistou o poder (1997), 5 milhões de pessoas não voltaram mais a trabalhar.

Por outras palavras: um décimo da população vive há 12 anos do cheque estatal. Um quinto das crianças britânicas cresce em casas onde nenhum adulto trabalha -um belo exemplo que se perpetuará pela descendência. No Estado de bem-estar social, é possível que um ser humano nasça, cresça, envelheça e morra sem saber o que significa trabalhar e ganhar um salário. Leio essa última frase e sinto uma vibração de simpatia e inveja na minha costela ociosa. Mas ócio com dinheiro dos outros tem um nome feio.

Diz Mark Steyn que o modelo social europeu é um caso de despesa brutal que a economia do continente não poderá suportar pelos próximos anos. Fato. Salvífico fato.

Mas o modelo não é apenas economicamente inviável; é também moralmente trágico ao condenar milhões de criaturas a vidas desérticas e bovinas, sem nenhum objetivo que possamos reconhecer como humano. Sem querer abusar de metáforas mefistofélicas, o modelo social europeu é uma tentação capital.

Uma forma de o Estado dizer: "Terás dinheiro em troca da tua alma". Terás dinheiro sem o mereceres; e, por isso, terás também uma vida de tédio e repetição. Uma sucessão de dias habitados por nada até o dia em que serás nada também.

jpcoutinho@folha.com.br

 

Decálogo
a ser seguido pelos gestores para a solução dos problemas de infra-estrutura das Escolas Públicas Estaduais


1
Se não houver merendeira na escola,
não será fornecida a merenda;

2
Se não houver pessoa responsável pela Biblioteca, ela permanecerá fechada;

3
Se não houver pessoal de secretaria,
de acordo com o módulo, não haverá entrega de documentos na DE;

4
Se não houver verba para compra
de material e manutenção da sala de informática, o local não será utilizado;

5
Se não houver recursos para reparos e vazamentos no prédio escolar,
não haverá consertos;

6

Se não houver recursos para pintura do prédio, o prédio não será pintado;

7

Se não houver verba para a contratação de contador para as escolas, não haverá prestação de contas à FDE;

8
Se não houver verba suficiente para a contratação de funcionários pela CLT,
o dinheiro será devolvido;

9
Se a mão de obra provisória
não for qualificada, será recusada;

10
Se as festas não tiverem o objetivo de integrar a escola à comunidade, não serão realizadas

A nossa escola é, por previsão constitucional, pública e gratuita. Portanto, ela tem de ser custeada pelos cofres públicos. Todas as omissões do Estado, com relação aos itens acima, deverão ser objetos de ofícios da direção às Diretorias Regionais de Ensino, a fim de isentarem o diretor de eventuais responsabilidades administrativas.
Toda e qualquer ameaça de punição aos diretores associados da Udemo, por tomarem aquelas atitudes, será objeto de defesa jurídica por parte do Sindicato, seguida de denúncia ao Ministério Público e propositura de Ações Civis Públicas contra o Estado, pelo não cumprimento das suas obrigações para com as unidades escolares e pelos prejuízos causados à comunidade escolar.