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Matéria
publicada no jornal Folha de São Paulo, de 31/01/09
O
que você não vai ser quando crescer?
GILBERTO
DIMENSTEIN
Não é de admirar que 55% das vagas de pedagogia
e das licenciaturas não sejam preenchidas no Brasil
QUEM se depara com Mário Gatica, óculos
escuros, terno preto, alto, musculoso, lutador de artes marciais, cuidando
da segurança de uma casa noturna da rua Augusta, jamais poderia
imaginá-lo como professor de filosofia de escola pública.
"Gostaria de apenas dar aulas", conta -apesar de, algumas vezes,
ele se sentir mais vulnerável fisicamente dentro de uma escola
do que evitando brigas ou assaltos na madrugada.
O magistério é seu grande projeto desde
a adolescência, mas Gatica se vê obrigado a complementar sua
renda na noite. Na condição de temporário, ele passou
na prova de conhecimentos aplicada pela rede estadual de São Paulo:
40% dos candidatos foram reprovados, mesmo com o benefício de usar
o tempo de serviço como parte da nota.
Muitas gorjetas superam o que ele recebe por hora
em sala de aula -o que acabou interessando também a colegas da
escola. Professoras pediram um bico de garçonete.
Mesmo que não fosse dublê de segurança
e professor, Gatica, que se graduou em história e está no
último ano de uma faculdade de filosofia, já seria uma raridade.
É o que se vê num alarmante levantamento inédito com
jovens brasileiros sobre os desejos profissionais.
Idealizada pela Fundação Victor Civita e realizada pela
Fundação Carlos Chagas, a pesquisa integra um relatório
sobre a atratividade da carreira do professor. As entrevistas foram focadas
apenas em jovens que estão concluindo o ensino médio e decidindo
sua carreira: apenas 2% deles querem ser professores.
Entre os que estão nas escolas privadas, a taxa
cai para próximo de zero. Suas opções são,
pela ordem, direito, engenharia e medicina.
Um terço dos alunos até pensou em ser professor,
mas desistiu pelos seguintes motivos: 1) falta de valorização
social; 2) salários baixos; e 3) rotina desgastante. É o
que se traduz na diferença entre a gorjeta que Gatica recebe como
segurança e o valor da hora-aula.
Note-se que a pesquisa não pergunta especificamente se ele gostaria
de ser professor de uma escola pública -se fosse assim, o resultado
seria ainda pior.
Não é de admirar, portanto, que 55% das vagas
de pedagogia e licenciatura não sejam preenchidas. Nem que 40%
dos professores temporários da rede paulista tenham sido reprovados
-nem que o governo paulista, por falta de alternativa, seja obrigado a
mantê-los dando aula. Há no país um deficit de 700
mil professores no ensino médio e nos anos finais do fundamental.
É de mais de 35% a taxa de evasão nos cursos
que formam professores.
A pior notícia, porém, é a seguinte: os futuros professores
são recrutados entre os alunos com as piores notas no ensino.
Não consigo ver informação mais alarmante
para uma nação do que o fato de que se recrutam entre os
piores quem vai cuidar da cabeça das crianças e dos adolescentes.
Entende-se por que muitos cursos de reciclagem não funcionam bem
-ou por que os alunos saem da escola sem saber ler e escrever direito.
Também se entende por que, em muitos casos, exista
pouca diferença entre escolas públicas e privadas.
Como se não bastassem as deficiências de formação,
eles vão trabalhar num ambiente hostil e violento, com salas lotadas
e famílias omissas.
Há fatos novos interessantes. Novas normas de crédito estudantil
garantem gratuidade a quem cursar um curso de licenciatura ou de pedagogia;
a contrapartida é ir para uma escola pública.
Na semana passada, professores paulistas se submeteram
a uma prova que garantirá a parte deles o aumento do salário,
não só com base no tempo de serviço, mas em boas
notas. Já existe em São Paulo o bônus a partir do
desempenho dos alunos e a obrigatoriedade de se passar por um curso -mesmo
aos aprovados em concurso.
Aumenta a oferta de cursos a distância oferecidos pelas melhores
universidades.
Mas, pelo tamanho do problema, é ainda pouco e vai exigir o melhor
da inteligência da elite política -inteligência para,
por exemplo, usar os recursos digitais, criar espaços educativos
nas cidades, integrar os meios de comunicação ao aprendizado.
Daí que a principal questão social brasileira
seja colocar a resposta "professor" quando alguém perguntar
aos jovens coisas do tipo "o que-você-vai-ser-quando-crescer?".
PS - O relatório é um dos documentos mais profundos que
já li sobre a carreira de professor no Brasil. Leitura obrigatória
-coloquei a íntegra no site do Catraca Livre (www.catracalivre.com.br).
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Decálogo
a
ser seguido pelos gestores para a solução dos problemas
de infra-estrutura das Escolas Públicas Estaduais
1
Se não houver merendeira na escola,
não será fornecida a merenda;
2
Se não houver pessoa responsável
pela Biblioteca, ela permanecerá fechada;
3
Se não houver pessoal de secretaria,
de acordo com o módulo, não haverá entrega
de documentos na DE;
4
Se não houver verba para compra
de material e manutenção da sala de informática,
o local não será utilizado;
5
Se não houver recursos para reparos e vazamentos
no prédio escolar,
não haverá consertos;
6
Se não houver recursos para pintura do prédio, o prédio
não será pintado;
7
Se não houver verba para a contratação
de contador para as escolas, não haverá prestação
de contas à FDE;
8
Se não houver verba suficiente para a contratação
de funcionários pela CLT,
o dinheiro será devolvido;
9
Se a mão-de-obra provisória
não for qualificada, será recusada;
10
Se as festas não tiverem o objetivo de integrar
a escola à comunidade, não serão realizadas
A
nossa escola é, por previsão constitucional, pública
e gratuita. Portanto, ela tem de ser custeada pelos cofres públicos.
Todas
as omissões do Estado, com relação aos itens
acima, deverão ser objetos
de ofícios da direção às Diretorias
Regionais de Ensino, a fim de isentarem o diretor
de eventuais responsabilidades administrativas.
Toda e qualquer ameaça de punição aos diretores
associados da Udemo, por tomarem aquelas atitudes, será objeto
de defesa jurídica por parte do Sindicato, seguida de denúncia
ao Ministério Público e propositura de Ações
Civis Públicas contra o Estado, pelo não cumprimento
das suas obrigações para com as unidades escolares
e pelos prejuízos causados à comunidade escolar.
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