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Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo, de 30/01/09 Bem-vinda DRAUZIO VARELLA Sejam quais forem as raízes biológicas, o fato é que caímos de quatro diante dos netos
Curiosa a experiência de ser avô, perceber
que a espiral da vida dá uma volta completa; a primeira que independe
de nossa participação. Sim, porque até o nascimento de um neto os acontecimentos
biológicos de alguma forma dependeram de ações praticadas
por nós: nossos filhos só existem porque os concebemos,
os fatos que constituíram a história de nossas vidas apenas
ocorreram porque estávamos por perto; mesmo nossos pais só
se transformaram em figuras carregadas de significado porque nos deram
à luz. Os netos, em oposição, vêm ao mundo
como consequência de decisões alheias, nasceriam igualmente
se já nos tivéssemos ido. A ideia de nos tornarmos seres biologicamente descartáveis
é incômoda, porque nos confronta com a transitoriedade da
existência humana: viemos do nada e ao pó retornaremos, como
rezam os ensinamentos antigos. Por outro lado, liberta do compromisso de transmitirmos
às gerações futuras os genes que herdamos das que
nos precederam, força da natureza que reduz a essência da
vida na Terra (e em qualquer planeta no qual ela porventura exista ou
venha a existir) ao eterno crescei, competi e multiplicai-vos, como ensinaram
Alfred Wallace e Charles Darwin. A sensação de que nos livramos dessa incumbência
biológica, entretanto, não nos torna imunes ao ensejo de
proteger os filhos de nossos filhos como se fossem extensões de
nós mesmos. Somos impelidos a fazê-lo não por senso
de responsabilidade familiar ou por normas de procedimento ditadas por
imposições sociais, mas por ímpetos instintivos irresistíveis. Os biólogos evolucionistas afirmam que a seleção
natural privilegiou nas crianças uma estratégia de sobrevivência
imbatível: a beleza. Fossem feias e repugnantes, não aguentaríamos
o trabalho que nos dão, porque cavalos e bezerros ensaiam os primeiros
passos ao ser expulsos do útero materno, enquanto filhotes de primatas
como nós são dependentes de cuidados intensivos por anos
a fio. Dizem eles, também, que o amor dos avós conferiu
maior chance de sobrevivência aos bebês que tiveram a sorte
de contar com ele, razão pela qual esse sentimento teria persistido
em nossa espécie. Pelo mesmo motivo, explicam as vantagens evolutivas
conferidas pela menopausa, fase em que a mulher já infértil
reúne experiência e disponibilidade para ajudar os filhos
a cuidar da prole. Sejam quais forem as raízes biológicas, o
fato é que caímos de quatro diante dos netos. Por mais voluntariosos,
mal-educados, egoístas, temperamentais e pouco criativos que os
outros os julguem, para nós serão lindos, espertos, de boa
índole e, sobretudo, inteligentes como nenhuma outra criança. Anos atrás, surpreendi um amigo ao telefone perguntando
para o neto como fazia o boizinho do sítio em que o menino de dois
anos se encontrava. A cada "buuuu" que ouvia, meu amigo ria
de perder o fôlego. Diante do riso exagerado, perguntei como reagiria
quando a criança relinchasse. Você verá quando for
avô, respondeu. Tinha razão. Os netos surgem em nossas vidas quando
estamos mais maduros, menos preocupados em nos afirmar, mais seletivos
afetivamente, desinteressados de pessoas que não demonstram interesse
por nós, libertos da ditadura que o sexo nos impõe na adolescência
e cientes de que não dispomos mais de uma vida inteira para corrigir
erros cometidos, ilusão causadora de tantos desencontros no passado. A aceitação de que não temos diante
de nós todo o tempo do mundo cria o desejo de nos concentrarmos
no essencial, em busca do máximo de felicidade que pudermos obter
no futuro imediato. A inquietude da inexperiência e os desmandos
causados por ela dão lugar à busca da serenidade. Fase inigualável da vida, quando abandonamos compromissos sociais para brincar feito crianças com os netos, sem nos acharmos ridículos. Ajoelhar para que montem em nossas costas, virar monstros, onças ou dinossauros em obediência ao que lhes dita a imaginação aventureira, preparar-lhes o jantar que não comerão, assistir aos desenhos animados da TV, ler histórias na cama quando estão entregues, beijar-lhes o rosto macio, sentir-lhes o cheiro do cabelo e a respiração profunda ao cair no sono |
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