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Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo, de 21/01/10 Separação ROSELY SAYÃO [...] AINDA TEMOS MUITO QUE SUPERAR EM BUSCA DE UM FINAL MENOS DOLOROSO PARA CRIANÇAS QUE PASSAM PELO DIVÓRCIO DOS PAIS
Isso é um grande avanço para uma sociedade
que levou bastante tempo para reconhecer as mudanças dos papéis
de mãe e de pai no mundo atual. Entretanto, mesmo com esse avanço,
crianças ainda penam depois que seus pais se separam porque nem
sempre conseguem conviver com ambos num clima harmonioso e equilibrado. Vamos convir: é preciso maturidade para se casar,
ter filhos e, principalmente, se separar. E muitos casais carecem dessa
maturidade quando decidem dissolver a relação que gerou
filhos. O problema é que são as crianças as que mais
sofrem quando isso ocorre e nem sempre os adultos envolvidos se dão
conta do fato. No fim do ano passado, acompanhamos pela imprensa a triste
história do garoto Sean Goldman. Filho de pais separados, ficou
no meio de uma disputa jurídica travada pela família materna
e o pai por um longo período. Com as dificuldades adicionais de
ser filho de pais de nacionalidades diferentes e de ter perdido a mãe,
foi privado do convívio familiar pleno e tranquilo pela falta de
diálogo entre as partes. Durante o período em que a disputa legal esteve
em curso, muita gente tomou partido: houve quem defendesse a estada do
garoto com a família materna e quem alegasse que ficar com o pai
seria a melhor saída. Para mim, nenhuma das soluções mostrava-se
satisfatória para o garoto depois de tudo o que aconteceu em sua
vida. Na verdade, foi criado um dilema na vida de Sean e, nesses casos,
qualquer das soluções que se escolhe resulta insatisfatória. Os relatos desse drama nos permitiram notar preconceitos
que insistem em permanecer em nossos pensamentos. Um deles me chamou a
atenção: o pai do garoto foi insistentemente chamado de
"pai biológico". Pelo jeito, ainda temos muito que superar
em busca de um final menos doloroso e mais sensato para as crianças
que passam pelo divórcio dos pais. Precisamos entender que não há um lado certo
e um lado errado, ou um lado melhor e outro pior para as crianças
em casos de separação. Em raríssimos casos, a mãe
ou o pai não demonstram condições de conviver com
o filho e educá-lo. Fora essas situações, mãe e pai têm
o dever de garantir aos filhos a convivência com ambos, o respeito
pela figura de ambos e a chance de a criança se relacionar com
dois estilos diferentes de amar e de educar. Como na atualidade a possibilidade
da separação de um casal já está posta desde
o ato do casamento, talvez tenhamos de garantir nesse contrato formal
a situação dos filhos no caso da dissolução
do casamento. Afinal, eles são frutos de um encontro entre duas
pessoas e não podem pagar a conta do desencontro quando ele acontece. ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)
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