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Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, de 14/01/10 Lição solitária ANNA VERONICA MAUTNER
O senso comum
diz que a gente tem que estar sozinho, sossegado, sem estímulos
externos para melhor focalizar. Vou tentar mostrar
as falácias dessa crença. Todo mundo acha que
sossego melhora a capacidade de concentração e, portanto,
facilita a aprendizagem. Não podemos esquecer daqueles que, diante
do papel em branco, reagem com angústia e sensação
de abandono, o que leva à dispersão do pensamento. O vazio que se apresenta
diante de quem vai estudar ou realizar uma tarefa intelectual pode gerar
uma dispersão de atenção, tornando as tarefas impraticáveis
ou realizáveis muito lentamente. Essa angústia do começar
pode remeter à sensação de abandono. É como
estar diante do desconhecido. A agonia dessa sensação
é tanto mais frequente quanto menor a criança, pois ela
conhece menos coisas do que os adultos. O rol de coisas incompreensíveis,
inesperadas, na vida cotidiana de uma criança é muito maior
do que na de um adulto. Essa angústia pode se repetir a cada experiência
de "começo" pelo resto da vida. No passado, as crianças
ficavam muito pouco sozinhas diante do papel em branco. Alguns educavam
os filhos em internatos, onde nunca se fica sozinho. Quem não era
interno era semi-interno. Os externos estudavam em casa, entre o vai e
vem das pessoas em atividade comum da vida familiar. A ideia do isolamento
não é antiga. Estudava-se e trabalhava-se com outras pessoas
que podiam ou não estar fazendo a mesma coisa. Curiosamente, pode-se
dizer que nossos fantasmas internos, angústias, temores e ansiedades
podem atrapalhar menos as funções mentais que ruídos
de fundo, comuns em qualquer casa. No silêncio
e na solidão, as angústias internas perturbam a aquisição
de novas informações e o surgimento de novas relações
entre as ideias. Parece absurdo, mas o silêncio pesado pode perturbar
o pensar. Nem sempre se dobrar ao senso comum não é sinal
de sabedoria. A angústia
do "papel em branco" com o qual começamos esse pensamento
pode ser maior quando se está isolado. Na sala de aula, estamos
com outros ouvintes. Podemos nos movimentar, observar gestos -não
apenas escutar a voz. Não pretendo
levar os jovens para estudar em praça pública, nem dividir
sua atenção com internet e TV, mas chamar atenção
para o fato de que ruídos externos podem levar a um esforço
de concentração. Estou dando fé
de que estamos diante de alguém que quer aprender. E, eliminando
a angústia da solidão, não se deixa perturbar pelos
ruídos do cotidiano. Assim estudamos, rezamos, meditamos, conversamos. A presença
do outro ou das coisas cotidianas elimina a angústia do desconhecido
e permite que o novo não assuste. Que cada um escolha,
portanto, o modo que mais lhe convém, eliminando a autoridade do
suposto senso comum. ANNA VERONICA MAUTNER, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Cotidiano nas Entrelinhas" (ed. Ágora) amautner@uol.com.br
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