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Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo, de 05/12/09 Vicissitudes aeroportuárias DRAUZIO VARELLA Aeroportos foram transformados em campos de concentração da ansiedade humana
Lotados, os aeroportos foram transformados em campos de
concentração da ansiedade humana. Embora a maioria dos voos
ainda parta e chegue em horários próximos aos previstos,
os cancelamentos e os atrasos se tornaram tão frequentes que o
espírito do viajante vive atormentado pela possibilidade de perder
compromissos e de passar horas à espera em lugares apinhados de
gente mal humorada. Quando a Rússia ainda era comunista, entrei num
empório em Moscou no qual havia uma fila para comprar pão,
outra para a carne e outra para os demais gêneros alimentícios.
Eram filas enormes; a da carne saía para a rua. Parece que os aeroportos
do mundo inteiro adotaram a mesma estratégia: fila para o check-in,
para passar pela segurança, para o banheiro, para embarcar e até
para comprar, por preço exorbitante, um sanduíche com gosto
de isopor. A tensão da viagem já se instala na fila
do check-in, assim que o primeiro cidadão se põe a berrar
com as mocinhas do atendimento. Não se trata de ocorrência
eventual, mas obrigatória; não existe a menor possibilidade
de obter um cartão de embarque sem ouvir os desaforos em série
que os exaltados e os prepotentes costumam despejar sobre elas. Parece que a compra da passagem aérea confere ao
usuário o direito psicanalítico de descontar na funcionária
da companhia todas as humilhações que os chefes o obrigaram
a engolir, somadas às frustrações profissionais e
amorosas acumuladas pela vida inteira. Daria tudo para ver um desses arruaceiros
de balcão diante de seus superiores hierárquicos. Na fila da esteira para inspecionar a bagagem de mão
a tensão atinge o pico. A tarefa de livrar-se do computador, do
celular e dos demais objetos metálicos é feita a toque de
caixa, como se todos estivessem prestes a perder o avião. Nos países
que obrigam a descalçar os sapatos, há que tornar a calçá-los
em pé, desequilibrados, em posições bizarras. E a vergonha ao ouvir o alarme eletrônico quando
dispara ao passarmos? Todos nos olhando com ar de suspeita: seríamos
terroristas de Bin Laden ou simples idiotas com moedas nos bolsos? O tormento maior, no entanto, é o que nos aguarda
nas salas de embarque, cheias de gente mal educada que urra no celular
como se o assunto que discutem fosse do interesse de todos. Os avisos que chegam pelos alto-falantes constituem martírio
à parte. Em lugares movimentados como Congonhas ou Brasília
eles se repetem sem um minuto de interrupção. Uma sucessão
de vozes masculinas e femininas que se esgoelam nos microfones como se
não confiassem nos avanços da eletrônica. Nos concursos
de admissão, as companhias aéreas descartam os candidatos
com voz de timbre agradável? Talvez para evitar essa gritaria enlouquecedora, em Manaus
decidiram que todos os avisos seriam dados por uma única pessoa.
É uma voz de mulher, propositalmente entoada em imitação
à de uma locutora que fez carreira no aeroporto do Rio de Janeiro.
É mais exasperante ainda: melosa, sensual, proferida em tom de
cochicho no ouvido. E, pior, cada aviso é repetido em inglês
e espanhol, se é que assim podemos dizer. Uma madrugada, depois
de horas na sala de espera ouvindo os avisos ininterruptos de mulher tão
insinuante, o músico Paulo Garfunkel confessou ter ficado praticamente
apaixonado por ela. Luiz Fernando Verissimo escreveu uma crônica na qual
encontrava uma lâmpada mágica. Pediu para que sua mala fosse
a primeira a chegar na esteira rolante. O gênio achou pouco, ele
acrescentou: em todas as viagens. Lembro sempre esse desejo quando estou espremido, em disputa acirrada por uma nesga de espaço para enxergar se minha mala finalmente aparece nas esteiras ridiculamente apertadas, dos aeroportos arcaicos que funcionam como porta de entrada em nosso país.
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