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Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo, de 03/12/09 Intolerância e exclusão ROSELY SAYÃO [...] PRECISAMOS PENSAR SE QUEREMOS MANTER ESSE CLIMA DE SERVIDÃO VOLUNTÁRIA AO GRUPO A diretora de uma escola me contou um fato interessante.
No segundo semestre do ano, muitos pais visitam escolas porque terão
de matricular ou transferir o filho no próximo ano. Ela disse que
ouviu uma pergunta inédita de vários deles: "Qual o
perfil dos pais que matriculam seus filhos aqui?" Qual o intuito desses pais? Pensei que, talvez, eles buscassem
identificação, ou seja, procuravam saber se fariam parte
do grupo, se as outras famílias seriam parecidas pelo menos em
alguns pontos com eles. Essa tem sido uma característica de nosso tempo:
com tanta diversidade, buscamos o parecido, o semelhante, o quase igual
para nos juntarmos. Vemos isso pelas vestimentas, pelos modelos de carros e
celulares, pelo uso da linguagem de grupos que têm afinidades entre
si, seja pela condição econômica, seja pelo bairro
ou cidade em que moram, seja pelos locais que frequentam etc. Ora, a escola
dos filhos não iria escapar desse modo de se agrupar. Quando ouvi o relato dessa diretora, lembrei-me de outro
fato contado por uma mãe. Sua filha, de 12 anos, tivera de trocar
de escola e enfrentava dificuldades para fazer parte do grupo de meninas
de sua sala. Sabe como é, leitor: as crianças rejeitam
e excluem seus pares com facilidade, já que ainda se relacionam
de acordo com seus interesses sempre temporários e por temer a
diferença. Um dia, a filha dessa leitora chegou em casa com alguns
pedidos bem diferentes: queria trocar de relógio, cortar o cabelo,
comprar pulseiras e, inclusive, trocar os óculos de grau que usava
por lentes de contato. Depois de conversar com a filha, a mãe descobriu
que ela havia recebido das colegas de classe essas e outras instruções,
que vieram, inclusive, por escrito, que ela teria de seguir para ser aceita
pelo grupo. Para sorte dessa garota, a sua família não levou
a sério o fato e até brincou com ele, de modo que ela teve
a chance de não se sentir pressionada pelo evento. Os dois fatos, e outros que observamos ou vivemos diariamente,
me fizeram pensar no filme "A Onda", que relata uma experiência
escolar em que um professor de história implanta em sua sala um
clima inspirado no nazismo para demonstrar que ainda seria possível
isso acontecer. O problema é que ele perde o controle da situação
porque os alunos ficam absolutamente fascinados com a disciplina, com
a homogeneização e com o sentido de fraternidade que se
constrói no grupo. Com isso, os diferentes são excluídos
e ignorados. Por sinal, vale a pena assistir ao filme. Ele nos alerta principalmente a respeito do autoritarismo
dos grupos em detrimento do pensamento crítico pessoal, dos comportamentos
e atitudes diferentes da maioria e, portanto, das liberdades individuais.
Já vivemos isso na atualidade, não? A filha de nossa leitora sentiu isso na pele com apenas
12 anos. A protagonista daquele lamentável evento ocasionado por
um vestido curto e vermelho ocorrido em uma universidade também.
Hoje, os gordos -e não me refiro à obesidade mórbida-,
os que fumam, os que não praticam exercícios físicos
e que gostam de comer bem sem se preocupar com calorias e gorduras nem
com a saúde perfeita, os que não competem, os chamados "perdedores",
são excluídos dos grupos -muitas vezes, de maneira humilhante.
A intolerância ganha cada vez mais terreno. Precisamos pensar se queremos manter esse clima de servidão
voluntária ao grupo entre os mais novos ou se vamos intervir para
evitá-lo. ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)
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