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Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo, de 19/11/09 Não esquecer de exercitar o neurônio! Falhas de memória costumam ficar mais marcantes na meia-idade, mas há uma série de estratégias e hábitos para ajudar a manter vivas as lembranças IARA BIDERMAN RACHEL BOTELHO Um: as chaves de casa. Dois: o celular. Três: a agenda.
Quatro: a senha do banco. Cinco: o problema. A senha mudou e por nada
nesse mundo você consegue se lembrar da combinação
de números e letras que deve digitar. Mas lembra-se perfeitamente
bem de estar na meia-idade (mais de 40 e menos de 60 anos) e de já
ter ouvido que as perdas cognitivas começam nessa fase da vida. Isso é verdade e, mais importante, inexorável? Segundo Cathryn Jakobson Ramin, autora do livro "Esculpido
na Areia" (352 págs, R$ 49,90, ed. Objetiva), lançado
recentemente no Brasil, a perda da memória nessa fase da vida é
um fato. Ao perceber que sua memória estava falhando bem mais do
que o razoável para uma profissional ativa e que acabara de chegar
à meia-idade, a jornalista norte-americana decidiu investigar o
fato. Após saber que seus amigos também passavam pelo problema,
testou métodos e tratamentos para desenvolver essa função
cerebral. No livro, ela conta sobre a descoberta de que é possível
preservar e até resgatar a memória perdida. Para a fonoaudióloga Ana Alvarez, autora de "Deu
um Branco" (144 págs., R$ 22,90, ed. Record), entre a quarta
e a quinta década de vida a velocidade para prestar atenção,
processar informações simultâneas e acessar lembranças
diminui. "Começamos a ter uma perda da capacidade dos
órgãos de sentidos. É, por exemplo, o que ocorre
com a audição, que "perde" informações,
principalmente se há estímulos auditivos simultâneos.
O deficit no recebimento das informações resulta em menor
fixação na memória." Segundo ela, todo o processo
começa junto: a menor velocidade do processamento sensorial e a
necessidade de prestar mais atenção quando se está
recebendo informações sonoras ou visuais demanda mais esforço
para armazenar, fixar e evocar lembranças. "As funções cognitivas perdem velocidade,
o processo neural começa a não ser como antes. Mas isso
pode ser revertido: é possível criar novas conexões
neurais com exercícios específicos e medidas como garantir
a qualidade do sono", afirma Alvarez, que trabalha com reabilitação
cognitiva de pacientes em São Paulo. "O cérebro é um órgão
plástico. Se você o faz trabalhar, criam-se novas conexões
neuronais. Isso aumenta a reserva cognitiva do indivíduo, incluindo
a memória", diz Katia Osternack, neuropsicóloga e professora
da Universidade Anhembi Morumbi. Osternack afirma que, a partir dos 40
anos, já é esperada uma perda sutil da memória, mas
medidas de prevenção podem mudar esse curso. Exercícios cognitivos e físicos, aprender
coisas novas, alimentação saudável e controle do
estresse são atitudes preventivas que, segundo a neuropsicóloga,
deveriam ser tomadas durante toda a vida. Há cerca de um ano e meio, a arquiteta Cândida
Tabet, 52, percebeu que, do mesmo modo que exercita o corpo, deveria exercitar
o intelecto. "A ideia era prevenir. Quero ser dona de minha inteligência
e, para isso, percebi que devia trabalhar a atenção e a
memória." Desde então, Cândida inclui em seu dia a dia
várias atividades, que vão de jogos de computador a curso
de línguas, além de prestar mais atenção ao
sono e levar a academia a sério. "O efeito é extraordinário.
Fiquei muito mais atenta e rápida para memorizar e lembrar." Para o neurologista Martín Cammarota, um dos coordenadores
do Centro de Memória da PUC-RS, os lapsos não ocorrem somente
na maturidade, mas é nessa fase que costumam trazer mais consequências.
"Isso está relacionado ao ritmo de vida agitado e ao número
de coisas que uma pessoa dessa idade tem que fazer", afirma. "De
modo geral, o esquecimento relativo a atividades rotineiras é resultado
da falta de atenção, que está centrada em problemas
considerados fundamentais." O psiquiatra Cássio Bottino, do Instituto de Psiquiatria
do HC de São Paulo, avalia que até os 60 anos as pessoas
conseguem manter o desempenho da memória bem próximo do
que era quando jovens. "Realizamos o projeto Clínica da Memória,
aberto para pessoas a partir dos 18 anos. O que vimos é que, abaixo
dos 60, a maioria que tinha queixas sobre a memória não
tinha alterações. O que havia era muita ansiedade em relação
ao desempenho." Bottino acredita que, em geral, as dificuldades com memória
antes dos 60 anos estão relacionadas a outras causas, como depressão
ou transtornos de ansiedade, incluindo estresse. Na opinião do neurologista Cícero Galli Coimbra,
da Universidade Federal de São Paulo, a perda é "plenamente
evitável", desde que a pessoa mude sua reação
ao estresse e mantenha o cérebro em atividade. Segundo ele, o estilo de vida atual favorece o surgimento
de doenças neurodegenerativas. "O fator emocional é
o mais importante. O estresse bloqueia a produção de novos
neurônios e facilita a degeneração dos que a pessoa
já possui", justifica. Nas palavras de Cammarota, "desarranjos de ordem psíquica
se cruzam com outro de memória. Se brigou com o namorado, por exemplo,
a pessoa pode estar deprimida e não prestar atenção
a coisas de que lembraria normalmente". Ele também defende que, para a maioria das pessoas
com menos de 65 anos, a perda de memória não está
relacionada a uma doença degenerativa. "Se você não
se lembra de quem é sua mãe, eu me preocuparia, mas esquecer
a reunião é normal. Para isso, há as agendas." Bottino lembra que outras doenças, como hipotireoidismo,
podem causar problemas de memória. No caso, é preciso tratar
a doença de base. Problemas no sistema circulatório, além
de elevarem o risco de acidente vascular cerebral, também aumentam
o risco de danos cognitivos no futuro. A perda de memória associada ao envelhecimento do
tecido nervoso ocorre a partir dos 65 anos. Com essa idade, 1% da população
já apresenta demência e, a cada cinco anos, a porcentagem
duplica, segundo Coimbra. Em todos os casos, e em qualquer idade, os especialistas afirmam que o envelhecimento cerebral pode ser retardado, que é possível recuperar perdas da reserva funcional do cérebro, formar novas conexões e ter um desempenho melhor. "Cuidar do corpo como um todo, praticar atividades físicas e intelectuais estimulantes são passos fundamentais para isso", diz Bottino. Desses conselhos, é bom não se esquecer.
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