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Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo, de 19/11/09 Tempo presente ROSELY SAYÃO [...] AS CRIANÇAS DE CLASSE MÉDIA GANHAM TANTAS COISAS SEM MOTIVO ESPECIAL QUE PASSARAM A CONSIDERAR O PRESENTE ALGO TRIVIAL Já começou a temporada de consumo do fim
de ano. Os meios de comunicação informam as novidades em
eletrodomésticos e eletrônicos que serão transformados
em objetos de desejo e anunciam ofertas "imperdíveis"
e prazos de pagamento tentadores para uma diversidade enorme de produtos. Nesse período, quase todo mundo passa a pensar no
que gostaria de ganhar ou comprar para finalizar o ano com satisfação.
A frase "eu mereço" passou a ser a máxima que
nos guia nessa onda de comprar, ter, querer ter. Incrível como
o merecimento passou a ser usado para justificar a posse de bens, não
é verdade? As crianças costumam ser as grandes vítimas
do consumo exagerado. Não são elas que querem ter mais e
mais, já que os adultos entraram nessa parada pra valer, mas são
elas que estão mais sujeitas ao imperativo do ter, já que
ainda não conseguem avaliar criticamente as demandas nelas introduzidas. Perguntei a algumas delas, com idades entre seis e dez
anos, qual o último presente que ganharam. A maioria não
soube responder. Algumas citaram vários brinquedos e eletrônicos,
outras se esforçaram para lembrar, muitas ficaram na dúvida
ou não se importaram com a resposta a dar porque qualquer uma valia. Esse fato me fez pensar que a noção original
de presente perdeu totalmente o valor para grande parte das crianças
de classe média. Elas ganham tantas coisas sem motivo que passaram
a considerar o presente algo trivial. Quase uma obrigação
dos adultos para com elas. O que não pensamos ao dar tantos "presentes"
às crianças é que, assim, lhes negamos o objetivo
primordial do mimo, que é provocar a surpresa, a expectativa e
a alegria de recebê-los. Perguntei às mesmas crianças o que elas já
tinham e o que ainda não tinham em matéria de brinquedos
e aparelhos -seus novos objetos lúdicos. Muito mais fácil para elas foi listar o que queriam
ter do que nomear o que já tinham e que gostavam de usar. Mais
uma vez, é possível interpretar que a quantidade enorme
de objetos que ganham não permite que elas desfrutem do uso deles. Não é simples, para os pais, remar contra
a maré do consumismo dos filhos, já que estes sabem argumentar
quando querem algo: basta dizer que quase todos os colegas já têm
o que pedem. E os pais, sem perceber que se trata de pura competição,
atendem aos pedidos dos filhos porque creem que isso coloca seus rebentos
dentro do grupo. Não é verdade. Para os pais que querem realizar o esforço, é
bom saber que, pelo mundo todo, há movimentos sociais organizados
contra a publicidade infantil para refrear o consumismo na infância,
já que está comprovado que isso não faz bem ao desenvolvimento
das crianças. Por isso, caro leitor, antes de sair para comprar presentes
para os filhos nesse fim de ano, lembre-se que seu tempo usado no convívio
com eles é mais precioso que o dinheiro gasto para comprar coisas
que eles pensam querer. ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)
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