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Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, de 15/10/09 Apressando a vida ROSELY SAYÃO [...] O avião em que viajo finalmente pousa. Cautelosa,
espero que a aeronave pare totalmente para relaxar por saber que cheguei
sã e salva. Estou sentada numa poltrona do corredor e prefiro esperar
as portas se abrirem para levantar. Não consigo: sou atropelada
por um senhor, com terno de corte fino, que estava sentado ao lado da
janela e tem pressa. Ele nem sequer pede licença para passar ou espera
que eu me levante: simplesmente passa por cima de minhas pernas. Aguardo um pouco e, quando a fila caminha em direção
à saída, tento sair. Dura empreitada essa: ninguém
está disposto a dar passagem porque isso significa chegar atrás,
mais tarde. Segundos apenas, mas mais tarde. Encontro-me com quase todos os companheiros de viagem no
ônibus que nos leva até o saguão do aeroporto e enfrento
a mesma dificuldade para dele descer e chegar à esteira onde pegarei
minha bagagem. Estão lá, os apressados, e vão esperar
comigo a mala chegar. A pressa tomou conta de nossas vidas. Corremos desde que
acordamos. O banho é rápido -além de tudo, é
preciso economizar água e energia-, o café da manhã
é tomado com a leitura do jornal ou outra atividade qualquer, os
filhos são empurrados para o carro e, com toda a velocidade, enfrentamos
o trânsito emperrado para chegar ao nosso destino. É no trânsito, principalmente, que constatamos
a pressa de quase todos: é difícil sair da garagem, já
que poucos se dispõem a esperar alguns segundos para dar passagem.
Passar de uma pista para outra é tarefa para piloto de Fórmula
1: poucos deixam ser ultrapassados. As crianças percebem desde cedo a nossa correria
e a adotam. Quando bebês, os primeiros passos são dados apressadamente
para garantir um equilíbrio ainda em desenvolvimento. Daí
em diante, é difícil ver crianças andando: correm
sem motivo nenhum. E nós, em nossa pressa, achamos natural que
corram dentro de casa, na escola, onde as levamos. Incentivamos a corrida sem fim dos mais novos: queremos
que aprendam tudo rapidamente e cedo, de preferência sem exigir
muito de nossa parte para que não atrapalhem a nossa própria
corrida. É no futuro deles que pensamos? A justificativa que assumimos
foi essa. Mas, pensando bem, ela pode ser uma desculpa que construímos
para adequar o papel educativo ao estilo de vida corrido que adotamos.
Afinal, estimulando e empurrando os mais novos para essa corrida, tantas
vezes desrespeitamos etapas de suas vidas, ritmos pessoais etc. Aonde precisamos chegar com tanta pressa? Ao pensar nessas
questões, ocorre-me o personagem do filme "Forrest Gump",
que, em determinado momento de sua vida, decide correr. Ele simplesmente
corre: sem motivo, sem destino. Para que não façamos o mesmo, precisamos
nos perguntar diariamente: "Por que estou correndo? Será que
poderia realizar a mesma coisa com mais calma e melhor?". Desse modo,
certamente poderíamos diminuir nosso alto grau de estresse, dedicar
mais tempo aos filhos e, assim, ter uma vida melhor com e para eles. ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)
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