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Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo, de 04/10/09 Para Unesco, situação do professor é crítica Relatório aponta falhas na formação, que enfatiza pouco a relação entre teoria e prática, e falta de valorização profissional Quase a metade dos professores tem pais sem nenhuma escolaridade ou que chegaram apenas à 4ª série do ensino fundamental DA SUCURSAL DO RIO Num dos mais completos relatos já feitos sobre a situação do professor brasileiro, a Unesco aponta que a situação é bastante crítica, e não apenas por causa dos baixos salários. Além de a carreira, que emprega 2,8 milhões de pessoas no país, não ser atrativa para os jovens de maior nível socioeconômico, os alunos que ingressam em cursos de pedagogia e licenciaturas recebem uma formação que enfatiza pouco a relação entre teoria e prática. Eles se formam principalmente em instituições particulares, à noite, e poucos passam por atividades de estágio bem coordenadas antes de começarem a dar aulas. Para mostrar esse quadro complexo, as pesquisadoras da Fundação Carlos Chagas Bernadette Gatti e Elba Barretto usaram várias bases de dados sobre professores no país. Escolaridade Quase metade (50,6%) tem pais sem nenhuma escolaridade
ou que chegaram apenas à 4ª série do ensino fundamental.
Entre alunos dos cursos de medicina, por exemplo, esse percentual é
de 7,1%. Na carreira de enfermagem, a proporção é
de 37,7%. "São jovens em ascensão social, e é
preciso aproveitar o potencial deles, que buscam na universidade enriquecer
sua bagagem sociocultural. Para isso, no entanto, é fundamental
mexer nas grades curriculares dos cursos que formam professores, que deixam
muito a desejar", diz Bernadette Gatti. Para chegar a essa conclusão, o relatório
detalha uma pesquisa da Fundação Carlos Chagas, feita com
apoio da Fundação Victor Civita, que analisou a estrutura
curricular e as ementas de 165 cursos de pedagogia e licenciaturas. Num trecho do relatório, as autoras destacam que
as "ementas dos cursos frequentemente expressam preocupação
com o porquê ensinar, o que pode contribuir para evitar que conteúdos
se transformem em meros receituários, mas só de forma muito
incipiente registram o quê e como ensinar." A proporção de horas dedicadas a formação
específica, por exemplo, não passa de 30% nesses cursos. "A formação é precária, com pouca ênfase na relação entre teoria e prática. E não há acompanhamento adequado dos estágios. Fazer isso de maneira benfeita tem um custo alto, pois envolve um professor designado para acompanhar cada estudante em seu projeto. Muitas faculdades privadas não estão dispostas a arcar com isso", critica a pesquisadora. Salário Ele afirma que a dificuldade de valorizar a carreira do
magistério não é um desafio apenas do Brasil. No
entanto, na comparação com países desenvolvidos,
os rendimentos dos professores brasileiros ficam muito abaixo de seus
colegas europeus, por exemplo. "E o que agrava mais a situação
dos professores brasileiros e de outros países menos desenvolvidos
é que, na Europa, os serviços públicos de saúde
e educação são de alta qualidade, o que não
acontece no Brasil, onde parte da renda acaba sendo destinada a suprir
essa deficiência."
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