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Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, de 1°/10/09 Filho ideal x filho real ROSELY SAYÃO [...] QUANDO UMA MULHER ENGRAVIDA, GERA DENTRO DE SI UM FILHO QUE, NO ENTANTO, JÁ FOI GERADO EM SUA IMAGINAÇÃO Sara é casada com Brian e tem dois filhos: Kate
e Jesse. Aos dois anos, Kate é diagnosticada com leucemia e, a
partir de então, sua mãe dedica a vida a salvá-la.
Recorre até à fertilização assistida para
dar à luz um filho que possa doar-lhe sangue, líquido de
medula e órgãos. É assim que nasce Anna, a caçula, que passa
sua vida em hospitais ao lado de Kate, pelo menos até os 11 anos.
Na entrada da adolescência, decide ter o controle sobre seu corpo
e recorre a um advogado para obter o que chama de emancipação
médica em relação a seus pais. Passa, assim, a travar uma batalha contra sua mãe.
Essa é a trama central do filme "Prova de Amor", em cartaz
nos cinemas. Esse filme pode ser visto de formas diferentes. Podemos
ver, por exemplo, em meio aos inúmeros dramas familiares, o acontecimento
de uma tragédia que transforma a vida de todos os envolvidos e
do grupo. Mas também é possível vê-lo
como uma narrativa que conta parte da história de todos nós. Quando uma mulher engravida, gera dentro de si um filho
que, no entanto, já é gerado há muito mais tempo
em sua imaginação. Assim que o filho real nasce, mãe
e pai passam a travar uma dura batalha entre seus dois filhos: o real
e o ideal. Tal batalha é cotidiana porque é preciso
renunciar ao filho ideal para que possam exercer o papel de mãe
e de pai do filho que nasceu. Nem sempre é possível perceber
o quanto a imagem acalentada do filho ideal impede que os pais enxerguem
o filho real com suas características e dificuldades, seus limites
e suas potencialidades, suas demandas e necessidades, mas isso acontece
muito. Sara não consegue ouvir Kate porque está
totalmente empenhada em fazer com que a filha que tem sobreviva à
doença, mas Kate não é essa filha. Sara não
consegue conviver com o problema que Jesse apresenta na escola, por isso
o envia por um ano para uma escola especializada para que lá encontrem
uma solução. Sara não percebe que exige demais de Anna. Sara
nem sequer percebe a relação intensamente fraterna que há
entre os três irmãos, tão mergulhada que está
em si mesma. Brian, por sua vez, é capaz de, muitas vezes, ver
e ouvir cada um de seus filhos. Ele poderia intervir para colocar sua
mulher em seu lugar para ceder espaço às vidas das crianças,
mas escolhe se omitir perante a força de luta da mulher para evitar
conflitos, para tentar manter sua família "equilibrada".
Mas tudo o que consegue é se ausentar de seu papel de pai. Há muito de Sara, por exemplo, nas mães que
não aceitam que seus filhos tirem nota baixa na escola e que, para
evitar isso, recorrem a toda sorte de estratégias -de contratar
especialistas a estudar e fazer os deveres diariamente com o filho. Há
muito de Brian nos pais que justificam a forte presença da mãe
na vida dos filhos como impedimento para o exercício responsável
da paternidade. Temos pressionado em demasia nossas crianças e nossos
jovens e ouvido e olhado pouco para eles. Precisamos inverter essa equação
para que possamos nos tornar pais e mães melhores do que temos
sido.
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