Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo, de 24/09/09

Privacidade escancarada

ROSELY SAYÃO

[...] AS CRIANÇAS TÊM REPRODUZIDO ESSA FALTA DE LIMITES NA ESCOLA; CONSIDERAM AMIGOS OS COLEGAS COM QUEM MAIS TÊM AFINIDADE

A frase "criança precisa de limites" escorre pela boca de muita gente. Tenha você filhos ou não, conviva com crianças ou viva bem longe delas, certamente já ouviu alguém pronunciá-la com ar de sabedoria ou teve vontade de dizê-la.

Espero que tenha se contido porque ela não significa boa coisa. Dita assim, parece que consideramos os limites algo importante para os mais novos, mas que, infelizmente, não tivemos como lhes oferecer.

Pois essa pode ser uma parte da nossa realidade. Consideremos, por exemplo, a fronteira -o limite!- entre o público e o privado, entre o que é da ordem da intimidade e o que pode ser partilhado no convívio social.

No mundo adulto, essa fronteira parece ter quase se dissipado e o modo como usamos o telefone celular evidencia isso.

Todo assunto é conversado na presença de qualquer pessoa e o tom de nossa voz não demonstra que queremos deixar nossos assuntos protegidos de estranhos. Brigas com cônjuges, comentários sobre um amigo, nossos percalços financeiros, tudo é tratado no trabalho, no restaurante, no bar.

Além disso, não há distinção entre vida profissional e pessoal, já que ambas estão sempre se atravessando: fala-se com os filhos no trabalho, trata-se de trabalho no convívio familiar.

Pois bem: as crianças têm reproduzido muito bem essa falta de limites. Na escola, que é onde começam a aprender a viver a vida pública, consideram amigos os colegas com quem mais têm afinidade -sempre temporária, é bom lembrar. E toda sorte do que consideram segredo de suas vidas compartilham com os mesmos. Fatos que acontecem com os pais, o que pensam e sentem, atos que cometeram, eles contam tudo.

Na primeira oportunidade, arrependem-se fortemente do que fizeram porque os segredos passam a ser usados como moedas de troca para pequenas chantagens, são divulgados em atos de represália, servem de motivo para chacotas etc. Mesmo assim, sozinhas, as crianças não conseguem aprender a distinguir colega de amigo, assunto íntimo de assunto social.

Outra evidência de que não sabem nem conseguem proteger sua intimidade de estranhos é quando usam a internet. Confiam rapidamente nas pessoas com quem conversam, publicam experiências muito pessoais na ingênua crença de que apenas quem eles conhecem e querem bem terão acesso, distribuem comentários que deveriam ser feitos a poucos, escrevem seu diário, expõem-se.

Em geral, quando a criança usa a internet, sente-se segura e protegida porque está em sua casa, e isso ajuda a perder a noção de que um pequeno artefato tecnológico a conecta ao mundo todo. Assim, ela constrói a ilusão de que nada do que escreve ou nenhuma imagem que publica será acessada por quem não gosta ou mesmo para ser usada contra ela. Muitas já sofreram experiências dolorosas e pouco aprenderam. É principalmente por isso que as crianças precisam de tutela adulta quando usam a rede.

Se queremos que os mais novos tenham uma vida melhor do que a nossa, precisamos lhes ensinar que é possível e desejável construir uma intimidade e que amigos temos poucos, enquanto os colegas são muitos.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)

 

Decálogo
a ser seguido pelos gestores para a solução dos problemas de infra-estrutura das Escolas Públicas Estaduais


1
Se não houver merendeira na escola,
não será fornecida a merenda;

2
Se não houver pessoa responsável pela Biblioteca, ela permanecerá fechada;

3
Se não houver escriturários e secretário,
de acordo com o módulo, não haverá entrega de documentos na DE;

4
Se não houver verba para compra
de material e manutenção da sala de informática, o local não será utilizado;

5
Se não houver recursos para reparos e vazamentos no prédio escolar,
não haverá consertos;

6

Se não houver recursos para pintura do prédio, o prédio não será pintado;

7

Se não houver verba para a contratação de contador para as escolas, não haverá prestação de contas à FDE;

8
Se não houver verba suficiente para a contratação de funcionários pela CLT,
o dinheiro será devolvido;

9
Se a mão-de-obra provisória
não for qualificada, será recusada;

10
Se as festas não tiverem o objetivo de integrar a escola à comunidade, não serão realizadas

A nossa escola é, por previsão constitucional, pública e gratuita. Portanto, ela tem de ser custeada pelos cofres públicos. Todas as omissões do Estado, com relação aos itens acima, deverão ser objetos de ofícios da direção às Diretorias Regionais de Ensino, a fim de isentarem o diretor de eventuais responsabilidades administrativas.
Toda e qualquer ameaça de punição aos diretores associados da Udemo, por tomarem aquelas atitudes, será objeto de defesa jurídica por parte do Sindicato, seguida de denúncia ao Ministério Público e propositura de Ações Civis Públicas contra o Estado, pelo não cumprimento das suas obrigações para com as unidades escolares e pelos prejuízos causados à comunidade escolar.