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Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo, de 17/09/09 Paciência em falta ROSELY SAYÃO [...] OS PAIS TÊM POUCA PACIÊNCIA COM AS MANIFESTAÇÕES DA CRIANÇA, COM O CRESCIMENTO DO FILHO A ideia de ter filhos hoje é absolutamente sedutora.
Tornar-se mãe ou pai é um fato que nunca pareceu tão
importante porque é visto como modo de se realizar, de se completar,
de cumprir uma missão importante. Não é à
toa que tantas mulheres recorrem a procedimentos médicos diversos
para conseguir engravidar. Definitivamente, consumimos a ideia de que
ter filhos é fundamental. O período de gestação é cercado
de acontecimentos que se parecem com pequenas festas para os futuros pais.
Compras dos mais variados tipos, durante meses consecutivos, são
consideradas indispensáveis: além do enxoval para o bebê,
há as vestimentas para a futura mãe, que, em geral, não
vê a hora de exibir sua condição. Aliás, um bom exemplo de como exibir a gravidez
é tão importante quanto estar grávida são
as entrevistas, as fotos e o modo de se apresentar de artistas que esperam
um filho. Além das compras, são contratados vários
prestadores de serviços e um aparato médico-hospitalar que
inclui muitos exames -e não me refiro aqui ao essencial, que constitui
o pré-natal. Depois do nascimento, a cortina desce progressiva e vagarosamente
e o clima de festividade cede espaço à realidade: ter filhos,
o que exige cuidar deles e educá-los, dá trabalho. Um trabalhão,
por sinal. Nos primeiros anos, são noites maldormidas, trabalho
braçal árduo, atenção constante e o contato
com um universo radicalmente diferente do nosso: o mundo da imaginação
e da fantasia. Além disso, ensinar a criança a estar com
os outros não é tarefa simples porque os pequenos não
se controlam e, portanto, por mais que entendam as ordens e orientações
dos pais, precisam ser seguidos de perto e contidos sempre. Na segunda parte da infância, os pais precisam começar
a exercitar o desprendimento em relação aos filhos, já
que eles precisam crescer e a vida escolar é o campo onde isso
ocorre de modo privilegiado. Na adolescência, os pais são
testados continuamente e não podem abandonar seu papel até
que o filho amadureça, de preferência como uma pessoa de
bem, para viver por conta própria. Todo esse processo exige, mais do que qualquer outra coisa,
muita paciência. Aliás, creio que essa seja a virtude mais
necessária a quem tem filhos. E, do mesmo modo, a que tem estado
mais em falta atualmente. Os pais têm tido pouca paciência
com as manifestações próprias da criança pequena,
com o crescimento do filho -que tem um ritmo próprio-, com as contestações
dos adolescentes. Acreditam que os filhos os fazem insistir demais nas
mesmas coisas. Pois os pais precisam saber que, por mais ou menos 18 anos,
irão repetir as mesmas coisas. "Ainda não" e "agora
chega" condensam as mais importantes repetições; mudam
apenas os conteúdos delas, de acordo com a idade dos filhos. Os pais não podem dizer que não têm paciência no exercício de seu papel. Quem tem filhos precisa desenvolver essa virtude a qualquer preço. Sem ela, os mais novos ficam na situação de órfãos de pais vivos. ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha) roselysayao@uol.com.br
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