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Matéria
publicada no jornal Folha de São Paulo, de 10/09/2009 Monitores da alegria Anna Veronica Mautner [...] PARA REAPRENDER A BRINCAR, APARECERAM OS MONITORES; PARA OS ADULTOS SE ALEGRAREM OS ORGANIZADORES DE EVENTOS Parece-me que há uma incapacitação
crescente para as pessoas se divertirem, especialmente as crianças.
Divertir-se é estar com o outro em um mesmo som, tom, timbre. Uma
explosão de palmas ou vaias é sinal de que estamos juntos.
Rareiam cada vez mais os eventos nos quais várias gerações
divertem-se juntas. Restaram os grandes momentos: Natal, Páscoa,
Carnaval. Nessas datas comemorativas, gerações se juntam
para manter a unidade do grupo e ir construindo uma memória coletiva. Trata-se de rituais identificatórios que permitem
a dissolução de algumas diferenças. Aniversários
de nascimento e casamentos são datas singulares, individuais. Rituais
festivos funcionam como pontes unindo gêneros, classes, nacionalidades,
gerações. Cada festa tem seu rito, cada família o
individualiza a seu modo. Até pouco tempo, a família, a
comunidade, conseguia se alegrar junta e segundo sua própria tradição.
Muita coisa mudou. Agora cabe aos organizadores de eventos -um novo ofício-
gerar condições de entretenimento e diversão, acender
a alegria. Contratar um especialista em eventos para divertir, brincar,
animar uma festa é uma declaração de falência
na arte de comunicar a cultura. Não me parece que a incompetência de ensinar
as crianças a brincar e festejar seja só da família
e dos professores. A geografia dos lares e das cidades é tão
diferente hoje que os rituais tiveram que mudar. Focando a infância,
não há mais terra de ninguém onde as crianças
possam inventar jogos e brincadeiras sem correr perigo. A rua ficou perigosa
e os campinhos, que eram terrenos baldios, não existem mais. Vivemos uma falta de espaço vital para o contato
das crianças entre si. Nas poucas áreas livres que subsistem,
há excesso de perigo. Conforme falta lugar, as brincadeiras mudam
-e não adianta reclamar do apego das crianças à tecnologia.
Em alguns conjuntos habitacionais, há o playground. Mas, mesmo
lá, a criança não é bem livre. O campinho
e a rua eram espaços de liberdade; já os parques, sempre
foram monitorados. Não se podia brincar de pega-pega para não
tropeçar nos que estavam brincando de estátua ou jogando
bola. O campinho, o quintal e a rua eram o paraíso. Como soltar
pipa em São Paulo, com toda a fiação elétrica
no ar e os carros no chão? Para reaprender a brincar, apareceram
os monitores; para os adultos se alegrarem, o organizador de eventos.
Ao chegar a um hotel-fazenda, as crianças não permanecem
tempo suficiente para se redescobrirem no espaço não monitorado.
E aí entram os novos especialistas, que orientam crianças,
jovens e adultos a se entreterem. Os pais não detêm o segredo do alegrar na nova distribuição de espaço. Os quintais são pequenos, a rua é perigosa, os parques, para o bem comum, estão cheios de plaquinhas do que se pode e do que não se pode fazer. Bem-vindas as novas profissões que mantêm a velha brincadeira possível e criam novas. Vivemos o nascimento de uma nova cultura. ANNA VERONICA MAUTNER, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Cotidiano nas Entrelinhas" (ed. Ágora)
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