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Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo, de 03/09/09 A difícil arte de ser criança ROSELY SAYÃO Um colega, professor
universitário, disse que não gostaria de ser jovem no mundo
de hoje. Penso sempre nisso e concordo com ele. Agora, tenho a mesma maneira
de pensar a respeito da criança. Como é difícil ser
criança no mundo em que vivemos! Nos primeiros anos
de vida, quando deveria ser livre para brincar, para se relacionar com
outras crianças -não necessariamente da mesma idade-, para
explorar o mundo com liberdade, sem hora marcada e roteiro preestabelecido,
ela precisa bancar uma vida ao modo do adulto e do que ela deverá
se tornar no futuro. Menores de seis anos
têm agenda apertada a cumprir, obrigações dos mais
variados tipos, preocupações dignas de adultos, escolarização
precoce e tudo o mais. Pouco resta de tempo que possa ser usado para a
coisa mais importante desse período: brincar sem compromisso. Não
há espaço na vida delas para o ócio, veja só. Depois dos seis anos,
mais ou menos, a criança deveria se desenvolver: passar, progressivamente,
a se responsabilizar por suas coisas, assumir compromissos, encontrar
soluções para situações problemáticas
próprias de sua vida, aprender. É o tempo de crescer, que
coincide com o início do árduo aprendizado da leitura, da
escrita e da aritmética. A vida na escola, que nesse momento representa
o mundo para a criança, é, portanto, a situação
privilegiada para que ela cresça. E não é que muitos
pais têm atrapalhado os filhos em seu crescimento e, portanto, não
têm deixado que isso ocorra? Esses pais têm
o que julgam ser um bom motivo: protegê-los de injustiças,
sofrimentos, frustrações e problemas. Na verdade, impedem
que eles cresçam. Crescer dói e, portanto, certos sofrimentos
são inevitáveis. Há pais que
reclamam dos professores de seus filhos, por exemplo. Ora são considerados
bravos em demasia, ora injustos em suas atitudes, ora rigorosos ou exigentes
além da conta. Acontece que a criança dessa idade precisa
aprender a lidar com as incompreensões do mundo, com as pequenas
injustiças, com as exigências e cobranças a ela dirigidas,
entre outras coisas. Crescer supõe construir mecanismos para fazer
frente a essas situações. Lembro-me de um trecho
de um livro de Françoise Dolto -transcrição de um
programa de rádio em que respondia a pais aflitos- em que a psicanalista
sugeriu que a mãe, cujo filho se recusava a ir para a escola porque
a professora era muito brava, dissesse a ele que, se a professora ensinava,
não tinha importância se era brava. Esse é um modo
de dizer que o filho não pode se recusar a crescer, que esse é
seu destino. Há pais que
não querem que filhos dessa idade enfrentem dissabores e arquem
com as consequências de seus atos. Permitem que drible os colegas
ou a escola quando precisam prestar contas de alguma atitude ou dever.
Há os que aceitam desculpas esfarrapadas para os mesmos erros repetidas
vezes. Precisamos ajudar essas crianças a crescer, a seguir em frente. Caso contrário, estaremos plantando um futuro infantilizado em suas vidas. ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)
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