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Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, de 23/08/09 Se você estiver com dor de dente GILBERTO DIMENSTEIN
Qual a chance de passar do primeiro parágrafo? Pergunta um tanto estúpida-provavelmente, nenhuma ESSA É UMA
das notícias mais devastadoras para o Brasil. Entre fevereiro e
julho deste ano, dez equipes de pediatria e 15 de saúde bucal examinaram
119.850 alunos de escolas públicas e descobriram que a maioria
deles tinha pelo menos um problema capaz de dificultar o aprendizado. O documento, inédito,
é mais grave de que parece. Os exames ocorreram apenas em crianças
da cidade de São Paulo. Imagine o resto do país. É,
de longe, um dos maiores escândalos de saúde dos brasileiros. Suponha que, ao começar
a ler esta coluna, você seja acometido subitamente de uma dor de
dente. Os dados são
baseados em relatório, ainda reservado, do programa "Aprendendo
com a Saúde", realizado na cidade de São Paulo, onde
médicos e dentistas passam pelas escolas e fazem os encaminhamentos
para a rede de saúde. Dos examinados, 7%
foram encaminhados para psicólogos, por demonstrarem distúrbios
de comportamento; 12%, a fonoaudiólogos; 15%, a oftalmologistas;
18%, a otorrinos; 13%, a endocrinologistas. É gente que não
enxerga, fala, ouve ou respira direito -além de sofrer com sobrepeso
ou desnutrição. Criador de uma rede
de dentistas que atende gratuitamente, Fábio Bibancos constata
que, com a questão bucal, aparecem problemas da fala, audição,
digestão e autoestima, que se traduzem em notas ruins, evasão,
indisciplina, violência. Daí ele defender que pasta de dente
e escova seja entregue em posto de saúde - assim como a camisinha. Bibancos aprendeu
como muitos de seus pacientes ficam curvados por causa da boca: "Eles
sempre ficam olhando para baixo, não querem encarar as pessoas,
com vergonha dos dentes, e a postura, com o tempo, vai mudando." Já existem
algumas iniciativas (os programas federais Saúde na Escola e Brasil
Sorridente, por exemplo), mas são tímidas para o tamanho
da tragédia. Mesmo quando há recursos, existem desperdícios.
O governo federal enviou para as prefeituras kits para exames médicos,
mas muitos prefeitos deixaram o material fechado. O projeto "Aprendendo
com a Saúde", de São Paulo, é considerado um
modelo, por fazer o exame e, ato contínuo, o encaminhamento, o
que exigiu a montagem de um cadastro especial -aliás, considero
a iniciativa mais inovadora de toda a gestão Kassab. Mas, por enquanto,
limitada aos alunos da pré-escola. Há uma crescente
convergência no país sobre o que fazer para melhorar a educação:
formar os professores e melhorar seus salários, premiar o mérito,
treinar os diretores em gestão, aproximar o currículo do
cotidiano, envolver pais e comunidade, trabalhar com metas, aprimorar
as avaliações, estimular a leitura o mais cedo possível,
aumentar a jornada de trabalho, oferecer reforços permanentes etc. Um sinal da nossa
ignorância coletiva é a saúde mental e psicológica
dos estudantes nem remotamente estar incluída no topo dessa agenda. Seria muito mais eficiente
(e justo) avaliar antes a saúde das crianças e dos adolescentes
do que o que eles sabem de português e matemática. Não é
á toa que tantos professores ficam tão doentes. Ou você acha
que o leitor com dor de dente conseguiu chegar até o final desta
coluna? PS - A Secretaria
da Saúde da cidade de São Paulo está preparando uma
medida que vai dar polêmica. Além de construir
centros odontológicos (as prometidas AMAs Sorriso, cuja versão
federal são os Centros de Especialidades Odontológicas),
é preciso credenciar dentistas privados que prestariam serviços
em seus consultórios. Um mapeamento mostrou que, em todas as regiões da cidade, existem dentistas. Coloquei em meu site (www.dimenstein.com.br) mais detalhes sobre os exames médicos nas escolas de São Paulo
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