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Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo, de 18/08/09 A pedagogia é uma jabuticaba? JOÃO BATISTA ARAUJO E OLIVEIRA A escola pode mudar a vida das populações mais pobres, mas essa é ainda uma realidade de poucos países. Qual o segredo?
O Brasil recebe, agora em agosto, um expert internacional
para discutir com nossos especialistas a importância da pedagogia.
Trata-se do professor Martin Carnoy, que, sob o patrocínio da Fundação
Lemann, lança aqui o livro "A Vantagem Acadêmica de
Cuba", em que compara a eficácia do ensino naquele país
com a ineficácia de Chile e Brasil. Também em agosto um ciclo de seminários trará
a seis capitais do país renomados especialistas como Clermont Gauthier
(Universidade de Laval, Canadá), Roger Beard (Universidade de Londres),
José Morais (Universidade de Bruxelas) e Nuno Crato (Academia Portuguesa
de Matemática) para debater as pedagogias eficazes. O tema volta
à cena e é um convite à reflexão. Quem faz diferença, professor ou pedagogia? A resposta:
os dois. A pedagogia sozinha não faz nada. O professor sem pedagogia
também não. Bom professor é o que usa as pedagogias
adequadas. Resta saber quais são essas pedagogias adequadas. Nos últimos 30 anos, os tigres asiáticos
e os países desenvolvidos descobriram que a qualidade da educação
é o seu trunfo na economia global. Isso tem suscitado inúmeros
avanços no conhecimento sobre o que funciona em educação.
Métodos de pesquisa mais rigorosos têm propiciado conhecimentos
cada vez mais consistentes e seguros nesse campo. O que não funciona é quase tudo o que se
apregoa nas faculdades de educação brasileiras. Os resultados
disso são conhecidos. Confundimos pedagogia tradicional com tradição
pedagógica e, usando esse pretexto, praticamente abolimos as pedagogias
eficazes da sala de aula. Mas, afinal, o que funciona? Quais as pedagogias eficazes?
O leitor vai se surpreender com a falta de novidades. Primeiro, precisamos ter objetivos claros sobre o que ensinar.
Antigamente isso se chamava programa de ensino. Nos países desenvolvidos
ainda responde por esse nome. Segundo, devemos ter metas ambiciosas, estabelecidas por
escolas e professores. Nos países da OCDE, mais de 80% dos alunos
atingem as metas mínimas ao final do ensino fundamental. Terceiro, o ensino deve ser organizado, o professor apresenta
a matéria, explica, serve de modelo, dá exemplos, interage
com os alunos. Revisões e a avaliação são
frequentes -normalmente é semanal, no máximo, mensal. O
dever de casa é regular -de todas, essa é a pedagogia mais
eficaz. O resto são detalhes específicos de determinadas
disciplinas. Alguns exemplos: o currículo em espiral, que repete
um pouco de tudo a cada ano, pode ser eficaz no ensino da língua,
mas é comprovadamente desastroso em matemática: é
preciso saber diminuir antes de aprender a dividir, por exemplo. A contextualização
excessiva em matemática, que pode servir para motivar, dificulta
o processo de transferência de aprendizagem: o ensino mais eficaz
é o que leva rapidamente à abstração. A superaprendizagem é fundamental -por isso os bons
alunos sabem a tabuada de cor e resolvem muitos problemas. Em ciências, a aprendizagem sólida dos conceitos
e a capacidade de relacioná-los são mais importantes do
que usar ou não laboratórios ou atividades práticas. Saber fazer perguntas é mais significativo do que
conhecer a resposta correta, mas fazer boas perguntas exige capacidade
de observar e a orientação sobre o que e como observar. Na alfabetização, métodos fônicos
são superiores aos demais. Na leitura, é essencial adquirir
e desenvolver fluência para poder compreender o que se lê.
Dominar a ortografia e a sintaxe libera o cérebro para cuidar do
sentido do que se escreve. No ensino da língua, o ensino da gramática
no contexto da sintaxe da frase é mais eficaz do que o ensino de
regras de aplicação genérica. E por aí vai. Nada disso, é claro, funciona sem um professor que
conheça o conteúdo, tenha o domínio da turma e a
capacidade de ensinar de maneira organizada. Assegurado o conhecimento
do conteúdo, o professor é tão bom quanto os métodos
pedagógicos que domina. Portanto, o resgate do professor passa,
necessariamente, pelo resgate da tradição pedagógica. A evidência científica em todas as áreas
de ensino é francamente favorável ao modelo instrutivista
em contraposição ao modelo construtivista. JOÃO BATISTA ARAUJO E OLIVEIRA, 62, psicólogo, doutor em educação, é presidente do Instituto Alfa e Beto. Foi secretário-executivo do Ministério da Educação (1995).
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