|
||
|
Estranhar é preciso ANNA VERONICA MAUTNER [...] VOLTANDO À ADAPTAÇÃO À ESCOLA, POR QUE NÃO DEIXAR A CRIANÇA ESTRANHAR AQUILO QUE DE FATO É ESTRANHO? Sou do tempo em que formava-se opinião sem fazer
pesquisa e sem estatísticas, com base no bate-papo e na reflexão.
Quero refletir sobre o fato de não deixarem a criança estranhar
algo novo. Como se pode crescer sem entrar em contato com fatos, pessoas
ou objetos desconhecidos? Impossível. No afã de evitar que os filhos estranhem, pais vivem
preparando-lhes o espírito. Quando vão a um lugar novo,
descrevem o que virá. Por quê? Será que toda novidade
é ruim e não pode vir de supetão? Essa atitude diz
que estranhar é ruim e que, por isso, as pessoas devem se antecipar
a todo o novo. Aliás, se os adultos tornam tudo previsível,
não há por que ser curioso, observar e até bisbilhotar.
E, sem curiosidade, o mundo não iria para a frente, não
haveria progresso. Tudo isso foi uma introdução para tentar
entender a semana de adaptação à escola. Se o espírito
tem que ser preparado, se a mãe não deve se ausentar dos
primeiros contatos, boa coisa essa tal de escola não deve ser. Introduzindo a adaptação quase como regra,
estamos dizendo ao filho que ele vai ser submetido a uma experiência
necessária e que vamos estar ali para ajudar. Se temos certeza
de que lá é bom, para que ficar ao lado? Por que não
deixá-lo descobrir por si mesmo? Criança manhosa, grudada na mãe, chora nos
primeiros dias de aula desde que o mundo é mundo. Por isso virá
a ser má ou boa aluna? E as crianças mais descoladas, que
já entram correndo no pátio e que dispensam adaptação,
vão ter desempenho melhor na vida escolar? Estou pensando sem pesquisas nem provas. Penso que a "adaptação"
é uma confissão de insegurança de pais e mestres,
não das crianças. A escola é mais uma adaptação
a coisas estranhas na vida de uma criança. Ela já largou
o seio, teve que aguentar o gosto do sal... Muita coisa tem uma primeira
vez, e a criança já deu conta de outras. Voltando à adaptação à escola,
por que não deixar a criança estranhar aquilo que de fato
é estranho? Atrás dos portões da escola ocorre uma
grande mudança. É a saída oficial do mundo do afeto
para o mundo da sociedade civil, da regra social. Não é mais a vontade de pais e parentes que
rege o comportamento. Não minimizo a importância desse passo
nem sua dificuldade. Mas, se acreditarmos que ele não só
é necessário como bom, parte da evolução da
vida, por que a mãe tem que fazer a adaptação? Pelo portão da escola entram diferentes crianças que, é claro, sentem esse passo de forma diferente. Que tal pararmos de espiá-las ao entrarem nesse novo mundo? Em algum momento, elas vão ter que estranhar do jeito delas, sem testemunhas e sem colo. O primeiro dia de aula pode ser esse momento. Estranhar é preciso. ANNA VERONICA MAUTNER, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Cotidiano nas Entrelinhas" (ed. Ágora)
|
|
|
|
||