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Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, de 16/11/08 As filhas de Obama e o professor de rua GILBERTO DIMENSTEIN A magia está em converter a rua, com seus encantos, numa aventura do conhecimento e, assim, fazê-la entrar na escola NUM GESTO de desespero, a Prefeitura de Washington começou
a oferecer, neste semestre, R$ 400 mensais para os estudantes de escolas
públicas que se comportarem bem e tirarem boas notas. Essa "bolsa
disciplina" dá uma pista da dificuldade de Barack Obama em
aceitar as pressões para que matricule suas duas filhas na rede
de ensino municipal de Washington -conhecida por suas notas baixas, pelas
drogas e pela violência. Imagina-se que o exemplo de Obama em matricular suas próprias
filhas numa escola pública mostraria ao país um futuro presidente
extremamente comprometido com a qualidade da educação. Talvez
seja esse um certeiro lance de marketing, mas dificilmente ajudaria o
desempenho das duas garotas. Apenas a metade dos matriculados no ensino
médio consegue tirar o diploma -e, a maior parte, apresenta desempenho
muito ruim. A opção pelo pagamento por bom comportamento
só veio depois de inúmeras experiências fracassarem.
Além dos mais diferentes projetos sociais bancados pela comunidade,
os alunos estudam em período integral e custam ao governo, mensalmente,
mais do que custa um aluno o ano todo para a rede pública brasileira.
Aliás, um único mês de "bolsa disciplina"
significa mais de dois meses de tudo o que se gasta com nosso estudante
de escola pública. O dilema da família Obama mostra a complexidade
do enfrentamento contra a violência em geral, e nas escolas, em
particular. Esse tema voltou à pauta na semana passada, com a depredação
de uma escola pública na zona leste de São Paulo. A barbárie na zona leste ganhou as manchetes porque
os estragos foram concentrados num único local. Mas sabemos que
as depredações ocorrem todos os dias, em meio a um ambiente
crônico de selvageria. Nas regiões metropolitanas, pior do
que a questão salarial e a falta de infra-estrutura, o que de fato
incomoda os professores é a agressividade dos alunos -isso explica,
em boa parte, porque os professores contraem tantas doenças associadas
ao estresse. Cria-se um círculo vicioso: o aluno ataca a escola
e atinge o professor. Esse, por sua vez, ataca a escola e o aluno se sente
atacado. A depredação na zona leste sintetiza a falta
de perspectiva dos jovens das grandes cidades, especialmente em regiões
metropolitanas. No entanto, já sabemos que a solução
existe em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. No mês passado, visitei uma escola pública
em Recife (Cícero Dias), onde uma parte do currículo, bancado
pela iniciativa privada, é voltado a mídias digitais. Testemunhei
a compenetração dos estudantes aprendendo a fazer jogos
no computador. Uma experiência semelhante, e com bons resultados,
começou a ser aplicada neste ano numa escola pública do
Rio (Leite Lopes). Em Praia Grande, no litoral de São Paulo, criou-se
a figura do pedagogo comunitário, que visita as famílias
e ensina a usar os mais diferentes espaços para o aprendizado.
Aos domingos, por exemplo, eles ficam numa praça lendo livros para
quem aparecer. Além de melhorar o interesse pela leitura, caíram
a evasão e a repetência escolar. É exatamente o que
se vê num projeto lançado em Belo Horizonte, já citado
nesta coluna, em que universitários dos mais diferentes cursos
auxiliam, diariamente, a rede municipal. Na violenta Nova Iguaçu
(RJ), os alunos das escolas que recebem treinamento específico
para saber criar laços com seu entorno, envolvendo a família,
são mais disciplinados. Desenvolvem-se ali programas para melhorar
as habilidades de comunicação e alguns dos estudantes produzem
vinhetas para a TV Globo. Essas experiências são diferentes modalidades
de arranjo educativo local -ajudam a tirar o professor do isolamento,
dando-lhe novos parceiros. O interesse do aluno é despertado quando,
em vez das aulas discursivas, são oferecidas oportunidades de expressão,
como os jogos digitais do Recife ou a leitura nas praças de Praia
Grande. Em essência, o que se cria é um novo tipo de professor
que combina com uma nova cidade -o professor de rua. A magia está em converter a rua, com seus encantos,
numa aventura do conhecimento e, assim, fazê-la entrar na escola. Evidentemente, não é fácil. A prova
está na capital da nação mais poderosa do mundo.
Parece mais fácil um negro comandar a Casa Branca do que as filhas
de um presidente estudarem numa escola pública de Washington.
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