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Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, de 14/11/08 Escola do crime BARBARA GANCIA É melhor declarar a falência do ensino público e lacrar de vez os portões de todas as escolas do Estado de São Paulo A PESQUISA SOBRE violência nas escolas públicas
feita pela Udemo (Sindicato de Especialistas de Educação
do Magistério Oficial do Estado de SP) de que falou ontem este
caderno Cotidiano deveria ter feito pais, professores e administradores
públicos passarem a noite em claro. Os números são coisa de filme de terror.
À pergunta "a escola sofreu algum tipo de violência
em 2007?", 86% dos entrevistados responderam sim. Mais da metade
das escolas já foi vítima de depredação, pichação
ou dano a veículo de professor e, em 38% dos locais avaliados,
houve registros de explosão de bombas. Brigas envolvendo agressão física entre estudantes
ocorreram em 85% das instituições, e o desacato a mestres,
funcionários ou à direção, em nada menos do
que 88% das escolas. Ou seja, de cada dez escolas consultadas, pouco mais
de uma parece estar conseguindo manter a ordem. Não sou lá grande intérprete de estatísticas,
mas se os números são realmente esses, a menos que os professores
sejam todos uns chorões -o que não parece ser o caso-, é
melhor declarar a falência do ensino público e lacrar de
vez os portões de todas as escolas do Estado de SP. A Secretaria Estadual da Educação classificou
de "caso atípico" a ocorrência policial na escola
Amadeu Amaral, no bairro do Belém, na zona leste, em que uma briga
entre duas alunas serviu de estopim para o caos e a destruição
da escola promovidos por 30 alunos. Gostaria de saber o que pensam os mestres e funcionários
de outras escolas públicas, obrigados a enfrentar as bestas-feras
todos os dias, sobre a "atipicidade" do ocorrido. A baderna que se viu na Amadeu Amaral é o tipo de
insubordinação que se vê diariamente. E que simplesmente
reflete o que acontece do lado de fora da instituição de
ensino. A classe média não está minimamente interessada
no assunto, mas a confusão foi promovida por jovens que se acostumaram
a resolver contendas "no braço" com pais, professores,
amigos e vizinhos. Eles não são melhores nem piores do que os
adolescentes que vieram antes deles. Apenas imitam o comportamento que
vêem ao seu redor, tomando para si o mesmo código de sobrevivência
que vigora em todas as comunidades carentes em que a lei não se
faz presente. Acertar contas ameaçando "furar" ou "encher
de pipôco" pode não ser ocorrência comum entre
os freqüentadores dos shopping centers, mas é conversa corriqueira
nos bairros das periferias. E não é papo exclusivo dos meninos, não.
Todo mundo é obrigado a ser durão, quem piscar primeiro
leva. É o faroeste, e ele está bem aí ao seu lado. Junte a isso pais que, mesmo tendo pouco, mimam sempre
que lhes é dada a oportunidade, a figura paterna ausente, o comércio
de drogas na porta de casa e a abundante oferta de armas de fogo, e você
terá o ambiente que essa criançada encontra quando volta
da escola. Esperar que, diante da autoridade do professor, eles se transformem em cordeirinhos é não enxergar que temos em mãos uma geração que se perdeu. Mas, como a realidade é dura de enfrentar, melhor continuarmos a falar da ação da polícia na Amadeu Amaral, não é mesmo? A polícia, ao menos, já está acostumada a ser saco de pancada. barbara@uol.com.br www.barbaragancia.com.br |
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