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Matéria Publicada no jornal Folha de São Paulo, em 24/08/08 Faculdades dão "supletivo" para calouros Instituições privadas tentam compensar deficiências dos estudantes oferecendo aulas básicas de português e matemática "Eu via "braço" com s, "convicção" com x, "muito" com m no meio. Respostas não tinham pé nem cabeça", diz professor universitário Em matemática,
os estudantes aprendem a fazer contas básicas com frações,
porcentagens, proporções e regras de três. Em língua
portuguesa, as lições são sobre os acentos, sobre
o plural e a grafia correta das palavras. Temas tão elementares
como os listados acima, antes restritos à programação
dos colégios, agora aparecem na grade curricular de faculdades
e universidades particulares do país. As instituições
decidiram oferecer aulas de reforço depois de perceber que um número
considerável de seus alunos sofre para acompanhar cursos de direito,
letras, administração, engenharia. Mesmo tendo passado no
vestibular e alcançado a educação superior, muitos
deles estão despreparados. Às vezes, nem sequer dominam
o bê-á-bá. "Os alunos são
cada vez mais limitados. Não conseguem seguir o curso, vão
ficando para trás. Precisamos ajudá-los de alguma forma.
Como um aluno de engenharia vai ser aprovado em cálculo se não
sabe o básico do básico da matemática?", argumenta
o professor Antonio Sylvio Vieira de Oliveira, que coordena as aulas de
reforço de matemática da UnG (Universidade Guarulhos). Na Grande São
Paulo, também têm reforço os estudantes da Uniban
(Universidade Bandeirante), da Uni Sant'Anna (Centro Universitário
Sant'Anna) e da faculdade Alfacastelo. No Rio, a tendência é
seguida por instituições como a UniverCidade (Centro Universitário
da Cidade). Os universitários
com as maiores deficiências vieram das escolas públicas.
A qualidade da rede de educação do governo é muito
inferior à dos colégios particulares, como mostram as avaliações
feitas regularmente pelo próprio Ministério da Educação. Sem pé nem
cabeça Os professores universitários
não ficam assustados com o nível dos calouros? "Eu
não diria assustado, porque já estou acostumado com isso",
responde o professor Yutaka Torritani, que dá aulas de matemática
financeira no curso de administração de empresas da faculdade
Alfacastelo, em Barueri (Grande São Paulo). "Mas fico pensativo,
imaginando como está o sistema educacional lá atrás.
Como pode uma pessoa chegar à universidade e não saber certas
coisas?" O professor da área
de educação José Luís Simões, que hoje
coordena os cursos de licenciatura da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco),
diz que não sente saudades dos três anos em que trabalhou
em faculdades particulares de São Paulo. O sofrimento maior, de
acordo com ele, era corrigir as provas escritas. "Eu via "braço" escrito com s, "convicção" com x, "muito" com m no meio. Os caras emendavam "em frente" numa palavra só. De 20% a 30% das respostas não tinham pé nem cabeça. O aluno não sabe pôr uma idéia no papel. Eu começava a ler e pensava: "Meu Deus, o que eu vou fazer com ele?'", exemplifica Simões. "Claro que aqui, numa universidade federal, você também encontra coisas bizarras, mas é um percentual reduzido, porque o vestibular é mais rigoroso." Revisão Também precisam
recorrer às aulas de reforço os estudantes mais velhos.
São pessoas que decidiram cursar uma faculdade anos depois de terem
terminado o ensino médio. É inevitável que os conteúdos
escolares, mesmo os elementares, sejam apagados da memória com
o tempo. De acordo com dados
do Ministério da Educação, 44% dos novos universitários
têm mais de 25 anos de idade. As aulas de reforço
de português e matemática são, de maneira geral, gratuitas
e oferecidas fora do horário das aulas regulares. Às vezes
o aluno vai ao reforço por decisão própria, às
vezes a pedido do professor, que não gosta de perder tempo de aula
fazendo revisão de temas primários. Em certos casos, como
no curso de letras da Universidade Guarulhos, o reforço é
obrigatório e vale nota no boletim. Para os estudantes dos demais
cursos da instituição, as aulas extras são opcionais. "Centramos no
curso de letras porque é de lá que saem os futuros professores
das nossas crianças", explica Mayra Elza Leffi, diretora do
curso de letras da UnG. "Entende a gravidade? Não podemos
continuar tendo professor com problema de ortografia."
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Decálogo A nossa escola é, por previsão constitucional, pública e gratuita. Portanto, ela tem de ser custeada pelos cofres públicos. Todas
as omissões do Estado, com relação aos itens acima,
deverão ser objetos de ofícios
da direção às Diretorias Regionais de Ensino,
a fim de isentarem o diretor de eventuais responsabilidades administrativas.
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